Apresentação sobre Visão Computacional e Vieses Racializados no COPENE

No último dia 29 de maio, apresentei no COPENE Nordeste o trabalho Visão Computacional e Vieses Racializados: branquitude como padrão no aprendizado de máquina, que fez parte da Sessão Temática “Branquitude, Representações e Mídia”. O slideshow já está disponível:

Em breve o artigo completo será publicado nos anais do evento. Acompanhe as publicações relacionadas no ResearchGate ou Lattes.

Odò Pupa e a sociologia vernacular preta

Na última semana tive a oportunidade de assistir, apresentado junto a um trabalho no COPENE, o curta Odò Pupa, Luga de Resistência, da cineasta paraibana Carine Fiúza. O curta vai circular por alguns festivais de cinema, mas está disponível para ver no Futura Play ainda (corram). O documentário foi gravado em Salvador e tem dois personagens, Luís César (20 anos) e Caíque Santana (20 anos), chef e garçom em um bar descolado no Rio Vermelho.

Começa com dados sobre trabalho e estudo e a linha abissal que divide as condições entre brancos e negros em Salvador, que moraram no Calabar/Alto das Pombas.. Falam sobre arte, trabalho e comunicação a partir de uma sociologia vernacular de quem desenvolve sofisticação na compreensão da sociedade na prática, por sobrevivência.

Há um trecho a partir dos 7 minutos onde Luís conta sobre os diferentes papéis sociais (migrante, alvo de policiais, outsider para as facções, trabalhador) que sem ter entrado numa universidade, é tão explicativo quanto um livro de Goffman sobre gerenciamento de impressões.

Sociólogos e linguistas negros avançaram a ideia de “code switching” como um modo de trocar léxico, gírias, comportamento em campos diferentes. Jovens negros aprendem isso na prática, cedo, literalmente para sobreviver. Luís vê e fala sobre isto de forma fantástica.

Aos 10 minutos, Caíque fala sobre a opressão absurda em várias esferas, próximo ao conceito de matriz de dominação da Patrícia Hill Collins. Ele fala da perversidade sem sentido da sociedade, que realmente deveria indignar.

São estes jovens da periferia que poderiam transformar a sociedade e a universidade.

Poderiam se não fossem

invisibilizados
silenciados
negligenciados
roubados
preteridos
mortos

pela mediocridade e epistemologias da ignorância vigentes.

IBPAD lança whitepaper sobre o histórico das APIs na pesquisa em mídias sociais

Em grande medida, a presença/ausência, modos de uso e escopos das chamadas APIs definiram os caminhos da pesquisa em mídias sociais. Nos últimos anos, controvérsias sobre privacidade foram a desculpa para algumas plataformas de mídias sociais – como Facebook – fecharem o acesso às suas APIs de dados. A relevância deste debate tanto para a academia quanto para o mercado é essencial. Pensando nisso, o IBPAD lançou um whitepaper sobre o tema – Histórico das APIs no Monitoramento e Pesquisa em Mídias Sociaiss, que inclui uma linha do tempo sobre os principais fatos e mudanças:

Lançada Linha do Tempo sobre Racismo Algorítmico

Lancei recentemente, como uma página do site, uma Linha do Tempo sobre Racismo Algorítmico! Se você é assinante via email ou feed talvez não tenha visto. A timeline é um resultado secundário da pesquisa de doutorado Dados, Algoritmos e Racialização em Plataformas Digitais. Desenvolvida no PCHS-UFABC, o projeto estuda as cadeias produtivas da plataformização digital (mídias sociais, aplicativos, inteligência artificial) e seus vieses e impactos raciais. Os casos, reportagens e reações ao racismo algorítmico podem ser visualizados na página (clique na imagem) e são dados para artigos, conferências, tese e livro em desenvolvimento.

Por Humanidades Digitais Negras

As Humanidades Digitais ganharam mais visibilidade nos últimos 20 anos, graças à gradativa expansão do campo em termos de pesquisadores engajados, produção bibliográfica, ferramentas e projetos públicos. Um dos principais destes é a série Debates in the Digital Humanities. O livro, que pode ser lido na versão impressa ou digital interativa, reúne diversas abordagens sobre as humanidades digitais em seções com reflexões sobre sua história e futuros, métodos, práticas, disciplinas e críticas, com um foco bem relevante em text analysis.

O capítulo “Making a Case for the Black Digital Humanities“, Kim Galllon busca apresentar reflexões, casos, referências e possibilidades para uma abordagem das digitais humanidades do ponto de vista do campo chamado por ela de forma resumida de Black Studies (incluindo a linha de Africana/African American studies). Recomendo a leitura do capítulo e da produção de Gallon, que atualmente é Professora de História na Purdue University, mas aqui vou enfatizar alguns pontos do excelente texto.

Para Gallon, “os black studies tem sido entendidos como estudos comparativos das experiências culturais e sociais negras sob sistemas eurocêntricos de poder nos Estados Unidos, na diáspora Africana mais ampla e no continente africano”.

Um dos principais pontos é a percepção de Gallon sobre a pesquisa dos black studies nas humanidades digitais como um tipo de “tecnologia de recuperação(technology of recovery). As “humanidades digitais negras ajudam a desmascarar os sistemas racializados de poder em jogo quando entendemos as humanidades digitais como um campo e utilizamos suas técnicas associadas”. As tecnologias de recuperação são os esforços de grupos minorizados/marginalizados em usar plataformas e ferramentas digitais tanto para resgatar história e literatura não-registrada, apagada, invisibilizada ou intencionalmente destruída quanto para recuperar a humanidade das pessoas negras em um sistema de racialização global.

Gallon cita o papel do Digital Schomburg, um dos primeiros grandes projetos de digitalização de história afro-americana, reunindo informações, literatura e arquivos de fotografias e imagens dos séculos 19 e 20. Abaixo uma das exposições online do centro, com história de nova-iorquinos afro-americanos:

Além do aspecto histórico, Gallon explica como grandes movimentações ativistas online do “Black Twitter” e comunidades negras nas mídias sociais como #SayHerName, #BlackLivesMatter e #ICanBreathe fazem parte de esforço de recuperação também sobre o presente: os ativistas e participantes destes movimentos lembram a si mesmos e o resto da população sobre a disparidade gigantes de indicadores sociais de violência policial, emprego, educação, habitação, saúde e outros.

Em seguida, a autora discorre sobre a saliência de alguns métodos específicos, como a relativa pouca exploração de text analysis sobre literatura negra. Aqui cita o Project on the History of Black Writing, fundado por Maryemma Graham, que realizou eventos e visualizações de análise de literatura assistida por computador.

Seguindo no debate sobre o caráter das humanidades digitais negras, Gallon cita Johanna Drucker e sua defesa de “usar e construir ferramentas e infraestrutura embebidas de teoria humanística de modo que funcionem de modos que reflitam os valores das humanidades”. Isto sigficaria, então, para Gallon, que

As humanidades digitais negras então apresentam o digital como hospedeiro mútuo tanto de racismo quanto de resistência e jogam luz sobre o papel da raça como uma metalinguagem que forma o terreno digital, fomentando estruturas hegemônicas que são tanto novas e antigas e replicam e transcendem as análogas

Essa perspectiva pode gerar questões sobre a relação entre racialização da humanidade e o digital como poder, superando a percepção ainda disseminada da “neutralidade” do digital ou tecnologia, nos levando e entender melhor a condição humana.

Kim Gallon não cita no texto o projeto Black Press Research Collective, fundado pela própria. Recomendo a navegação no site e visualização que inclui registros da imprensa afro-americana do início do século XX, visualizações, mapas e gráficos sobre circulação e localização, além de registro de eventos e trabalhos derivados. Uma das visualizações mais interessantes (o mapa abaixo) é a lista de vendedores do jornal The Chicago Defender, que ajudava negros do Sul com informação sobre como se defender e migrar para sobreviver. Os dados foram retirados de base de dados do FBI, que vigia(va) qualquer iniciativa de auto-defesa dos negros americanos:

Esta resenha foi motivada pelo workshop AfricanaDHi e faz parte da bibliografia do evento.