Late Chocolate: design, vibradores, tipografia e petite mort

Gonzálo García e Eva Mazana se conheceram cursando Design Industrial na Elisava de Barcelona, universidade de design. Juntos se perguntaram: como seria o vibrador perfeito? Em matéria no El País, Gonzalo explica: “Através de um estudo de mercado e muitas perguntas, resolvemos que deveria ser um objeto escultórico, sutil, com referências a bombom, a chocolate quente… Foi criado para ser exposto, para mulheres sem preconceitos.”

Assim surgiu a Late Chocolate, empresa dedicada ao projeto de vibradores artísticos, dignos de exposição de arte, lingerie, perfumes, brinquedos e aparatos sexuais de todo o tipo. Estabelecida em Madrid, fica a dica para quem passar lá pelas bandas da Espanha. Ao lado imagem de Garcia, Manzana e Alicia Zurita, junto a sua obra-prima.

O que me apresentou a Late Chocolate foi, na verdade, um vídeo. Um exemplar dos chamados “vídeos tipográficos”, aqueles – geralmente em flash – que têm as letras e palavras como protagonistas. Apesar da narração não ser das melhores, o jogo com as palavras, fios tipográficos e vinhetas é espetacular. De um lado representam objetos (como partes do corpo) mais iconicamente, de outro introduz interferências nos elementos tipográficos para conotar as sensações expressadas na narração.

A Linguagem da Propaganda, de Torben Vestergaard e Kim Schroder

Mais um livro com título traduzido inapropriadamente (original = The Language of Advertising). Escrito por Torben Vestergaard e Kim Schroder, A Linguagem da Propaganda é uma aula expepcional sobre publicidade. Em seis capítulos os autores destrincham a relação entre propaganda e sociedade, introduzem conceitos básicos de teoria da comunicação, elementos de um anúncio, estratégias de comunicação de gênero e classe, publicidade como espelho psicológico e a ideologia da propaganda.

A primeira análise do capítulo “Estrutura de um anúncio” se debruça sobre uma publicidade dos absorventes Dr. White’s. A partir dos elementos presentes no anúncio (ilustração, título, texto, linha de assinatura e slogan), os autores decodificam como os publicitários utilizam elementos visuais, textuais, poéticos e informacionais para associar o produto ao conforto e segurança de um lar convencional. Abaixo segue um trecho (extraído das maravilhosas duas páginas e meia da análise) acompanhado da imagem escaneada, que já não era das melhores no livro.

Se tivéssemos apenas o título e a ilustração, julgaríamos que ambos representavam uma situação em que a mulher volta para a família, depois de ter um caso, enunciando a palavra “Voltei”. Mas trata-se de um anúncio de Dr. White’s. Na situação familiar fictícia da ilustração, a mulher está se dirigindo ao marido e o sujeito é o casamento deles; na situação publicitária, contudo, o verdadeiro receptor é o leitor, o emissor verdadeiro é o anunciante, aqui falando pela boca de um ‘participante secundário’ e o sujeito é o produto. Além do título, as partes mais destacadas do anúncio são as duas ocorrências do nome da marca, na linha de assinatura e na embalagem. O título, assim, torna-se ambíguo: tanto pode significar “Voltei para a minha família” como “Voltei para a minha marca favorita de absorventes higiênicos”, ou as duas coisas ao mesmo tempo (é bom lembrar que a ambiguidade é uma característica da função poética da linguagem). Dessa forma, mesmo o leitor que dê apenas uma olhada de relance no anúncio captará a mensagem central: “Voltar ao Dr. White’s depois de experimentar outras formas de proteção é como voltar para casa, para a família, depois de um caso”. A técnica empregada é de uma dupla metáfora visual/verbal: absorventes higiênicos Dr. White’s = segurança = família.

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Memória Gráfica Brasileira

“Dedica-se a resgatar e valorizar o riquíssimo legado do design no Brasil, assim como das atividades congêneres que já abarcavam a criação e o projeto antes que o design se configurasse como campo profissional.”

É quase bom demais para ser verdade. O Memória Gráfica Brasileira existe desde este ano, e está criando aos poucos seu acervo. Mas o seu primeiro grande trunfo é o “J. Carlos em Revista.” O célebre diretor de arte e ilustrador é homenageado com nada menos que a digitalização e publicação online de todas as edições entre 1922 e 1930 das revistas Para Todos e O Malho. Em outra postagem já falei de J. Carlos, sobre as capas sequenciadas que ele fez para a Para Todos no carnaval de 2007.

O Memória Gráfica Brasileira é, simplesmente, um item indispensável nos “favoritos” de qualquer design, estudante ou entusiasta brasileiro que se preze.

Control Print – Pensando o futuro da tinta no papel

Control Print – Considering the future of ink on paper é um projeto do Royal College of Art, universidade inglesa totalmenta dedicada a arte e ao design. O livro, totalmente gratuito e disponível em .pdf, trata de produção gráfica, valor estético e produtivo do livro impresso.

Um trecho da seção 4, chamada “In my hands, in my eyes – an emotional experience of an object”, de Sara Carneholm:

“When you read a book all your senses are recording (how the pages move, what the paper feels like, what it smells like etc), however reading is more than a purely haptic experience, you are involved in the making of the experience. Books use their physical form as well as content to convey meaning – the weight of a book can indicate importance or perceived value of the content within, for example think about the difference between reference books and paperbacks or your schoolbooks carefully inscribed with your name and form on the inside cover, each has it’s own character – they become artifacts, objects with cultural and personal significance.” (pag. 14)

Revista Muito #1

A primeira edição da Muito foi lançada. A revista vem, a partir de hoje, em todas edições de domingo do Jornal A Tarde. Há várias mudanças em relação ao número zero, disponível para download na página da revista. Em relação ao projeto gráfico, o azul substitui o vermelho no logotipo e nos títulos de seções.

A entrevista dessa vez é bem mais interessante. Solange Farkas, diretora do MAM-BA, fala da polêmica envolvida na sua indicação e sobre os rumos do museu.

A capa traz a estilista Márcia Ganem, algo meio despropositado. Ela só aparece na revista na matéria sobre o bairro “Santo Antônio Além do Carmo”, falando sobre a compra de imóveis no local em valorização. Talvez essa discrepância se deva a um problema explícito na revista, excessivamente de consumo. As opções de personagens ou temas mais relevantes para a capa são poucos.

Desgustação de cervejas importadas, que estão cada vez mais presentes nos supermercados soteropolitanos e um ensaio de moda com a Deusa do Ébano do Ilê Ayiê também ocupam espaço nessa edição. A ilustração que fecha a revista é outra vez de Juliana Moraes. A crônica dessa vez é pouco inspirada, mais uma enumeração do que literatura.

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