Colonialismo de dados é fruto e arma da supremacia branca

[O texto abaixo é a adaptação de respostas a uma entrevista para reportagem sobre colonialismo de dados. Como habitual, todas menções à Europa, branquitude e supremacia branca nas respostas foram suprimidas da reportagem final. Testemunhamos em torno do mundo um apagamento do colonialismo “histórico” na formatação das condições para emergência das big tech e também o apagamento de como as colonialidades do poder, do ser e do saber se relacionam com tecnologia na distribuição de hierarquias de humanidade nas dominações globais.]

Práticas de extração e processamento de dados reproduzem fluxos de apropriação de capital e epistemes típicas de sanhas coloniais que moldaram o mundo, em especial em torno do Atlântico. O domínio de meios informacionais de circulação de dados é realizado através da plataformização de mais e mais esferas sociais através da datificação. Comunicação e esfera pública centrada nas mídias sociais, trocas financeiras de serviços centradas em aplicativos mobile e mesmo trocas afetivo-sexuais são registradas e monetizadas em softwares dominados por grupos dominantes que tem a capacidade de selecionar, criar, adquirir ou copiar serviços de startups que se destacam nos negócios da tecnologia.

Quando o capital financeiro global consegue realizar dumping em países dominados pelas potências europeias e EUA, mercados e indústrias locais são fragilizados graças ao controle das trocas realizadas nas plataformas. Dos aplicativos de transporte até tecnologias biométricas, passando por plataformas de mídias sociais, o colonialismo de dados reproduz a dominação dos fluxos e trocas em favor dos grandes centros e de grupos demográficos específicos quanto a raça, classe e gênero. O trabalho gratuito ou precarizado de centenas de milhões em torno do mundo desemboca, ao fim e ao cabo, na concentração de recursos dos negócios bilionários da tecnologia que se reinventaram para se apresentar a público como uma miríade de milhares de marcas ou, mesmo, pela ficção da “economia compartilhada” que oculta tal concentração.

Levando os fluxos de interesse em conta, com certeza a articulação pela produção intelectual e práxis sócio-política descolonial é uma necessidade para o avanço das ciências e soberania epistemológica do país, mas em grande medida o fluxo de ideias sobre algumas chaves teórico-conceituais em torno do colonialismo de dados reproduz a direção Norte-Sul. Uma agenda de pesquisa brasileira que se coloca voluntariamente como “à margem” dos centros passa a reproduzir um olhar eurocêntrico sobre sua produção. Ao consumir de forma assimétrica as produções europeias sobre caminhos descoloniais ou, ainda, abarcar a ideia de um pós-colonial, corremos o risco de produzir, literalmente, para “inglês ver”. Acredito na possibilidade de intensificação de articulações Sul-Sul que promovam a conexão do Brasil com a diversidade da América Latina e da África para conexões intelectuais que desenvolvam imaginários que não busquem a chancela eurocêntrica.

Minha pesquisa atual especificamente gira em torno do conceito de racismo algorítmico, que o modo pelo qual a disposição de tecnologias e imaginários sociotécnicos em um mundo moldado pela supremacia branca fortalece a ordenação racializada de epistemes, recursos, espaço e violência em detrimento de grupos racializados pela branquitude detentora das epistemologias e capitais hegemônicos que moldam o horizonte de ações da inteligência artificial em sistemas algorítmicos.

As práticas em torno da base de imagens etiquetadas ImageNet formam um dos exemplos mais loquazes sobre como o colonialismo de dados molda práticas e modelos que ganham incrementalmente camadas de opacidade até o ponto de serem tomados como naturais e promovem algoritmicamente o racismo. Esta base de imagens possui milhões de fotografias extraídas sem consentimento através de web scraping em buscadores. Foi etiquetada – ou seja, marcada com categorias para permitir o aprendizado de máquina – sobretudo através de trabalho do modelo “crowdsourced” realizado por profissionais precarizados em países como Filipinas e Índia. As imagens eram provenientes em sua absoluta maioria de países europeus e EUA, hipervisibilizando pessoas e ambientes destes países e invisibilizando estéticas do Sul Global. A partir deste treinamento de máquina, competições de construção de modelos algorítmicos para identificação de imagens foram realizados por centros científicos dos países afluentes. Como resultado, isto significou a reprodução opaca de modelos algorítmicos de interpretação de imagens em visão computacional que apaga ou interpreta erroneamente pessoas e ambientes não-eurocêntricos ao mesmo tempo que transferiu trabalho e recursos reproduzíveis e escaláveis para os centros afluentes da tecnologia global.

A própria existência de um oligopólio tecnológico que domina grande fatia do tempo, produção intelectual e comunicacional dos cidadãos e o valor financeiro decorrente é um empecilho inerente ao uso construtivo da internet para o bem estar social. Avança a discussão sobre a necessidade de desmembrar oligopólios do chamado FAANG – Facebook, Amazon, Apple, Netflix e Alphabet (a detentora do Google). Cada uma dessas corporações possui amplos conglomerados de empresas em setores como comunicação, mídia, inteligência artificial, varejo, infraestrutura e muitos outros, podendo cruzar dados de cada a seu bel-prazer e desenvolver modelos de ingerência nas esferas sociais, econômicas e políticas.

Neste sentido, vimos na última década como tal oligopólio se posicionou em um local privilegiado para interpretação da realidade social através da promoção da ideologia de mensuração científica de big data. Com centenas de cientistas, contratados a partir das melhores universidades do mundo, engajados em pesquisa para fins privados, grupos como Facebook e Alphabet acabaram por ter capacidade de interferência no mundo maior do que a de muitos Estados nacionais. Quando falamos de pesquisa científica, temos um risco de diluição do potencial transformador e investigativo de projetos possibilitados por grants financeiros ou acesso apenas a dados que as plataformas julgam confortável compartilhar. Precisamos defender com todas as forças a independência das universidades a esta ingerência privada e alheia aos interesses nacionais.

Discriminação algorítmica: desafios interdisciplinares

No último 5 de maio pude fazer a mediação do debate “Discriminação algorítmica: desafios interdisciplinares“, proposto em minha curadoria no projeto Renascença do Diplomacia para Democracia. Convidei Carla Vieira (perifaCode, USP e Google Developer Expert em Machine Learning), Bianca Kremer (Doutora PUC-Rio; pesquisadora FGV-Rio; Fellow Coding Rights) e André Mintz (UFMG, R-EST/UFMG e GAIA/USP) para responder as seguintes perguntas, respectivamente: Como a Computação pode Combater a Discriminação Algorítmica? Como o Direito pode Combater a Discriminação Algorítmica? Como a Arte pode Combater a Discriminação Algorítmica?

Assista abaixo:

Da mesma série, também faz parte o debate Desafios Globais por uma Internet Saudável.

Reconhecimento facial deve ser banido. Veja dez razões:

As tecnologias digitais baseadas em inteligência artificial para ordenação e vigilância de cidadãos no espaço público ganham mais mercado devido à evolução técnica e barateamento na última década. Vigilância e persecução de suspeitos por reconhecimento facial não é algo novo mas tem recebido mais atenção tanto por questões técnicas que aumentam o acesso a tais recursos, inclusive através de lobby das corporações de big tech, quanto pelo avanço de ideologias violentas de extrema-direita.

No Brasil, tecnologias do tipo estão sendo implementadas por governos de diferentes espectros ideológicos, como Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro para citar alguns exemplos. A principal tecnologia que busca normalizar o estado completo de vigilância potencial é o reconhecimento facial, proposta e defendida em diversos níveis do executivo e legislativo. Estudo promovido pela Intervozes mostrou que “dentre os 26 prefeitos de capitais empossados em janeiro de 2021, 17 apresentaram propostas que, de algum modo, preveem o uso das tecnologias de informação e comunicação na segurança pública”.

O compromisso público contra a tecnologia requer urgência, uma vez que quanto mais gasto público é aplicado em infraestruturas do tipo, mais seu uso é normalizado e difícil se torna o combate à sua implementação contínua e perene.

1) Reconhecimento facial e visão computacional são técnicas altamente imprecisas, em especial sobre pessoas racializadas
Reconhecimento facial e visão computacional para identificação de objetos em imagens e vídeos são tecnologias altamente imprecisas, com amplo histórico de erros com impactos violentos que desrespeitam os direitos humanos. Os frequentes erros em tecnologias do tipo e similares levaram estudiosos de vários locais no mundo a elaborarem o conceito de “racismo algorítmico” . Sobre reconhecimento facial, alguns exemplos anedotais ou de pesquisas estruturadas: softwares da IBM, Microsoft, Amazon e outros erram mais em imagens de mulheres negras; órgão estadunidense identificou que sistemas de biometria visual erram de 10 a 100 vezes mais com imagens de pessoas negras ou asiáticas; Google marca ferramentas em mão negra como arma; Instagram bloqueia anúncio mostrando favela por “conter armas” que não existem na imagem. Veja os casos na Linha do Tempo do Racismo Algorítmico.

Especificamente sobre casos de erros do reconhecimento facial para segurança pública, campo com pouquíssima transparência, há documentação de violências ocasionadas por erros vulgares por todo o mundo, como Salvador, Rio de Janeiro, Londres, Michigan etc. Em Londres, uma das poucas implementações com auditoria e pesquisa transparentes, o público foi erroneamente identificado em 96% dos casos.

2) A seletividade penal é norma nas polícias e judiciário brasileiros
A seletividade penal é norma nas polícias brasileiras, construídas desde o seu início como ferramentas de controle de populações vulneráveis e manutenção de relações de exploração e subjugação de classe, racialmente e patriarcalmente definidas. Adicionalmente, a polícia “erra” com mais frequência contra pessoas negras e pobres. Portanto, mesmo se sequer tomarmos uma posição explicitamente abolicionista, não podemos apoiar a implementação de mais mecanismos de promoção do encarceramento. Mesmo se tivéssemos tecnologias “precisas” de reconhecimento facial, tais vão contra projetos humanos de sociedade por avançar o encarceramento de pessoas, em grande parcela através de punição por crimes sem vítima.

Os dados sobre pessoas presas por reconhecimento facial no Brasil não são transparentes, mas organizações como o Centro de Estudos de Segurança e Cidadania levantaram que 90,5% das prisões realizadas com a tecnologia foram de pessoas negras.

3) Tecnologias digitais vistas como “neutras” ou “objetivas” favorecem ainda mais excessos de policiais
Alguns estudos emergentes descobriram que a percepção popular – e errônea – de que tecnologias digitais são neutras favorecem excessos de policiais, que agem impulsivamente aos primeiros sinais ou indícios oferecidos pelas tecnologias. A mediação tecnológica também cria mais barreiras entre suspeitos e policiais, promovendo ainda mais a desumanização ao tirar possibilidades de remediação face a face na relação social.

Dois casos sobre reconhecimento que exemplificam o problema: em prisão de homem em Michigan, o suspeito precisou mostrar repetidamente aos policiais o quanto a foto do homem nas imagens da câmera de segurança em nada se parecia nem com ele nem com a sua foto da base de dados. Apesar disso, os policiais custaram a questionar a autoridade do sistema computacional .

Em etnografia realizada na implementação do sistema de reconhecimento em Londres, pesquisadores observaram que policiais desrespeitavam os protocolos construídos para decidir se a abordagem seria realizada ou não. Segundo o estudo, era comum “oficiais de rua não esperarem pelo processo de decisão na sala de controle – um claro exemplo de presunção em favor da intervenção” , reforçando o perigo da relação violenta de tais tecnologias com a cultura policial, independente da precisão ou imprecisão da análise de reconhecimento.

4) O mercado de inteligência artificial esconde o funcionamento de seus sistemas usando a defesa por “segredo de negócio” ou “inexplicabilidade algorítmica”
Técnicas de inteligência artificial cresceram em complexidade a partir de lógicas conexionistas de aprendizado profundo em aprendizado de máquina. Uma das características deste avanço é a escala de cálculo de correlações entre dados e resultados desejados no sistema que não permite auditoria humana detalhada. Apesar de não permitir a plena compreensão humana das “decisões” do sistema , são usadas assim que cumprem objetivos de negócio. Os impactos comumente são percebidos apenas muito depois da implementação, por jornalistas ou grupos de defesa de direitos humanos.

Vinculado a esta lógica, as grandes corporações de tecnologia rechaçam auditorias algorítmicas ao alegarem “segredo de negócio”. Poucas decisões judiciais buscando reparação de dados firmam a posição pela transparência.

5) Tecnologias do tipo no espaço público pressupõem e fortalecem sociedade vigilantista
Mesmo desconsiderando os fatores acima, a disseminação de tecnologias de vigilância ubíquas e pervasivas favorece uma compreensão da sociedade e espaço público como lugar de suspeição contínua e indiscriminada. O impacto da aceitação da vigilância pervasiva para a saúde do tecido social é um fator ainda desconhecido, que pode promover ainda mais a demonização do espaço público e da rua.

6) Não podemos pressupor boa-fé de corporações de tecnologia
A última década demonstrou inúmeros casos de vínculos problemáticos de corporações de tecnologia – responsáveis por sistemas de inteligência artificial, tecnologias biométricas, dispositivos digitais ou armazenamento de dados – a projetos autoritários e imperialistas. Da influência do Facebook no Brexit e eleições americanas, extremismo digital no YouTube e lobby da Google no Conselho Administrativo de Defesa Econômica, a relação de corporações big tech ou startups de tecnologia com projetos autoritários e eugenistas é comum.

Devido à incompreensão do valor dos dados e colonialismo digital, instituições públicas brasileiras recorrem a usar serviços de tais organizações, pondo não só cidadãos como a própria soberania nacional em risco. Entre exemplos recentes, estão: o relatado pela pesquisa Educação Vigiada, sobre a exportação os dados de universidades e secretarias de educação brasileiras; o uso de servidor Oracle pelo TSE nas eleições 2020; e vazamento de dados de 533 milhões de usuários de Facebook em todo o mundo .

7) Vazamentos de dados vitimam empresas de tecnologias de todos os portes
Mesmo se os argumentos anteriores não estivessem presentes, o vazamento de dados por invasão criminosa de servidores ou problemas técnicos é um risco que desencoraja a permissão do acúmulo de dados massivos, em especial se biométricos. Casos cada vez mais frequentes de vazamento de dados são descobertos e instituições brasileiras que devem abordá-los ou puni-los são coniventes com projetos de privatização do estado. Em eventuais e prováveis vazamento de dados sensíveis como biometria e informações genéticas, o dano à sociedade é irreversível e imprevisível.

8) A infraestrutura de vigilância aumenta potencial violento de projetos autoritários
A disseminação de tecnologias de vigilância estabelecida no espaço público mesmo que seja aplicada apenas para fins do que é considerado hoje socialmente adequado em termos de segurança pública e persecução penal, cria potenciais violentos em governos antidemocráticos. A infraestrutura estabelecida em contextos com alguma garantia institucional pode ser facilmente arma de potencial inédito de dano em ditaduras ou guerras civis.

9) A imprecisão da tecnologia e infrações de direitos humanos são mais intensas para pessoas trans
A ideologia de produção de sistemas de inteligência artificial, em especial o reconhecimento facial, se calca em ideologias patriarcais, eurocêntricas e normativas sobre corpo, sexualidades e gênero. Pesquisadoras da Coding Rights apontam que tecnologias do tipo “reiteram e reforçam estereótipos de gênero ao classificar os rostos a partir de critérios definidos na própria criação das bases de dados que, em geral, são enviesadas tanto nas políticas de gênero, quanto nas políticas raciais” .

10) O custo-benefício para captura de condenados não justifica a coleta massiva
Na milionária implementação de reconhecimento facial em Londres, as bases reuniam fotos de mais de 2.400 suspeitos que geraram apenas 8 prisões. Dados proporcionais ainda piores são reportados no Brasil, onde gigantesca infraestrutura de reconhecimento facial foi implementada na Micareta de Feira de Santana, Bahia, coletando e vulnerabilizando 1,3 milhões de rostos para o cumprimento de apenas 18 mandados.

Imagem do card: https://www.flickr.com/photos/electronicfrontierfoundation/39225139155

Por outros imaginários sociotécnicos

[Texto originalmente publicado na revista Observatório Itaú Cultural, n.28 para dossiê sobre Cultura, Artes e Pandemia]

As tecnologias de todos os tipos são moldadas por contextos históricos, sociais e ideológicos. Não existem tecnologias neutras implementadas em vácuos sociais assépticos: a própria ausência ou presença de um artefato abre ou restringe possibilidades e usos. As tecnologias hegemônicas implementadas em um mundo absurdamente desigual, fruto da interseção da supremacia branca, patriarcado e colonialismo tendem a ser suas reprodutoras. A crise de um mundo em aparente suspensão na pandemia nos faz perguntar: há um futuro melhor pós-pandemia com os aprendizados que podemos acumular?

Um trabalho duro e focado em prol da transformação social é tanto uma questão de economia, política e ativismo quanto o é de construção de imaginários. Aquelas são questões que vão muito além do que pensamos ser o escopo da materialidade da tecnologia ou da ciência. São questões que tratam do que somos capazes de imaginar sobre o possível, o impossível e o desejável.

Provavelmente devemos deixar de lado a ideia de uma lança cortante em direção a um futuro único e com mais e mais progresso através do domínio e subjugação da natureza. Essa ficção ideológica subjaz as sociedades industriais e pós-industriais do capitalismo ocidental. Ela moldou como a ciência e como a arte pensam o próprio passado: um dos cortes mais memoráveis do cinema faz o espectador ligar a descoberta primitiva do uso de um osso como porrete, a suposta gênese da tecnologia, à nave espacial desbravadora do universo, suposto zênite tecnológico da humanidade.

Mas há outras narrativas e abordagens sobre a gênese da tecnologia. A partir dos estudos da antropóloga Elizabeth Fisher, a escritora de ficção científica Ursula K. Le Guin nos ensina que uma tecnologia essencial para a construção da sociedade foi subestimada nos modos hegemônicos de contar a história da humanidade e as estórias dos humanos. Le Guin lembra que “com ou antes da ferramenta que projeta energia, fizemos a ferramenta que traz energia para casa” (LE GUIN, 2017, pos. 2985) – e esta ferramenta é a aparentemente prosaica sacola.

O recipiente, o container e demais objetos para guardar e compartilhar marcaram um momento em que os seres humanos desenvolveram uma relação mais criativa com o tempo e consigo mesmos. As jornadas dos heróis individualistas, porém, historicamente não tiveram espaço para a centralidade destes artefatos. Se a contação de histórias, o storytelling nos discursos anglicistas, é linear com um fio narrativo que emula lanças ou flechas, só temos espaços para a histórica única, um perigo que nos alerta também a Chimamanda Adichie (2019), onde não há espaços para olhares feministas, africanos, indígenas, afrodiaspóricos, decoloniais da tecnologia.

Jurema Werneck concorda ao lembrar que a criação de satélites deslumbra, mas tecnologias de armazenamento, compartilhamento e transporte de alimentos e bens, foram invenções de mulheres na África nos passos essenciais de construção da humanidade (WERNECK, 2019). Mas enviar carros para a órbita ganha mais capas de jornais do que experiências inovadoras de segurança alimentar ou autogestão de comunidades periféricas. 

Precisamos falar do que conseguimos, enquanto sociedades, imaginar de soluções para o presente e o futuro sobre a relação entre tecnologia e sociedade. Evoco aqui a ideia de imaginários sociotécnicos, que são “visões de futuros desejáveis mantidas coletivamente, estabilizadas institucionalmente e publicamente performadas, incentivadas por compreensões compartilhadas de formas de ordem e vida social alcançáveis por e apoiadoras de avanços na ciência e tecnologia” (JASANOFF, 2015, p.19)

E quais são os imaginários sociotécnicos hegemônicos na sociedade brasileira? E para além disto: quais são os imaginários sociotécnicos “importados” nas tecnologias e ideologias dos outros países e culturas que vemos como referência de onde importamos tanto as tecnologias materiais quanto as epistemologias na produção de artefatos? O poeta e pesquisador Amiri Baraka faz uma contundente crítica às tecnologias ocidentais em seus projetos de moldar o mundo à suas próprias reproduções. Não são neutras pois poderiam ter seguido outros caminhos, outros modos de interação com o humano. Se olharmos para as formas das coisas e também para as dinâmicas sociais e culturais da tecnologia para além de tais formas, poderemos nos libertar de seu falso determinismo. Baraka nos lembra que a pólvora nasceu para fins medicinais, se transformou em beleza nos fogos de artifício na China, mas se globalizou como uma ferramenta da violência. Nos pede então que questionemos “o que as máquinas produzirão? O que alcançarão? Qual será sua moralidade? (BARAKA, 1965, p.158).

 Infelizmente, os dados históricos e movimentações mostram que Brasil e EUA se irmanam no que Ruha Benjamin chamou de “imaginação carcerária da tecnologia”. Para Benjamin, precisamos treinar nosso olhar para entender o desenvolvimento tecnocientífico para além da superfície material, observar e mapear “quem e o que é fixado no mesmo lugar – classificado, encurralado e/ou coagido, para permitir a inovação” (BENJAMIN, 2020, p.20). As tecnologias de rastreamento e controle dos cidadãos no espaço público e privado já estavam em crescimento, como mostram dados sobre o reconhecimento facial para policiamento e a profusão de erros técnicos, morais e legais (NUNES, 2019) mas a pandemia é usada como oportunidade para avançar a normalização desta e de outras tecnologias que promovem a restrição e o autoritarismo.

Tecnologias do social como plataformas de compartilhamento, do valor do comum no creative commons, do associativismo digital, movimento wiki e afins resistem para além do que recebe visibilidade nos oligopólios da tecnologia digital do Vale do Silício. O desencanto com a globalização tem muito a ver com essa distinção. Se os entusiastas da internet, das línguas e do transporte globalizados sonharam com os benefícios das trocas em redes massivas, não levaram em conta a dinâmica de conexão preferencial que seguiu a tendência do capital (o financeiro e o social) para acumulação e desigualdade. O coletivismo irmana abordagens feministas e afrofuturistas sobre a tecnologia em prol de projetos igualitários, diametralmente contra a lógica individualista da cultura de startup onde o winner takes all nada tem de meritocracia, apenas reprodução da capacidade de dumping dos mercados financeiros em projetos de automatização de desigualdades para concentração de capital através de aplicativos e plataformas.

Imaginários tratam tanto das lentes usadas para interpretar fenômenos e ações presentes – considerando interpretações do passado – quanto na definição de horizontes de possibilidades. Tecnologia vai muito além de dispositivos digitais. Falar de imaginários é falar também de inspirações e retroalimentações estéticas, afetivas e sociais como o afrofuturismo visto “como um mecanismo para focar discurso substanciador em táticas de produção como design especulativo estende as fronteiras das soluções plausíveis através do engajamento” (WINCHESTER III, 2019, p.56) efetivo com quem produz, usa, inventa e reapropria as tecnologias.

Uma proposição do afrofuturismo como ligada a desenhos e produção liberatórias, como design centrado no humano, inclusividade, frameworks anti-opressivos por padrão e intenção, além da ideação de artefatos pelas comunidades (WINCHESTER III, 2019) aproxima as iniciativas dos aprendizados paradoxais das periferias locais e mundiais. De comunidades periféricas brasileiras como Paraisópolis que já usava tecnologias afetivas, digitais (como vaquinhas online e mapeamentos alternativos do espaço urbano) e políticas em seus “presidentes de rua”, responsáveis por cuidar de grupos de famílias de modo distribuído, a aplicativos como o Market Garden que conecta pequenas feirantes e agricultoras a consumidoras no interior de Uganda, as rápidas e criativas inovações com impacto na proteção de vidas não serão vistas através dos valores de high tech ou disrupção dos grandes eventos de tecnologia. Estarão mais próximas das estórias  que nos dizem “o que as pessoas fazem e sentem, como as pessoas se relacionam com tudo o mais neste amplo e vasto recipiente, esta barriga do universo, este útero das coisas que foram, esta estória contínua” (LE GUIN, 2017, pos.3043) do comum, das pessoas comuns. Se rejeitarmos a centralidade do herói único, do conflito e da competição nas estórias que contamos sobre as tecnologias e o futuro, podemos pensar em um novo normal que dê o devido valor à solidariedade que reinventou tecnologias e redes durante a pandemia.

Fins do mundo já existiram em demasia para diferentes povos, como nos mostram as experiências da Porta do Não Retorno e o sequestro genocida através do Atlântico e nas Américas, que construíram a base cumulativa de valor que hoje desemboca nos oligopólios da tecnologia digital através do capital financeiro. Aílton Krenak, ao falar do fetiche ocidental sobre a ideia de fim do mundo, diz que se preocupa é com os brancos, uma vez que aprendeu “diferentes manobras que os nossos antepassados fizeram e me alimentei delas, da criatividade e da poesia que inspirou a resistência” (KRENAK, 2019, pos.135). Durante e pós-pandemia, nossos futuros possíveis mais igualitários estão pendentes fundamentalmente nas alianças globais que reconheçam e se inspirem no fato de que “as comunidades mais vulneráveis, de novo e de novo, por gerações, ao longo de centenas de anos, criaram beleza e resiliência na vida repetidamente” (NELSON, 2020, s.p.).

Finalizo a redação deste texto no dia em que mais um foguete de parceria público-privada dos EUA decola, alimentando a fantasia de colonização de outros planetas por um bilionário que defendeu o fim do isolamento social quando mais de 300 mil pessoas já estavam mortas pelo COVID-19 – para que suas fábricas de carro voltassem a funcionar. Não é a imaginação dos bilionários que permitirá a inovação em prol da diminuição das desigualdades. E não é o imaginário sociotécnico cartesiano, eurocêntrico, colonial e capitalista que nos salvará enquanto humanos.

Como citar?

SILVA, Tarcizio. Por outros imaginários sociotécnicos no novo normal. Revista Observatório Itaú Cultural, n.28, 2020, pp.37-41.

Referências

ADICHIE, Chimamanda. O perigo de uma história única. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

BARAKA, Imamu Amiri. Technology & Ethos. Raise, Race, Rays, Raze: Essays Since 1965, p. 155-158, 1965.

BENJAMIN, Ruha. Retomando nosso fôlego: Estudos de Ciência e Tecnologia, Teoria Racial Crítica e a imaginação carcerária. In: SILVA, Tarcízio. Comunidades, Algoritmos e Ativismos Digitais: olhares afrodiaspóricos. São Paulo: LiteraRUA, 2020.

JASANOFF, Sheila. Future Imperfect: Science, Technology, and the Imaginations of Modernity. In: JASANOFF, Sheila; KIM, Sang-Hyun (orgs.). Dreamscapes of modernity: sociotechnical imaginaries and the fabrication of power. Chicago (EUA): The University of Chicago Press, 2015.

LE GUIN, Ursula K. Dancing at the Edge of the Worlds: Thoughts on Words, Women, Places. Open Road+Grove/Atlantic, 2017.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2019.

NELSON, Alondra. Coronavirus Crisis And Afrofuturism: A Way To Envision What’s Possible Despite Injustice And Hardship. Entrevista concedida a Tonya Mosley, 04 de maio de 2020. Disponível em https://www.wbur.org/hereandnow/2020/05/01/afrofuturism-coronavirus

NUNES, Pablo. Maioria dos presos por reconhecimento facial são negros. Intercept, 21 de novembro de 2019. Disponível em https://theintercept.com/2019/11/21/presos-monitoramento-facial-brasil-negros/

WERNECK, Jurema. Entrevista ao Olabi – Encontro Mulheres Negras Pautando o Futuro. 2019. Disponível em https://www.facebook.com/olabimakerspace/videos/1972206733088143/

WINCHESTER III, Woodrow W. Engaging the Black Ethos: Afrofuturism as a Design Lens for Inclusive Technological Innovation. Journal of Futures Studies, 24(2), 2019.