Como mensurar o discurso de ódio e o racismo online?

A mesa “Como mensurar o discurso de ódio e o racismo online?” fez parte da conferência “Racismo e Discurso de Ódio na Internet: Narrativas e Contra-Narrativas, promovida pelo Berkman Center (Harvard) e plataforma Vojo Brasil, entre 27 e 29 de abril. Além de mim, participaram Renato Meirelles (DataPopular) e Fábio Senne (Cetic.br).

Eu falei especialmente sobre o papel da construção de dados como contra-narrativa:

No canal YouTube do portal Correio Nagô é possível assistir a gravação completa do evento:

Fotografia nas mídias sociais como recurso etnográfico

[Artigo originalmente publicado no blog do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados]

A utilização de imagens para compreender aspectos e comportamentos dos indivíduos está longe de ser algo novo. Ciências sociais e pesquisa de mercado trabalham com análise de imagens e fotografias há décadas, seja no registro documental de comunidades e culturas e pelos pesquisadores; em desenhos de pesquisa com coleta documental de registros fotográficos ou expressões artísticas; ou ainda com a participação ativa das culturas estudadas, comumente com o fornecimento de câmeras para participantes motivados a oferecer seus olhares sobre um tema, lugar ou comportamento.

De especial relevância a interessados em etnografia online e em técnicas qualitativas, estão algumas metodologias baseadas na produção de imagens pelos participantes. É comum a utilização de recursos como máquinas fotográficas descartáveis para promover a participação de comunidades na construção reflexiva de conhecimentos e discursos sobre si e entorno. As fotos abaixo, respectivamente, tratam da utilização da técnica nos contextos: (a) perspetivas de crianças sobre tecnologias nos ambientes domésticos; (b) uso de fotografia e outras modalidades estéticas para jovens explorarem as cidades.

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A materialidade dos dispositivos nestes dois exemplos é um ponto muito relevante para os estudos. Uma vez que os filmes são limitados, a escolha de cada disparo tende a ser um momento de definição e expressão acentuadas pela escassez. Quando pensamos, entretanto, nas máquinas fotográficas embutidas em nossos atuais smartphones, esta escassez não existe. É possível fotografar com limites quase negligenciáveis pelos usuários comuns: um smartphone médio hoje comporta milhares de fotos.

Entretanto, o desenvolvimento de sites de redes sociais adiciona uma camada simbólica muito importante para a produção e publicação de fotografias. O que é publicidade por um usuário de Flickr ou Instagram em seus perfis passa por um processo de seleção pautado pelas expectativas de auto-apresentação dos indivíduos. Porém, enquanto o Flickr “reforçava sentimentos de pertencimento através de experiências compartilhadas através de fotografias […], formando uma percepção coletiva do mundo” (Papacharissi, 2013) através de fins sobretudo artísticos e documentais, o Instagram mudou de vez o eixo dos interesses (e direção das câmeras).

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Enquanto apresentação do cotidiano compartilhado, o Instagram torna-se uma plataforma mais vinculada à auto-expressão para fins de conquista de afeto, status e capitais sociais diversos. Visto como perfil pessoal, as pessoas selecionam as fotos no Instagram imaginando atributos e valores representativos do seu self ideal. O olhar para o próximo, o individual e o particular  se intensificam no Instagram, como demonstra o levantamento abaixo: selfies e amigos se destacam como principais tipos de fotos (HU, MANIKONDA & KAMBHAMPATI, 2014).

Deste modo, o Instagram hoje é uma fonte privilegiada para estudos etnográficos. Apesar de uma boa quantidade de perfis serem fechados (taxa menor que Facebook porém maior que Twitter), a extração de dados do Instagram é relativamente mais fácil. O resgate retroativo de publicações de determinados perfis, hashtags ou localizações é facilitado por ferramentas plenas de monitoramento de mídias sociais ou mesmo scripts dedicados e gratuitos como a Instagram Scraper do Digital Methods Initiative.

Tipos de fotos mais comuns no Instagram

Tipos de fotos mais comuns no Instagram

Fotos como as listadas acima, utilizadas em estudo sobre a atividade social em torno de churrasco, convidam o pesquisador a aplicar um olhar quase meta-voyeurístico dos olhares de um determinado público. Através de um bom recorte de pesquisa no Instagram é possível compreender padrões entre os tipos de imagens selecionadas. Os cliques realizados pelos usuários são pequenas janelas abertas a seus cotidianos. Objetos, pessoas, poses, gestos, marcas, atividades e lugares podem ser numerados, listados e cruzados com outras características.

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Mesmo antes da quantificação, o confronto a realidades diferentes a partir da consciência do que é enquadrado (o que sempre traz o “não-enquadrado” indiretamente). A simples listagem “em análise formal e explícita de seus conteúdos é um potente dispositivo representacional” (BECKER, 2001). O desafio, entretanto, é a lógica dominante da automatização e quantificação simples dos elementos: algo que só pode ser feito fácil, em arremedos, em texto.

Para não deixar todo este valor perdido, é importante ver o trabalho da pesquisa e monitoramento em mídias sociais não apenas como um mecanismo de controle e reporte, mas de forma estratégica ao longo da gestão da comunicação e públicos ao longo do tempo. Estudos formais e monetizados que utilizem técnicas etnográficas devem ser oferecidos em momentos estratégicos como planejamentos anuais e semestrais, para que seu valor seja agregado de forma horizontal nas organizações. Mas, do ponto de vista do analista individual, seja ele responsável por pesquisa, conteúdo, planejamento ou mídia, agregar olhares etnográficos favorece uma compreensão efetiva das culturas envolvidas e é decisivo para um bom resultado da comunicação.

BECKER, Howard. George Perec’s experiments in social description. Ethnography, Vol 2(1): 63-76, 2001.

BERRI, Bruna; ZANELLA, Andrea Vieira; ASSIS, Neiva; Imagens da Cidade: o projeto ArteUrbe. Rev. Polis e Psique, 2015; 5(2): 123 – 14.

HU, Y.; MANIKONDA, L.; KAMBHAMPATI, S.. What We Instagram: A First Analysis of Instagram Photo Content and User Types. International AAAI Conference on Web and Social Media, North America, may. 2014. A

JORGENSON, Jane; SULLIVAN, Tracy. Accessing Children’s Perspectives Through Participatory Photo Interviews.Forum Qualitative Sozialforschung / Forum: Qualitative Social Research, [S.l.], v. 11, n. 1, nov. 2009. ISSN 1438-5627.

Futuros da pesquisa e das cidades: entrevista com Carolina Zaine

social analytics summit

Falta apenas 1 semana para o Social Analytics Summit! Aquecendo os motores para as palestras e mesas do evento, hoje temos mais uma entrevista. Carol Zaine, fundadora da Vert Inteligência Digital, participará do debate “Insights para Transformar as Cidades”, junto ao Douglas Oliveira da Thinking Insight.

carol zaineTarcízio: A Vert acabou de completar 5 anos focada em inteligência digital. Muita coisa mudou quanto a comportamentos e plataformas. Você acha que o crescente fechamento de dados, como as mudanças no Facebook, ameaçam nosso mercado?

Nesses 5 anos muitas coisas aconteceram. Por mais de uma vez ouvi pessoas dizendo “Agora sem poder fazer isso vai ficar difícil para vocês”. A questão primordial é que sempre existirão mudanças, porque é um jogo de interesses muito grande e que vai muito além da nossa atuação. Quando se trabalha com tecnologia, que talvez seja um dos mercados mais voláteis, devemos estar preparados para tudo, principalmente mudanças repentinas na “regra do jogo”. O mercado ficou bem receoso com o fechamento dos dados do Facebook e sabemos que eventualmente isso pode vir a acontecer em outras redes. Por isso, em paralelo ao trabalho que realizamos hoje, de análise de comportamento humano baseado em dados de redes sociais, temos que ir pensando em novas tecnologias, novos canais, novos métodos e nunca ser dependente de uma única estratégia.

T: Com formação e prática também em pesquisa de mercado, qual a sua opinião sobre as diferenças de lógicas de trabalho com informações e dados em agências em comparação a empresas de pesquisa?

C: O trabalho de análise de dados digitais, seja dados de navegação, redes sociais, entre outros…permite algumas coisas que o mercado de pesquisa tradicional não consegue entregar, ou se consegue, o custo fica altíssimo, como trabalhar com a análise de um alto volume de dados (big data), e a velocidade da analise que hoje, graças a recursos tecnológicos e mesmo com bases gigantescas, ainda é mais rápida que métodos tradicionais.

Muitos dizem que isso vai matar o mercado tradicional de pesquisa, como vem acontecendo com o jornalismo – Mídia física x Online. Mas eu não acredito nisso, acho que não só tem espaço para todos como são métodos que se complementam.

Percebo que ainda existe um receio dos mais antigos de mercado em trabalhar com dados proveniente de fontes como sites ou redes sociais, por exemplo, e percebo também uma falta de interesse dos jovens que estão entrando nesse mercado em entender o que já existe de pesquisa e métodos e saber como integrar de alguma maneira o que já existe com o que está para ser descoberto.

Tenho certeza de que se esses dois mercados, que ainda andam em paralelo de alguma maneira, ganhariam muito se interagissem mais.

T: O que é possível descobrir sobre uma cidade utilizando dados nas mídias sociais? Especialmente falando de bairros e áreas “marginalizados”, é possível entender comportamentos só a partir do social?

C: Acho que depende do que você quer descobrir, mas a princípio, os dados de redes sociais já dariam uma grande noção, por exemplo, do comportamento de consumo de uma dada região. As pessoas que frequentam o Centro da cidade, elas vão até lá em busca de que? Turismo? Compras? Restaurantes? Arte? Elas vivem no Centro e consomem no Centro? Ou elas são de outras partes da cidade mas gostam de frequentar o Centro por algum motivo especial?

Isso são só alguns exemplos básicos do que podemos descobrir monitorando o comportamento digital de quem frequenta essa parte da cidade e que já ajudariam a empresas ou até mesmo a prefeitura saber em que e como investir nessa região. Mostrando o potencial de consumo conseguimos contribuir para o desenvolvimento local, principalmente do Centro que é uma parte muito rica, em todos os aspectos, e extremamente marginalizada.

Leia mais entrevistas sobre o Social Analytics Summit aqui e no blog da Mariana Oliveira. Para saber mais sobre o evento e se inscrever, só seguir em mediaeducation.com.br/socialanalytics