Debate Público nas Mídias Sociais: uma questão de letramento midiático digital

Por convite da Revista Rumos, publicação da Associação Brasileira de Desenvolvimento, redigi em dezembro pequeno artigo sobre o debate público nas mídias sociais. Está disponível no site da associação e no Issuu (páginas 26 e 27):

Estudando Cultura e Comunicação com Mídias Sociais

Lançamos o livro Estudando Cultura e Comunicação com Mídias Sociais! Organizado por mim, Jaqueline Buckstegge e Pedro Rogedo, a publicação reúne 20 capítulos de autores com diferentes níveis de experiência, de graduandos a pesquisadores-doutores como Raquel Recuero, Sérgio Braga e Mirna Tonus. Clique para saber mais:

O “politicamente correto” e a avaliação crítica de leitores nas mídias sociais

A ideia e o termo “politicamente correto” passou e passa por batalhas discursivas nas últimas décadas. Autores da linha da Teoria Racial Crítica, por exemplo, explicam como a Primeira Emenda na constituição dos Estados Unidos (que trata de liberdade de expressão) tem sido usada por alguns grupos para defender discurso violento, racista, misógino e afins. A interpretação insubordinada de leis que defendem discursos que servem apenas à ódio é vista como essencial, uma vez que “o objetivo de maximizar o debate público não é alcançado em um mercado de ideias distorcido por coerção e privilégio” (LAWRENCE & MATSUDA, 1993)

Nos últimos anos termos como “politicamente correto” passaram a ser usados sobretudo por indivíduos contra qualquer tipo de sensibilidade e respeito à minorias políticas. O professor Ricardo Alexino Ferreira utiliza o termo “socioacêntricos” para dar conta de grupos com baixa representação política, social e econômica, que lutaram e lutam por ocupar espaços de poder, inclusive na comunicação, com objetivo de enfrentar – ou ao menos suavizar – as desvantagens e opressões sistêmicas que sofrem.

No artigo “Etnomidialogia e a interface com o politicamente correto“, o professor Alexino (2012) apresenta um histórico do termo, suas aplicações e controvérsias indo do impacto do trabalho de Michel Foucault (relação entre poder/conhecimento), Barthes (códigos e convenções “invisíveis” de experiência nas linguagens) e Derrida sobre a não-neutralidade da língua.

Enfatizando o papel do jornalismo, o professor faz uma ligação das “cartilhas” do politicamente correto e manuais de redação. A rigor, estes últimos instrumentos desde a década de 1950 institucionalizam as melhores práticas discursivas para o fazer jornalístico. Desde a década de 1990, sobretudo, no tratamento de grupos socioacêntricos também seria percebida

“é possível observar que os princípios do politicamente correto ou um esmerado cuidado ao abordar grupos sócio-acêntricos tem se constituído em preocupação dos veículos. No entanto, nem sempre essas orientações são seguidas. São muitos casos flagrantes de exposição de indivíduos pertencentes a esses grupos. Porém, é possível perceber que nesta última década tem diminuído substancialmente estes tipos de ocorrências, enquanto forma. Porém, enquanto conteúdo, ainda são frequentes.” (FERREIRA, 2012, p.15)

Quanto ao ponto de crítica dos leitores, é excelente observar alguns ambientes de conflitos nas audiências em plataformas digitais de publicação ou divulgação de reportagens, sobretudo as mídias sociais. Os ambientes digitais tornaram-se uma fonte que pode ser muito rica (e por vezes insalubre) para compreensão dos níveis de engajamento dos leitores na análise dos enquadramentos e decisões editoriais. Um termo muito caro à mim é o de “sociologia vernacular”, bastante explorado pelo pesquisador David Beer para tratar da análise “sociológica” que os indivíduos de todos os tipos de formações fazem em algum sentido. De forma similar, poderíamos falar de uma “análise vernacular do texto jornalístico” que muito se apresenta nos ambientes online. Os leitores percebem e discutem como padrões de escrita associam termos e enquadramentos de forma diferente a depender da vulnerabilidade dos personagens de matérias:

 

Porém basta clicar nos tweets acima e ler dezenas de usuários subestimando – de forma violenta, com frequência – a crítica às diferentes abordagens jornalísticas acima. Entre otimismos e pessimismos, a figura do “politicamente escroto” continuará firme, como aponta o professor Wilson Gomes:

“Pois bem, os conservadores e preconceituosos encontraram uma expressão para desqualificar todo o esforço de “descondicionamento” verbal voltado à tolerância e ao respeito – “somos perseguidos e oprimidos pela polícia da correção política” dizem por meio desta frase, do mesmo jeito que Feliciano grita que é vítima (não algoz) de “perseguição religiosa” e “cristofobia”. Sim, senhores, é para politicamente canalhas que respeito e consideração é uma deplorável “correção política”. Curiosamente, no Brasil, virou chique dar-se um toque de rebeldia e irreverência e começar ou terminar frases com “acho um saco o politicamente correto”. Sei. Já eu acho chato pra caramba ser politicamente escroto.”

 

 

Referências

FERREIRA, Ricardo Alexino. Etnomidialogia e a interface com o politicamente correto. Revista Extraprensa, v. 5, n. 2, p. 1-18, 2012.

GOMES, Wilson. Em Defesa da Vida e da Família e contra o politicamente correto…Here we go. Online, 2013. Disponível em http://www.aldeianago.com.br/outros-baianos/7665-em-defesa-da-vida-e-da-familia-e-contra-o-politicamente-corretohere-we-go-por-wilson-gomes

LAWRENCE, Charles R.; MATSUDA, Mari J. Epilogue: Burning Crosses and the RAV Case. In: Words That Wound. Routledge, 1993. p. 133-136.

Evocando Cartões Postais no Instagram: estudo automatizado de imagens

Escrito em parceria com a orientanda de especialização Mariana Zanotti, aprovei artigo Evocando Cartões Postais no Instagram: estudo automatizado de imagens no Congresso Nacional da Intercom deste ano, que acontecerá em Joinville. O artigo faz parte de uma série de experimentos sobre a aplicação de computação visual ao estudo da comunicação e cultura, que estamos desenvolvendo no IBPAD e já teve estudos sobre marketing turístico, estudo de influenciadores, construção de imagem política entre outros.

Resumo: Os cartões postais são materiais mistificados desde a sua gênese no final do século XX. Entre sinais de crise e ressignificação, mantêm-se como objeto cultural reconhecível por indivíduos de todo o mundo, a despeito de serem efetivamente usuários ou não do formato. Com a popularização de sites de redes sociais e aplicativos voltados a publicação cotidiana de fotografias, como o Instagram, usuários evocam estilos de formatos consagrados. O artigo apresenta experimento de análise e visualização apoiada por computação visual de 14 mil publicações com a hashtag #postcard. Como resultado da aplicação de algoritmos de modularidade, identificou 7 agrupamentos de entidades visuais presentes nas fotografias, através das quais os usuários se apropriam do conhecimento tácito dos públicos sobre o formato para gerar conteúdos de construção estratégica de seus perfis pessoais para suas audiências.

A imagem abaixo representa a rede de imagens gerada durante a análise e descrita no trabalho. Além do artigo, compartilhamos também os datasets principais.

 

Saiba mais sobre o evento em http://www.portalintercom.org.br/eventos1/congresso-nacional/2018  e acesse o artigo diretamente no ResearchGate

Formas Contemporâneas de Racismo e Intolerância nas Redes Sociais

O documento Formas Contemporâneas de Racismo e Intolerância nas Redes Sociais foi publicado pelo Dr. Luiz Valério P. Trindade, como um dos resultados de seu doutorado na University of Southampton (Reino Unido). O documento traz informações sobre o racismo nas mídias sociais e recomendações de políticas públicas direcionadas a juventude, autoridades governamentais, legisladores e as próprias empresas de mídias sociais.

Merece destaque o mapeamento de quais os “gatillhos” para movimentos articulados de ódio racista. Os itens impressionam pela crueldade:
a. expressar discordância com algum post ou comentário anterior de cunho negativo contra Negros;
b. evidência de engajamento com profissões consideradas mais ‘nobres’ e de prestígio (por exemplo: medicina, jornalismo, direito, engenharia, etc.);
c. relacionamento interacial;
d. exercer posição de liderança ou bem-sucedida em programa de televisão ou até mesmo como convidada de honra;
e. desfrutar de viagens de férias no exterior (sobretudo em países localizados no Hemisfério Norte);
f. utilizar e/ou enaltecer a adoção de cabelo cacheado natural estilo Afro;
g. vencer concurso de beleza; e
h. rejeitar proposta de relacionamento afetivo.
Trindade também fala, entre outros itens, do Efeito Eco Infinito, no qual posts antigos, de até mais de 03 anos, continuam a reverberar por negligência das plataformas.
Saiba mais sobre o trabalho de Trindade em https://soton.academia.edu/LuizValerioTrindade