Dataclysm – a disrupção da abundância de dados

dataclysmDisrupção é uma palavra que sofre muito nas mãos de publicitários com ego inflado e baixo poder de auto-avaliação. Por ser usada em 95% dos casos de forma errônea, evito-a de modo consistente. Porém, difícil não falar de disrupção, quebra de paradigma, quando se trata da atual abundância de dados públicos e semi-públicos sobre atributos, relações e ações sociais, devido à emergência das mídias sociais. Este foi um dos motivos para Christian Rudder dar o título apocalíptico Dataclysm – Who We Are* (*When We Think No One’s Looking) a seu livro.

Rudder está numa posição invejável para a grande maioria dos cientistas sociais, sejam eles focados em pesquisa acadêmica ou mercadológica: na frente do site de encontros OkCupid e com habilidades estatísticas e computacionais, ele tem a chance de cruzar e analisar dados comportamentais, expressivos e afetivos exclusivos de milhões de usuários.

Twitter, Reddit, Tumblr, Instagram, all these companies are businesses first, but, as a close second, they’re demographers of unprecedented reach, thoroughness, and importance. Practically as an accident, digital data can now show us how we fight, how we love, how we age, who we are, and how we’re changing. All we have to do is look: from just a very slight remove, the data reveals how people behave when they think no one is watching.

Em inspirado trecho, Rudder fala sobre quem fez “história” no decorrer da existência humana: apenas algumas figuras públicas e/ou extraordinárias (geralmente as vencedoras, quando se trata de conflito) tornaram-se merecedoras de ter memória para além de sua existência. Mas esta assimetria acaba quando temos memória, armazenamento e registro abundante:

But this asymmetry is ending; the small noise, the crackle and hiss of the rest of us, is finally making it to tape. As the Internet has democratized journalism, photography, pornography, charity, comedy, and so many other courses of personal endeavor, it will, I hope, eventually democratize our fundamental narrative.

O livro é estruturado em três partes: What Brings Us Together; What Pulls Us Apart; e What Makes Us Who We Are. Como os títulos dão a entender, o autor vai procurar mostrar como os dados sociais digitais podem explicar ou representar similaridades, conflitos e individualidades. No primeiro capítulo, um dos dados mais curiosos, gerado a partir do próprio OkCupid, mostra a diferença entre atratibividade percebida no website entre indivíduos heterossexuais. No gráfico abaixo estão cruzadas a idade dos usuários e idades preferidas para parceiros, dado coletado a partir dos rates (avaliações) reais no site de encontros:

okcupid - preferencia por idade

É incrível observar como os homens, em média, mantem o ideal da mulher jovem adulta, enquanto as mulheres permanecem com um ideal de homem pouco mais jovem ou velho do que si mesmas. O dado fica ainda mais interessante quando cruzado com a média de idade em que os homens e mulheres efetivamente enviam mensagens, dado no qual a discrepância é muito menor.

A primeira parte do livro é baseada na análise das relações afetivo-sexuais a partir dos dados do OkCupid. Vale a menção também a um experimento realizado com um aplicativo de encontro às cegas, no qual os usuários não poderiam ver a imagem com quem estavam marcando encontros. Cruzando os dados das pessoas que se encontraram com a atratividade percebida no site OkCupid, mesmo nos casos em qual a atratividade era muito discrepante (digamos, uma homem com nota 9 e uma mulher com nota 6), a satisfação pós-encontro às cegas foi muito mais positiva do que o esperado.

Na segunda parte do livro, Rudder passa a analisar itens mais sensíveis, especificamente a “raça” dos usuários e atratividade percebida entre asiáticos, latinos, brancos e negros. Rudder procura contextualizar os dados de forma responsável, mas acaba por ficar patente a crise que vivemos na sociologia empírica (ver Savage & Burrows). A redistribuição das hierarquias também ocorreu na pesquisa, como bem descreveu a Noortje Marres, e este livro é um dos exemplos disto. A força (pseudo) legitimadora dos dados quantitativos em uma fatia de mensuração (rating entre usuários) resultou no compartilhamento do gráfico abaixo em fóruns racistas:

okcupid match scores races

O tema, tão importante, interessante e sensível merecia ter seus dados explorados de forma mais fina por pesquisadores e pensadores com uma maior bagagem e peso em ciências sociais. A cisão que está se aprofundando com as restrições de acesso e habilidades computacionais a estes dados sociais digitais clama por esforços urgentes dos interessantes em ciência mais aberta. Em tempos de engenharia afetiva no Facebook e seu bilhão de usuários (defendida pelo próprio Rudder), isto parece estar cada vez mais longe.

A terceira parte traz um dos capítulos mais interessantes, chamado “Tall for an Asian”. A partir dos campos biográficos de auto-expressão nos perfis da OkCupid, Rudder realiza a medição de quais palavras são outliers para cada grande grupo demográfico que analisa, mostrando como o gerenciamento de impressões de cada segmento populacional é enquadrado pelos seus comportamentos e expectativas percebidas. Outra vez uma densidade teórica maior faria diferença, como a aplicação de referencial do Interacionismo Simbólico e Teoria Dramatúrgica. Porém, enquanto exibição de possibilidades metodológicas, a seção traz muitas ideias.

Em resumo, Dataclysm é um livro característico das tendências que fascinam (e/ou amedrontam) interessados em análise social a partir de dados digitais e um dos primeiros a ser escrito pelos novos grandes e isolados privilegiados deste cataclisma dos dados: os criadores/detentores de mídias sociais. O que está subjacente na possibilidade de produção deste livro é o que temos de mais importante e crítico nas ciências em torno da comunicação digital hoje.

 

 

12 Livros para o Profissional em Comunicação ler em 2014 – parte 4

Para finalizar as dicas de livros para 2014 (ver partes 1, 2 e 3), farei diferente: os três livros abaixo são publicações que ainda não li, mas com temas bastante relevantes, de autores que já conheço e que estão na minha lista de leitura do ano.

spreadable mediaEm Spreadable Media – creating value and meaning in a networked culture, Henry Jenkins, Sam Ford e Joshua Green “maps fundamental changes taking place in our contemporary media environment, a space where corporations no longer tightly control media distribution and many of us are directly involved in the circulation of content. It contrasts “stickiness”—aggregating attention in centralized places—with “spreadability”—dispersing content widely through both formal and informal networks,some approved, many unauthorized. Stickiness has been the measure of success in the broadcast era (and has been carried over to the online world), but “spreadability” describes the ways content travels through social media.”

Para quem não se lembra, Jenkins é autor também de Cultura da Convergência, publicação que analisou a cultura da convergência partindo de alguns produtos culturais bastante populares. Um dos casos mais interessantes é a análise das narrativas crossmedia a partir do caso de Matrix Reloaded e Matrix Revolutions, assim como a cultura da colaboração, paratextos e comunidades de interesse a partir de spoilersda série americana Survivor. Best seller, influenciou bastante o modo pelo qual o mercado pensou convergência e digital de 2008 em diante. O livro possui um site com blog, ensaios e reviews: spreadablemedia.org

a comunicação das coisasEm A Comunicação das Coisas: Teoria Ator-Rede e Cibercultura, o professor André Lemos “apresenta aspectos teóricos e exemplos práticos, sendo composto por seis capítulos e uma entrevista com o sociólogo francês Bruno Latour, o mais importante nome da TAR. O leitor vai encontrar temas atuais analisados pela ótica dessa teoria, tais como as mídias locativas, a “internet das coisas”, os dispositivos de leitura eletrônicos, como tablets e e-readers, as redes sociais, o ciberativismo, o jornalismo, entre outros. O livro, escrito por um dos mais importantes estudiosos da cultura digital no Brasil, pode ser útil para estudantes e pesquisadores em sociologia, filosofia, comunicação, geografia, arquitetura e urbanismo, informática e áreas afins.”

André Lemos é professor da Facom e Póscom-UFBA, líder do grupo Lab404 – Laboratório de Pesquisa em Mídia Digital, Redes e Espaço, autor de diversos livros como Cibercultura – tecnologia e vida social na cultura contemporânea e O Futuro da Internet, em co-autoria com Pierre Lévy. Para ter uma ideia do conteúdo de “A Comunicação das Coisas”, recomendo o artigo Espaço, Mídia Locativa e Teoria Ator-Rede.

the culture of connectivityThe Culture of Connectivity: A Critical History of Social Media, escrito pela pesquisadora Jose van Dijck, da Universidade de Amsterdam “studies the rise of social media, providing both a historical and a critical analysis of the emergence of major platforms in the context of a rapidly changing ecosystem of connective media. Author Jose van Dijck offers an analytical prism that can be used to view techno-cultural as well as socio-economic aspects of this transformation as well as to examine shared ideological principles between major social media platforms. This fascinating study will appeal to all readers interested in social media.”

Jose van Dijck é autora também de outros livros, como Mediated Memories in the Digital Age, que explora como as mídias digitais reconfiguram as práticas em torno das memórias pessoais. O artigo “Users like you? Theorizing agency in user-generated content” pode ser uma boa leitura inicial dos escritos da Van Dijck.

12 Livros para o profissional de comunicação ler em 2014 – parte 1

E chegamos ao quinto ano de dicas de livros. Assim como fiz para 2010, 2011, 2012 e 2013, publicarei 4 posts com 3 dicas de livros cada. A proposta é oferecer um livro para cada mês de 2014. Desta vez, ampliando o escopo para profissionais de comunicação como um todo, e não só mídias sociais. Então, vamos começar? Neste primeiro post, dicas de três livros sobre análise de pesquisa, conteúdo e métodos de descoberta. A comunicação tem a particularidade de ser extremamente analisável, especialmente em tempos digitais.

pesquisa qualitativaO livro Pesquisa Qualitativa com Texto, Imagem e Som é uma das coletâneas mais referenciadas em pesquisa qualitativa para comunicação. Organizado por Martin W. Bauer e George Gaskell, traz 19 capítulos divididos em três seções: “Construindo um corpus de pesquisa”, “Enfoques analíticos para texto, imagem e som”, “O Auxílio do computador” e “Questões de boa prática”. São textos sobre planejamento, condução, execução e análise de diferentes tipos de entrevistas, análise documental de texto, discurso, imagens, música e vídeos, além de reflexões guiadoras sobre o ato de pesquisar e tirar conclusões sobre a pesquisa.

Por exemplo, no primeiro capítulo, Qualidade, quantidade e interesses do conhecimento, os autores oferecem uma introdução sobre pesquisa, combatem a falácia da oposição quantitativo x qualitativo e discutem o interesse do conhecimento a partir de Habermas.

análise de conteúdoAnálise de Conteúdo, de Laurence Bardin, é um guia de como realizar análise de texto e linguagem, descrevendo as principais metodologias como análise de frequência, análise categorial, análise proposicional, de relações e outras.

Em tempos digitais, de monitoramento de mídias sociais e conversações, conhecer a análise de conteúdo é um grande diferencial para o profissional de comunicação. Os dados textuais são abundantes, mas extrair informações deles não é algo tão simples assim. Bardin nos oferece contextualização ao tratar de história e teoria da análise de conteúdo nas primeiras 50 páginas e logo vai à Prática, título da segunda parte, que apresenta quatro estudos de caso. O restante do livro mostra como fazer: em Método e Técnicas, terceira e quarta partes, são apresentados um passo-a-passo e detalhametno sobre os tipos diferentes de análise.

methods of discoveryPor fim, Methods of Discovery: Heuristic for the Social Sciences, é um clássico livro do professor Andrew Abbott, da Universidade de Chicago. O objetivo do livro é oferecer a estudantes e pesquisadores métodos heurísticos de gerar bons problemas e questões de pesquisa, balanceando rigor e imaginação. Em suas palavras, “Ciência é uma conversa entre rigor e imaginação. O que uma propõr, a outra avalia. Cada avaliação leva a novas proposição e assim por diante”.

Com isto em mente, o primeiro capítulo do livro fala de “Explicação” (Explanation). Abbott discorre sobre ciência e programas explicativos, através da descrição dos principais métodos das ciências sociais, como etnografia, narrativa histórica, análise causal, comparação de casos e formalização, assim como suas diferenças quanto a coleta, análise de dados e escopo de observação.

explanatory program - andrew abbott

Depois da fantástica abertura, o capítulo 2 trata dos Principais Debates e Práticas Metodológicas nas ciências sociais, a partir dos principais pólos como análise x narração, realismo x construtivismo, conflito x consenso etc. Os métodos e suas críticas uns aos outros também são abordados: os próprios argumentos usados pelos adeptos de cada método são destrinchados e exibidos como heurísticas úteis para problematizar ideias e questões. O capítulo seguinte é uma Introdução à Heurística, baseado nas proposições de Aristóteles, Kant, Burke e Morris. Os esquemas de pensamento propostos por cada um deles são oferecidos como heurísticas introdutórias a geração de questões de pesquisa. O capítulo cinco fala de heurísticas descritivas e narrativas, como mudança de contexto ou contrafactuais. O capítulo seis, por fim, retoma os pólos apresentados no segundo capítulo, mostrando como muito do que é produzido em ciência social é “fractal”: recortes dos pólos dentro das divisões e cisões anteriormente estabelecidas (como pensar a contextualidade x acontextualidade dentro de uma linha de pensamento já vista como contextualista).

Em breve, outros três posts com mais nove livros para seu 2014.

 

Internet en código feminino

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Internet en código feminino, livro organizado pela Graciela Natansohn, professora do Poscom-UFBA e coordenadora do Gig@, foi lançado recentemente e pode ser baixado gratuitamente.

A Internet e o ambiente digital colocam novos temas para a agenda feminista e para a comunicação: as brechas de acesso das mulheres e outros coletivos à rede e à cultura digital, os discursos misóginos da web, a violência de gênero – ciberassédio, sexting, a exposição da intimidade, o controle através de dispositivos tecnológicos. Tecnologia não é coisa de homem. O feminismo usa a rede para organizar-se, comunicar-se, empoderar-se. Como afirma a filosofa feminista Diana Maffía,“A brecha entre mulheres e tecnologia, vai nos dizer este livro, não é só um problema das mulheres. Devemos pensar desde o feminismo, desde uma posição política que procura a equidade entre homens e mulheres, a partir de uma nova visão que aspire à igualdade real, nomeando e considerando a diversidade sem renunciar à universalidade na disponibilidade dos recursos. Ademais, dentro do movimento de mulheres é preciso trabalhar sobre as barreiras subjetivas, as “fobias” a essa tecnologia que se percebe como hostil sem considerar seu potencial emancipador”.

Livro “Monitoramento e Métricas de Mídias Sociais: do Estagiário ao CEO” do Scup

Há pouco mais de dois meses o Scup deu de presente para o mercado o livro “Monitoramento Métricas de Mídias Sociais: do Estagiário ao CEO”.

Se possível fosse resumí-lo em 3 palavras, estas seriam: didático, conciso e consistente.

Didático por usar linguagem simples, esquemas, fluxogramas e situações introdutórias na abertura de alguns capítulos, que facilitam bastante a contextualização do assunto a ser abordado.

A difusão e padronização de determinados termos do mercado dão um ar de seriedade e verossimilhança com o dia a dia dos processos de monitoramento e métricas, necessários para manter a credibilidade da empresa e segurar o público acima dos 25 anos. A consistência, obviamente, fica por conta de todo conteúdo abordado.

Um dos principais diferenciais é que para falar de assuntos peculiares do mercado brasileiro o Scup conversou com ninguém menos que os profissionais, que lidam diretamente com os melindres das suas áreas de atuação. A ideia em si de convidar o mercado para participar do processo já é um grande avanço e o resultado, posso afirmar, que foi bastante satisfatório.

Destacarei aqui o que pode ser tirado de proveito para os estágiarios e os CEOs do mercado:

 

Aos Estágiários e Profissionais do Mercado

Padronização de termos, níveis de maturidade e ciclos de mídias sociais (smc):

Posso dizer que o livro aborda estes temas, que formam a base dos processos de monitoramento e métricas, com tamanha clareza e lucidez que é possível desmitificar toda complexidade que alguns vendem aos quatro ventos por aí.

Outro ponto positivo é o uso e abuso, no bom sentido, é claro, de tabelas para facilitar a implementação de alguns processos.

A abordagem e a contextualização dos níveis de maturidade das empresas e dos ciclos de mídias sociais (smc) acompanham o leitor por todo o livro e reforçam o conceito de que não há certo ou errado, o que vale é a adequação à realidade da empresa.

Aos CEOs

Aculturamento:

É corriqueiro vermos a ânsia de algumas empresas em ‘entrar’ nas redes sociais, metralhar conteúdo para tudo quanto é mídia social existente na internet, mas depois que o efeito ‘summer romance’ com as mídias sociais passa a preocupação fica. Como saber o que falam de mim na vastidão da web, questionam-se as empresas?

Justamente para evitar esse inchaço nocivo, o livro também é direcionado e recomendável para CEOs. A iniciativa de fomentar e, de certa forma, padronizar algumas culturas peculiares à área, como, por exemplo, a importância de criar aculturamento de monitorar, analisar, medir e difundir conhecimento é de grande importância para o mercado.

Além dessa grande iniciativa, o livro também ressalta a necessidade de o CEO olhar além de “o que falam da minha marca” para estar atento às possibilidades de criação de soluções estratégicas a partir dele.

Conclusão:

Como o próprio título sugere, não há a pretensão de ser ‘bíblia’, ‘guia definitivo’ ou outras maluquices que vemos por aí. Com esse livro, o Scup deu um baile e um passo a frente na concorrência, no quesito referência em desenvolvimento e fomento do mercado.

* Post por Mariana Ferreira, publicitária e gestora de mídias sociais na Dendê Brands.