Livros sobre Raça e Tecnologia

Os aspectos político-raciais das tecnologias, incluindo tecnologias de comunicação e internet, ainda são sub-pesquisados por variados motivos, sobretudo epistemicídios promovidos pelas garras da supremacia branca na academia. Em português, então, a situação é ainda pior. Reuni a lista abaixo para ajudar estudantes em busca de explorar temas de pesquisa sobre os aspectos de raça, racismo, racialização, branquitude, negritude, orientalismo e afins na/sobre tecnologia, sobretudo de comunicação digital.

A lista será atualizada continuamente, mas não é exaustiva. Deixe suas sugestões nos comentários!

Cyberghetto or Cybertopia? Race, Class and Gender on the Internet (1998)

Editado por Bosah Ebo, a publicaçãoreúne colaborações que pensam raça, classe e gênero na internet. Capítulos exploram a ainda, à época, disruptiva comercialização dos espaços online, controvérsias entre democratização e dominação, e temas como inclusão digital e literacia informática.


Technicolor: Race, Technology, and Everyday Life (2001)

Editado por Alondra Nelson, Thuy Linh N. Tu e Alicia Headlam Hines, o livro reúne capítulos de pesquisa e entrevistas sobre aspectos da tecnologia e raça na vida cotidiana, da criação do mp3 à problemas enfrentados por profissionais latinas no Vale do Silício.


Appropriating Technology: vernacular science and social power (2004)

Organizado por Ron Eglash, Jennifer Croissant, Giovanna Di Chiro e Rayvon Fouché, a publicação traz capítulos sobre inventividade, meio ambiente e tecnologia, corporificação da tecnologia. Inclui trabalho de Fouché sobre o inventor Lewis Latimer e a posterior operacionalização das narrativas sobre sua invenção para fortalecer a ideia individualista do “American Dream”; apropriação nativo-americana da tecnologia para ativismo ambiental; e apropriações de mulheres africano-americanas de centros de tecnologia em tempos de exclusão digital.


Black Inventors in the Age of Segregation (2004)

Rayvon Fouché apresenta a história de vida e trabalhos de três inventores afroamericanos: Granville Woods (1956-1910), inventor independente; Lewis Latimer (1848-1928), um engenheiro corporativo na General Electric; e Shelby Davidson (1868-1930), que trabalhou no Departamento do Tesouro Americano.


Technology and the African-American Experience: Needs and Opportunities for Study (2006)

A coletânea reúne capítulos variados sobre a experiência afroamericana com tecnologia. Inclui textos como: relato das descobertas de Judith Carney sobre cultivo do arroz; reflexões sobre invenção e inovação de 1619-1930, por Portia James; e a problemática da interpretação da história da tecnologia nos museus americanos, por Lonnie Bunch.


Digitizing Race: visual cultures of the internet (2007)

Lisa Nakamura escreve sobre a racialização das visualidades na internet, tema cada vez mais relevante em tempos de blackfishing e avatares “humanizados” de e-commerce.


Cyber Racism: White Supremacy Online and the New Attack on Civil Rights (2009)

Jessie Daniels estuda há décadas como a supremacia branca utiliza tecnologias digitais para se reinventar – desde quando a academia mainstream ainda achava que a internet resultaria na superação das identidades. Neste livro, apresenta o histórico das estratégias da branquitude patriarcal desde imprensa até fóruns e mídias sociais, com resultados que vemos hoje na algoritmização da política.


Digital Diaspora: A Race for Cyberspace (2009)

Anna Everett analisa o aumento da participação negra no ciberespaço, combatendo concepções errôneas sobre exclusão digital; além de apresentar estudos de caso como a Niajanet e a Million Woman March.


Fatal Invention – how science, politics, and big business re-create race in the twenty-first century (2012)

O livro revisa conceitos de raça, eugenia, o papel da ciência racial na supremacia branca e trata de manifestações contemporâneas na genética, desenvolvimento de farmacológicos customizados, vigilância genética e outras tecnologias.


Raça e Medicina

Breathing Race into the Machine: The Surprising Career of the Spirometer from Plantation to Genetics (2014)

Ludy Braun apresenta análise racialmente crítica e tecnopolítica do espirômetro, instumento inventado para medir a capacidade pulmonar. Inventores, médicos e corporações solidificaram a crença errônea sobre negros terem menor capacidade pulmonar, o que foi usado para desumanização e restrição a direitos.


Dark Matters: On the Surveillance of Blackness (2015)

A essencial obra de Simone Brown mostra a gênese da vigilância como prática central nas sociedades a partir do horror colonial. e escravidão transatlântica. De práticas de tortura coloniais como marcação de escravizados à biometria em aeroportos, a história apresentada por Browne desvela como a “negritude” é conceito essencial para as práticas, narrativas e resistência à vigilância.


Beyond Hashtags: #Ferguson, #Blacklivesmatter, and the online for offline struggle (2016)

O documento não é um livro, mas sim um relatório de Deen Freelon, Charlton D. Mcilwain e Meredith D. Clark com amplo estudo sobre a mobilização online e presencial do #BlackLivesMatter. Foi aplicada análise de rede e métodos digitais a 40,8 milhões de tweets, 100 mil links, além de 40 entrevistas com ativistas. Algumas visualizações e recortes de dados são inovadores, como o agrupamento longitudinal por comunidades. Clique para ler resenha.


Internet Interseccional

Intersectional Internet: Race, Sex, Class and Culture Online (2016)

Coletânea editada por Safiya Noble e Brendesha Tynes reúne capítulos de pesquisadoras e pesquisadores estudando questões de raça, gênero e classe na internet tais como: políticas de viralidade e virilidade em masculinidades asiáticas; moderação comercial de conteúdo; análise interseccional de apps de encontros; memes no Instagram e adolescentes negras e outros.


Algoritmos de Opressão

Algorithms of Oppression: how search engines reinforce racism (2018)

O livro de Safiya U. Noble é um marco na atual onda de reações à discriminação algorítmica em diversas esferas, inspirando diversos trabalhos e iniciativas. Noble estudou especificamente o caso da Google e a hiperssexualização de garotas negras. Clique no título acima para uma resenha publicada neste blog.


W. E. B. Du Bois’s Data Portraits: VIsualizing Black America (2018)

O livro de Whitney Battle-Baptiste e Britt Rusert reúne a história e coletânea das visualizações inovadoras que o sociólogo W.E.B. Du Bois produziu no início do século XX para divulgar mundialmente dados sobre os negros afroamericanos. Clique no título acima para uma resenha.


Race After Technology: Abolitionist Tools for the New Jim Code (2019)

Ruha Benjamin discute as tecnologias digitais e algorítmicas a partir do que chama de “Critical STS”, a junção da Teoria Racial Crítica (TRC) e dos Estudos de Ciência, Tecnologia e Sociedade. Benjamin propõe o conceito de “New Jim Code” – um modo sistêmico e hostil de viés hostil e racista cada vez mais integrado e opaco nas tecnologias digitais. Clique no título acima para uma resenha publicada neste blog.


Captivating Technology: Race, Carceral Technoscience, and Liberatory Imagination in Everyday Life (2019)

Organizada por Ruha Benjamin, a coletânea reúne 14 capítulos em três agrupamentos: tecnologias carcerárias das fazendas às prisões; sistemas de vigilância do Facebook à fast fashion; e reapropriação liberadora das ferramentas, dos abolicionistas aos futuristas.


Black Software (2019)

O livro de Charlon McIlwain traz uma historiografia inédita das relações entre afro-americanos e as tecnologias digitais desde os anos 1960, a partir de levantamento de documentos e entrevistas com pioneiros.


Distributed Blackness: african american cybercultures (2020)

André Brock estuda a negritude online de africanos-americanos e o modo que os significados e performances são construídos nas plataformas digitais como Black Twitter, Instagram, YouTube e aplicativos.


Comunidades, Algoritmos e Ativismos: olhares afrodiaspóricos (2020)

O livro reúne reflexões diversas e multidisciplinares sobre as interfaces dentre os fenômenos da comunicação digital, raça, negritude e branquitude. Através da tradução de textos estrangeiros inéditos em português e atualização e redação de publicações selecionadas de brasileiras/os, o livro colabora com a crescente complexificação do pensamento sobre a comunicação digital e internet resultante da diversificação dos olhares e falas nos espaços acadêmicos.