8 livros e pesquisadoras sobre tecnologia digital, plataformas, algoritmos e genética

Neste Dia Internacional da Mulher vale notar/celebrar um resultado dos vieses de experiência, expectativas laborais e educação no mundo: as mulheres pesquisadoras estão liderando o debate sobre plataformas e algoritmos digitais e seus impactos na sociedade. Então aproveito a data para celebrar 8 livros publicados nos últimos anos indispensáveis para quem deseja compreender a contemporaneidade:

 

#1 Algorithms of Oppression: How Search Engines Reinforce Racism

Em Algorithms of Oppression: How Search Engines Reinforce Racism (2018), Safiya Noble apresenta pesquisa focada em como plataformas de busca de informação – sobretudo buscadores como Google – reproduzem e reforçam aspectos nocivos da sociedade como o racismo. Através de experimentos, levantamento bibliográfico, histórico e entrevistas, Safiya Noble mostra casos e ações relacionadas à populações minorizadas sobretudo dos EUA, como afro-americanas, latinas, judeus e asiáticos.

Clique na imagem ao lado para ler uma resenha e assista TEDx com Noble em:

 


 

#2 Artificial UnIntelligence: How Computer Misunderstand the World

Em Artificial UnIntelligence: How Computers Misunderstand the World (2018), Meredith Broussard explica os problemas dos sistemas considerados inteligência artificial hoje (como carros autônomos, métricas de plataformas digitais e outros) em três partes: “Como computadores funcionam”, “Quando computadores não funcionam” e “Trabalhando juntos”. Um destaque da publicação é que Broussard apresenta alguns conceitos através de tutoriais no Python acessíveis até para quem nunca escreveu uma linha de código na vida.

Clique na imagem ao lado para ler uma resenha e assista entrevista com Broussard abaixo:


 

#3 The Intersectional Internet: Race, Sex, Class and Culture Online

Intersectional Internet: Race, Sex, Class and Culture Online (2016) é uma coletânea editada por Safiya Noble e Brendesha Tynes. Reúne capítulos de pesquisadoras e pesquisadores estudando questões de raça, gênero e classe na internet tais como: políticas de viralidade e virilidade em masculinidades asiáticas; moderação comercial de conteúdo; análise interseccional de apps de encontros; memes no Instagram e adolescentes negras e outros.

Assista entrevista com Brendesha Tynes abaixo:

Expert Interview with Dr. Brendesha Tynes from The Steve Fund on Vimeo.


 

#4 Twitter and Tear Gas: the power and fragility of networked protest

Zeynep Tufekci é pesquisadora, ativista e jornalista turca. Em Twitter and Tear Gas: the power and fragility of networked protest, Tufekci trouxe em 2017 um outro olhar sobre os ainda festejados protestos impulsionados por plataformas de mídias sociais, como a “Primavera Árabe”. Como a veloz história mostrou, o resultado de movimentos como estes, inclusive no Brasil, foi muito diferente do que os mais empolgados da esquerda previam. Nos últimos 5 anos sobretudo a inocência sobre as mídias sociais ficou de lado em grande medida, mas o livro de Tufekci traz a tecno-sociológico sobre a contemporaneidade que vai além do simplista. O livro está disponível em versão impressa, ebook, audiobook e também um PDF de acesso livre, exigência da autora devido à importância do debate.

Assista palestra da autora em:


#5 Fatal Invention – how science, politics, and big business re-create race in the twenty-first century

Em um mundo supremacista branco, a ciência, política e grandes empresas de tecnologia estão empenhadas em recriar a noção biológica de raça através de sistemas pervasivos de tecnologia como inteligência artificial, reconhecimento de imagens, biometria e testes genéticos. Este é o tema de Fatal Invention – how science, politics, and big business re-create race in the twenty-first century de Dorothy Roberts (2012). O livro revisa conceitos de raça, eugenia, o papel da ciência racial na supremacia branca e trata de manifestações contemporâneas na genética, desenvolvimento de farmacológicos customizados, vigilância genética e outras tecnologias.

Abaixo um vídeo no qual Roberts explica o problema com medicina baseada em “raça”:


#6 The Social Life of DNA: Race, Reparations, and Reconciliation after the Genome

Em The Social Life of DNA: Race, Reparations, and Reconciliation after the Genome (2016),  Alondra Nelson traz um outro olhar ao discutir como a tecnologia de identificação de DNA, sobretudo levantamento de genealogia e origens geográficas da diáspora africana possuem impactos relevantes. Uma vez que os milhões de africanos sequestrados entre os séculos XVI e XIX foram torturados, desumanizados e impedidos de desenvolver sua educação, história e memória, Alondra Nelson mostra como das já numerosas iniciativas de afro-diaspóricos de se reconectar com a África emergem potencial e os benefícios dessa tendência.

Alondra Nelson também é autora de outros livros como Body and Soul: The Black Panther Party and the Fight Against Medical Discrimination (2011), Technicolor: Race, Technology, and Everyday Life (2001) e editora de um número especial de revista Social Text que discutiu afrofuturismo em 2002. Veja entrevista com a autora sobre o tema:

 


#7 A Networked Self and Human Augmentics, Artificial Intelligence, Sentience

Zizi Papacharissi pesquisa comunicação digital há décadas e é responsável por algumas coletâneas mais influentes no campo, como o excelente A Networked Self: Identity, Community, and Culture on Social Network Sites. Em 2018 Papacharissi lançou nada menos que três coletâneas a partir da ideia de networked self: um com recorte sobre nascimento, vida, morte e família; outro sobre plataformas, estórias e conexões; e, por fim, o que destaco sobre inteligência artificial, senciência e augmentics: A Networked Self and Human Augmentics, Artificial Intelligence, Sentience (2018). O livro reúne 14 capítulos sobre aspectos tecnológicos e éticos como direitos de agentes artificiais e impactos da IA no self.

Palestra recente da Papacharissi:

 


#8 Digital Sociologies

Organizado por Jessie Daniels, Karen Gregory e Tressie Mcmillan Cottom, Digital Sociologies (2016) é fruto de conferência sobre as sociologias digitais plurais. Na primeira parte, em 7 capítulos, trata da sociologia digital na vida cotidiana, falando de temas como estudos de comunidades online, análise de discurso digital em pequenos espaços ou gerenciamento de impressões digitais na “economia do compartilhamento. A segunda parte foca em instituições e traz 11 capítulos em torno de desigualdade e instituições, papel dos algoritmos em decisões educacionais, raça e racismo na educação e convergência de audiências online em torno de produtos culturais. A terceira parte traz mais 10 capítulos e é repleta de estudos de caso sobre corpos e corporeidade nas interseções com raça, gênero, classe e sexualidades em ambientes como Twitter, websites, apps de quantified self e tecnologias vestíveis.

Assista palestra de Tressie McMillan Cottom:

 

Quer acompanhar em tempo real o que algumas destas pesquisadoras estão produzindo? Siga lista curada no Twitter!

Mercado de inteligência em mídias sociais valoriza conhecimento científico

Vamos estudar? Ao contrário do que se diz em alguns meios publicitários, a universidade dá o tom da evolução do mercado da Comunicação em diversas esferas, sobretudo quando tratamos de mídias sociais. Um dos exemplos mais pujantes disto está nas disciplinas e ferramentas ligadas a análise de redes e grafos com dados de mídias sociais, que há mais de 10 anos são intensas na academia, enquanto no mercado evoluiu nos últimos 3 anos apenas [leia mais]. Os resultados da pesquisa “O Profissional de Inteligência de Mídias Sociais” deste ano reforçam ainda mais esta importância.

Como falo desde a pesquisa de 2014,  o “mercado” quer aplicações inovadoras e recompensa os profissionais que as fazem, mas escondendo (ou ignorando) que esta qualidade existe devido ao uso de conhecimento acadêmico por profissionais que conseguem fazer esta ponte.

Por este e diversos outros motivos é importante que o mercado motive e faça sua parte para consultar e incentivar (por meio de bolsas, parcerias, financiamentos etc) a aplicação do conhecimento. A academia está fazendo sua parte gerando conhecimento e formando pessoas de forma ética e responsável, então é papel do mercado fazer a aproximação se deseja transformar parte deste conhecimento para aplicações para si. Em um país no qual apenas 14% das pessoas se formam no ensino superior, é prerrogativa de qualquer indivíduo responsável motivar o conhecimento acadêmico.

No resultado da pesquisa deste ano, a tendência se fortalece ainda mais. Entre as referências profissionais mais admiradas, 70% são mestres e 50% doutores ou doutorandos. Professores universitários dedicados a pesquisa estão presentes, devido ao impacto de formação e inovação tecnológica. Entre os livros mais usados, a maioria são de publicações focadas na área e bem estruturados. Mas infelizmente o escasso hábito de leitura do brasileiro se destaca: 76% dos respondentes não recomendou nenhum livro. Ou seja, não é falta de produção, é falta de hábito.

Além disto, a ótima performance do IBPAD – Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados, com apenas 2 anos de atuação, é resultado também desta postura de conectividade com o conhecimento acadêmico. Nós transformamos conhecimento e rigor científico em aplicações diversas para metodologias de pesquisa.

Vamos avançar pra enfrentar esta crise e continuar a avançar nossos profissionais? Leia a pesquisa completa no SlideShare e vamos arregaçar as mangas!

10 livros sobre mídias sociais, pesquisa e conhecimento para ler em 2015

Como habitual, é hora de publicar uma listinha de livros, dicas para 2015! As dez publicações se destacaram no meu ano, trazendo novas ideias e abrindo algumas caixas-pretas mentais:

12 Livros para o Profissional em Comunicação ler em 2014 – parte 4

Para finalizar as dicas de livros para 2014 (ver partes 1, 2 e 3), farei diferente: os três livros abaixo são publicações que ainda não li, mas com temas bastante relevantes, de autores que já conheço e que estão na minha lista de leitura do ano.

spreadable mediaEm Spreadable Media – creating value and meaning in a networked culture, Henry Jenkins, Sam Ford e Joshua Green “maps fundamental changes taking place in our contemporary media environment, a space where corporations no longer tightly control media distribution and many of us are directly involved in the circulation of content. It contrasts “stickiness”—aggregating attention in centralized places—with “spreadability”—dispersing content widely through both formal and informal networks,some approved, many unauthorized. Stickiness has been the measure of success in the broadcast era (and has been carried over to the online world), but “spreadability” describes the ways content travels through social media.”

Para quem não se lembra, Jenkins é autor também de Cultura da Convergência, publicação que analisou a cultura da convergência partindo de alguns produtos culturais bastante populares. Um dos casos mais interessantes é a análise das narrativas crossmedia a partir do caso de Matrix Reloaded e Matrix Revolutions, assim como a cultura da colaboração, paratextos e comunidades de interesse a partir de spoilersda série americana Survivor. Best seller, influenciou bastante o modo pelo qual o mercado pensou convergência e digital de 2008 em diante. O livro possui um site com blog, ensaios e reviews: spreadablemedia.org

a comunicação das coisasEm A Comunicação das Coisas: Teoria Ator-Rede e Cibercultura, o professor André Lemos “apresenta aspectos teóricos e exemplos práticos, sendo composto por seis capítulos e uma entrevista com o sociólogo francês Bruno Latour, o mais importante nome da TAR. O leitor vai encontrar temas atuais analisados pela ótica dessa teoria, tais como as mídias locativas, a “internet das coisas”, os dispositivos de leitura eletrônicos, como tablets e e-readers, as redes sociais, o ciberativismo, o jornalismo, entre outros. O livro, escrito por um dos mais importantes estudiosos da cultura digital no Brasil, pode ser útil para estudantes e pesquisadores em sociologia, filosofia, comunicação, geografia, arquitetura e urbanismo, informática e áreas afins.”

André Lemos é professor da Facom e Póscom-UFBA, líder do grupo Lab404 – Laboratório de Pesquisa em Mídia Digital, Redes e Espaço, autor de diversos livros como Cibercultura – tecnologia e vida social na cultura contemporânea e O Futuro da Internet, em co-autoria com Pierre Lévy. Para ter uma ideia do conteúdo de “A Comunicação das Coisas”, recomendo o artigo Espaço, Mídia Locativa e Teoria Ator-Rede.

the culture of connectivityThe Culture of Connectivity: A Critical History of Social Media, escrito pela pesquisadora Jose van Dijck, da Universidade de Amsterdam “studies the rise of social media, providing both a historical and a critical analysis of the emergence of major platforms in the context of a rapidly changing ecosystem of connective media. Author Jose van Dijck offers an analytical prism that can be used to view techno-cultural as well as socio-economic aspects of this transformation as well as to examine shared ideological principles between major social media platforms. This fascinating study will appeal to all readers interested in social media.”

Jose van Dijck é autora também de outros livros, como Mediated Memories in the Digital Age, que explora como as mídias digitais reconfiguram as práticas em torno das memórias pessoais. O artigo “Users like you? Theorizing agency in user-generated content” pode ser uma boa leitura inicial dos escritos da Van Dijck.

12 Livros para o Profissional em Comunicação ler em 2014 – parte 3

Começando 2014 com a continuação das dicas de livros para serem lidos pelos profissionais de comunicação. Se você não está acompanhando a série de dicas, é só dar uma olhada nas partes 01 e 02. Nesta postagem três livros lançados em 2013, com discussões e debates fresquinhos sobre métodos digitais, circulação de informações digitais e jornalismo digital.

digital methodsDigital Methods, de Richard Rogers, discute os métodos digitais de pesquisa na internet. O ponto de vista do autor é de um professor e pesquisador que busca materializar seus problemas de pesquisa em soluções de pesquisa (que geram mais problemas fascinantes): o seu grupo de pesquisa é responsável por diversos softwares de pesquisa como o Issue Crawler, um “rastreador online de controvérsias” e membro do convênio de pesquisa Mapping Controversies. O Digital Methods Initiative é responsável por tais softwares, ampla bibliografia sobre o tema e cursos de pós-graduação e extensão em métodos digitais.

No livro, segundo do autor, que já lançou Information Politics on the Web, além de uma interessantíssima discussão sobre a história e estado dos métodos digitais, os capítulos seguintes tratam dos links e políticas do espaço web, websites como objetos arquiváveis, estudos nacionais de web, pós-demografia nas mídias sociais e conclui com um capítulo de título bastante preciso: After Cyberspace: Big Data, Small Data. O seguinte trecho resume bem a posição de Rogers e seu grupo de pesquisadores: “a questão não é mais o quanto da sociedade e cultura está online, mas sim como diagnosticar mudanças culturais e sociais através da internet”.

popular culture and new mediaPopular Culture and New Media: The Politics of Circulation foi publicado pelo professor e pesquisador de sociologia digital David Beer. O autor, que ensina na Universidade de York, divide seus interesses de pesquisa em cultura e música digital, circulação de informações e redes sociais. Nesta amálgama, produziu nos últimos anos interessantes discussões sobre sociologia digital, ferramentas de pesquisa e redes sociais online.

O livro é composto de cinco capítulos sobre, respectivamente, Objetos & Infraestruturas, Arquivamento, Algoritmos, Data Play e Corpos & Interfaces. Todos os capítulos giram em torno da centralidade das circulações de dados e informações digitais na cultura popular contemporânea. Neste sentido, o capítulo sobre Data Play é o mais interessante, ao abordar como a participação em ambientes como mídias sociais cria, além de by-product data, também dados que voltam à cultura de forma recursiva, através de uma crescente cultura da visualização e manejo de dados por diversão.

Capa_Jornalismo de revista_curvasO livro Jornalismo de Revista em Redes Digitais, organizado por Graciela Natansohn, reúne 9 artigos sobre o tema, procurando responder, junto a outras questões: o que define uma revista digital? São textos sobre formato e tipologia das revistas digitais, análise dos usos e apropriações, elementos e estudos de caso.

Entre os artigos estão “Revistas On-Line: do papel às telinhas”, escrito por Graciela Natansohn, Rodrigo Cunha, Samuel Barros e Tarcízio Silva, que discute as tecnologias, formatos e suportes dos produtos jornalísticos etiquetados como revistas digitais, “Do Armazem à Amazon: uma proposta de tipologia das revistas digitais através dos gêneros jornalísticos”, de Marcelo Freire, que propõe uma tipologia das revistas e textos como o “Diseño de nodos iniciales en revistas on-line: una propuesta metodolológica”, de Ana Serrano Tellería, que traz uma ficha de análise bastante útil para os profissionais da área. A Tellería é apenas uma das autoras internacionais na publicação, que conta com os reconhecidos Carlos Scolari e Javier Diaz Noci, respectivamente da Universidade Católica di Milano e Universidade Pompeu Fabra.

Em breve, o último post da série. Desta vez farei diferente e indicarei 3 livros que ainda não li, mas estão na minha lista para este ano.