O que é blackfishing? Transracialismo parasita por dinheiro nas mídias sociais

Blackfishing é uma prática quando alguém finge ser negro, geralmente realizada por alguém branco, para buscar algum benefício financeiro, afetivo, social ou político. Os pesquisadores Ronaldo Ferreira de Araújo e Jobson da Silva Júnior descreveram como:

Na prática do blackfishing vemos pessoas não-negras que se pintam de preto, não como forma de resistência ou proteção contra as formas mais brutais de violência, mas em benefício próprio pela apropriação de elementos puramente estéticos que desrespeitam toda a cultura negra assim como toda a luta da população negra, uma evidente aproximação das práticas de racismo recreativo, agora monetizado.

Um exemplo que ganhou popularidade mundial foi a da “ativista” Rachel Dolezal, que simulou afiliação étnico-racial e cultural à negritude nos Estados Unidos para galar um posto em importante organização, a NAACP:

Nas mídias sociais, o fenômeno se intensificou. Com as conquistas econômicas das populações afrodiaspóricas no Brasil e nos EUA e a ocupação de cargos em organizações da indústria cultural mainstream, o espaço para artistas e influenciadores negros aumentou. Com isto, também houve aumento da apropriação cultural e quase epidérmica.

O texto “Blackfishing e a transformação transracial monetizada” é um capítulo escrito por Ronaldo Araújo e Jobson da Silva Júnior que explora este fenômeno a partir dos estudos de informação, em perspectiva crítica e empírica.

Eles apontam, a partir de Melissa Villa-Nicholas e Latesha Velez, que “centralizar os estudos de Ciência da Informação (CI) contextualizando-os em uma análise de como a raça e o racismo afetam nosso campo muda o que achamos que sabemos e nosso entendimento sobre os estudos de informação

Na introdução do capítulo, os autores refletem sobre a relativa ausência do debate racial nos campos da BCI (Biblioteconomia e Ciência da Informação), apresentam autoras e autores que tem buscado preencher esta lacuna. O uso da hashtag #blackfishing tem crescido nos últimos anos, o que veem como “denúncia do fenômeno e trazendo uma série de novos elementos para a discussão do processo de (re)construção da identidade negra em meio a prática do racismo e suas reinvenções como estratégia de manutenção do status quo.”

Na seção a seguir, os autores discutem identidade racial e as reinvenções dos racismos nas mídias sociais. O histórico da exploração do racismo anti-negro como prática recreativa em domínios intelectuais e sexuais é apresentado a partir de autores como Frantz Fanon e Stuart Hall. É especialmente importante a apresentação deste histórico e reflexão para lembrar que a maior parte dos fenômenos digitais, inclusive práticas racistas, não nascem de um vácuo, mas são desdobramentos e reinvenções de opressões e resistências já inscritas nas culturas em questão. No caso das narrativas das mulheres negras, autoras como Helenise da Cruz Conceição, Antonio Carlos da Conceição e Dayana Souza são interligadas na reflexão sobre identidades e blackfishing, praticado com frequência por mulheres brancas, que costumam ser as protagonistas dos conteúdos publicitários no mercado de beleza e decorrentes influenciadoras na área:

ainda que as mídias sociais possam proporcionar maior visibilidade e empoderamento da mulher negra, tendo inclusive “a questão da estética negra como agenciadora de construção de identidade” (Souza, 2018, p.109), com o blackfishing não só as narrativas digitais, mas o próprio lugar da mulher negra é negado e seus traços identitários usurpados.

Enquanto método principal, os autores realizam uma abordagem de análise de redes de conversações e sentidos com o mapeamento de 1.403 micronarrativas sobre o blackfishing no Twitter, que totalizam 18.170 termos e expressões. As disputas de narrativas são descritas em casos públicos que geraram não só revolta de pessoas negras contra o racismo e apropriação cultural, quanto tréplicas de racistas que tentam deslegitimar o discurso antiracista.

Observamos que a discussão sobre o racismo nas redes sociais como um todo, e especificamente no Twitter, tem como tendência a negação do fenômeno a partir de uma perspectiva histórica. No campo dos estudos étnicorraciais é evidente que a problemática tem raízes históricas, no Brasil podemos citar além da escravização, a falta de interesse do Estado, manifestada na ausência de políticas públicas voltadas para a população
negra no tocante aos seus direitos fundamentais.

A análise levantou termos por frequência e discorre sobre como são usados para defender pontos de vista antagônicos a depender dos emissores. As denúncias contra o blackfishing recebem numerosas respostas em discordância, mostrando esforços e motivações coletivas para deslegitimar a crítica negra e reforçar o lugar racista da apropriação cultural branca, o que levam os autores a concluir que “aduz uma resistência assustadora a esses avanços, na contemporaneidade, ao que parece, qualquer passo dado em direção a uma sociedade mais igualitária é visto como ameaça e reprimido violentamente“.

Acima temos apenas um pequenino resumo de alguns pontos e colaborações do capítulo dos autores, que merece ser lido em toda sua densidade e complexidade. Baixe a versão digital e/ou compre a versão impressa do livro em http://www.literarua.com.br/livro/olhares-afrodiasporicos

Pesquisa acadêmica: o caminho para a evolução da análise de dados no mercado

A fatia da população brasileira com ensino superior ainda é absurdamente pequena. O gráfico abaixo compara dados de 2014 da OECD, mostrando a fatia da população entre 25-64 anos com ensino superior. Apesar da relativa evolução na última decada, o Brasil conseguiu formar apenas 14%, nesta lista à frente apenas de Indonésia e China (que, devido a sua população gigantesca, acaba por ter várias vezes o número de formados que o Brasil). Japão, Rússia, Canadá e EUA superam 50%.

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Apesar desta triste realidade, são comuns os discursos que menosprezam o papel das universidades e da formação e pesquisa acadêmicas no país, sobretudo entre parte do mercado ligado à publicidade. Lembro como, no ano passado, uma matéria sobre o papel da graduação na formação de bilionarios viralizou no meio. Seu título era “Você vai se surpreender quando descobrir qual graduação mais forma bilionários” e supostamente surpreendia o leitor ao mostrar que, na verdade, na frente de cursos de Business e Engenharia, estava simplesmente a opção “Nenhuma”. O estudo mostrou que 32% dos bilionários americanos levantados não se formaram, contra 68% que se formaram em alguma graduação. Este dado foi visto como indicador, no discurso neoliberal, de que graduação não é sinônimo de “sucesso”.

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Uma das versões da reportagem.

A ironia é que cruzar dados é justamente algo que pode ser aprendido em graduações. Os dados da OECD também mostram que 45% da população americana, onde está a maioria dos bilionários, se formou. Ou seja, 55% não se formaram contra 32% dos bilionários. Bastaria ter um pouco de repertório crítico-analítico para ver que os dados da matéria mostram que os ricaços são mais educados formalmente que a média da população. E isto sem falar de todas as variáveis sistêmicas que explicam sua riqueza.

Em novembro foi publicada a pesquisa Perfil dos Profissional de Inteligência em Mídias Sociais, desenvolvida por Ana Claudia Zandavalle.  Como comentei nos resultados do ano passado, a pesquisa mostra importante fatia de pós-graduandos neste mercado, com salário muito maior que a média.

Também curioso é que grande parte destes profissionais estão alocados em agências de publicidade, que em peso “ignoram” a formação acadêmica. Mas, nas áreas de monitoramento, business intelligence e métricas, profissionais com formação acadêmica densa se destacam. Estes profissionais se destacam nas agências por capacidades adquiridas na universidade ou através de procedimentos de investigação aprendidos em grupos de pesquisa – mas as agências subestimam a formação. Ou, pior: as desmotivam publicamente.

Já no recorte do “mercado de mídias sociais”, que cerca de 8 anos atrás ainda era uma grande novidade, um fenômeno curioso aconteceu. De um lado, predominava o discurso de que as mídias sociais eram algo “novo” e por isto as formações existentes não dariam conta de suas especificidades. Balela, claro, pois decisiva mesmo é a formação em comunicação, psicologia social, linguística e disciplinas ligadas a interação humana, e não aprender a apertar botão ou onde ficam as funcionalidades na interface do Facebook. E ao mesmo tempo, por ser um mercado percebido como novo e que não requer inicialmente muito mais que um computador, as barreiras de entrada eram mínimas. Então centenas de agências surgiram neste período, diversas delas criadas por graduandos.

Foi o meu caso. Criei com amigos uma agência em 2008, quando ainda estava acabando a graduação. O ambiente propício foi a excelência acadêmica da UFBA em um laboratório com apoio externo, do mercado. Desde então, além desta agência, ao menos quatro agências/institutos nasceram das mãos daqueles ex-bolsistas. E a maior parte continua desenvolvendo, também, pesquisa acadêmica.

Entretanto, estas parceiras público-privadas em pesquisa & desenvolvimento são raras em comunicação no Brasil. Sobretudo devido ao desinteresse das empresas em retornar o que recebem direta e indiretamente das universidades e do Estado. A desvalorização da formação acadêmica em alguns meios da comunicação se intensificou ainda mais com as narrativas em torno de figuras como Steve Jobs e Mark Zuckerberg.

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Porém, a maior parte deste discurso deixa de lado a relevância do papel das universidades no início da criação de empresas como Microsoft, Apple e Facebook; deixam de lado o quanto estas empresas contratam cientistas; e como elas próprias desenvolvem estruturas que copiam as universidades. Este discurso comumente vem casado com a velha demonização do papel do estado. Mas como mostra a consultora italiana Mariana Mazzucato no excelente livro O Estado Empreendedor, mesmo a Apple deve seu sucesso ao investimento em pesquisa de base que o liberal Estados Unidos faz:

Em suma, “descobrir o que você gosta” enquanto continua sendo “louco” é muito mais fácil em um país em que o Estado desempenha um papel fundamental, assumindo o desenvolvimento das tecnologias de alto risco, fazendo os investimentos iniciais, maiores, mais arriscados e depois sustentando-os até que os atores do setor privado, em um estágio muito mais adiantado, apareçam “para brincar e se divertir”. Assim, enquanto os especialistas do “livre mercado” continuam a alertar para o perigo de o governo “escolher vencedores”, pode-se dizer que várias políticas governamentais americanas lançaram as bases que deram à Apple os instrumentos para se tornar um dos principais integrantes de uma das indústrias mais dinâmicas do século XXI.

Mas, para além desta discussão, chegamos a um momento crucial na relação da comunicação com práticas científicas. A “era do big data” e a metrificação de (quase) tudo requerem mais ciência, mais análise, mais dados, mais rigor, mais ferramentas, mais P&D. Tanto o desenvolvimento do mercado como um todo quanto dos indivíduos interessados em atuar nesta área passa por mais especialização e ciência, não menos. É hora do mercado se atualizar e ver que os cientistas acadêmicos pesquisam e aplicam há décadas inovações que a maioria das empresas nem sonham.

Promover e defender a ciência brasileira é muito importante, sobretudo no atual momento. Se você que lê este texto atua e/ou possui algum tipo de impacto no mercado da comunicação, espero que este texto possa te tocar para fazer parte desta compreensão. Não consigo entender como um brasileiro não se choque com aquele gráfico lá no topo do post. Precisamos atuar para expandir o acesso a universidades no país e sua efetiva democratização. Do ponto de vista do “mercado”, mesmo sem pensar em motivos mais nobres, este perde em muito em não consumir e disseminar a pesquisa acadêmica.

Se você é estudante e está lendo o blog para aprender algo novo, saiba que o caminho pode passar pela junção rigorosa dos diversos mundos de conhecimentos e práticas. Leia, procure, atue, pesquise, se aproprie, transforme, ensine e leve suas experiências para a universidade e para outras pessoas.

Mas por mais válida que seja esta minha crítica em si, podemos ir além e tentar afetar o mercado de forma positiva. Recentemente lançamos mais um livro gratuito (é meu quinto) e hoje trago outra novidade relacionada ao tema que discuto aqui. Fizemos a curadoria de uma lista de 100 pessoas do Brasil e do mundo que publicam conhecimento sobre Pesquisa e Monitoramento de Mídias Sociais. Isto resultou em mais de 1 mil links de artigos, vídeos, entrevistas, ferramentas e tutoriais:

100-fontes-de-monitoramento

Com uma listagem destas, é impossível dizer que há pouco conhecimento acadêmico sobre o assunto ou alegar que não o encontra.

Vamos estudar e aplicar juntos?

Internet: terreno fértil para construção de novas narrativas contra o racismo

Pude falar um pouco do ponto de vista da comunicação e mídia na reportagem “Internet: terreno fértil para construção de novas narrativas contra o racismo”, de Juliana Dias, na revista Acho Digno. O texto traz vários projetos fantásticos de afroempreendedorismo e contra-narrativas para combater o racismo. Acesse:

revista acho digno

Coleta de Dados em Mídias Sociais para Pesquisa Acadêmica

No mês passado pude participar da Jornada Internacional Geminis 2016 em duas atividades bem interessantes: debate com o mote “A Revolução Será Monitorada?” e workshop sobre Coleta de Dados para Pesquisa Acadêmica. Seguem as apresentações: