12 Livros para o profissional de comunicação ler em 2014 – parte 1

E chegamos ao quinto ano de dicas de livros. Assim como fiz para 2010, 2011, 2012 e 2013, publicarei 4 posts com 3 dicas de livros cada. A proposta é oferecer um livro para cada mês de 2014. Desta vez, ampliando o escopo para profissionais de comunicação como um todo, e não só mídias sociais. Então, vamos começar? Neste primeiro post, dicas de três livros sobre análise de pesquisa, conteúdo e métodos de descoberta. A comunicação tem a particularidade de ser extremamente analisável, especialmente em tempos digitais.

pesquisa qualitativaO livro Pesquisa Qualitativa com Texto, Imagem e Som é uma das coletâneas mais referenciadas em pesquisa qualitativa para comunicação. Organizado por Martin W. Bauer e George Gaskell, traz 19 capítulos divididos em três seções: “Construindo um corpus de pesquisa”, “Enfoques analíticos para texto, imagem e som”, “O Auxílio do computador” e “Questões de boa prática”. São textos sobre planejamento, condução, execução e análise de diferentes tipos de entrevistas, análise documental de texto, discurso, imagens, música e vídeos, além de reflexões guiadoras sobre o ato de pesquisar e tirar conclusões sobre a pesquisa.

Por exemplo, no primeiro capítulo, Qualidade, quantidade e interesses do conhecimento, os autores oferecem uma introdução sobre pesquisa, combatem a falácia da oposição quantitativo x qualitativo e discutem o interesse do conhecimento a partir de Habermas.

análise de conteúdoAnálise de Conteúdo, de Laurence Bardin, é um guia de como realizar análise de texto e linguagem, descrevendo as principais metodologias como análise de frequência, análise categorial, análise proposicional, de relações e outras.

Em tempos digitais, de monitoramento de mídias sociais e conversações, conhecer a análise de conteúdo é um grande diferencial para o profissional de comunicação. Os dados textuais são abundantes, mas extrair informações deles não é algo tão simples assim. Bardin nos oferece contextualização ao tratar de história e teoria da análise de conteúdo nas primeiras 50 páginas e logo vai à Prática, título da segunda parte, que apresenta quatro estudos de caso. O restante do livro mostra como fazer: em Método e Técnicas, terceira e quarta partes, são apresentados um passo-a-passo e detalhametno sobre os tipos diferentes de análise.

methods of discoveryPor fim, Methods of Discovery: Heuristic for the Social Sciences, é um clássico livro do professor Andrew Abbott, da Universidade de Chicago. O objetivo do livro é oferecer a estudantes e pesquisadores métodos heurísticos de gerar bons problemas e questões de pesquisa, balanceando rigor e imaginação. Em suas palavras, “Ciência é uma conversa entre rigor e imaginação. O que uma propõr, a outra avalia. Cada avaliação leva a novas proposição e assim por diante”.

Com isto em mente, o primeiro capítulo do livro fala de “Explicação” (Explanation). Abbott discorre sobre ciência e programas explicativos, através da descrição dos principais métodos das ciências sociais, como etnografia, narrativa histórica, análise causal, comparação de casos e formalização, assim como suas diferenças quanto a coleta, análise de dados e escopo de observação.

explanatory program - andrew abbott

Depois da fantástica abertura, o capítulo 2 trata dos Principais Debates e Práticas Metodológicas nas ciências sociais, a partir dos principais pólos como análise x narração, realismo x construtivismo, conflito x consenso etc. Os métodos e suas críticas uns aos outros também são abordados: os próprios argumentos usados pelos adeptos de cada método são destrinchados e exibidos como heurísticas úteis para problematizar ideias e questões. O capítulo seguinte é uma Introdução à Heurística, baseado nas proposições de Aristóteles, Kant, Burke e Morris. Os esquemas de pensamento propostos por cada um deles são oferecidos como heurísticas introdutórias a geração de questões de pesquisa. O capítulo cinco fala de heurísticas descritivas e narrativas, como mudança de contexto ou contrafactuais. O capítulo seis, por fim, retoma os pólos apresentados no segundo capítulo, mostrando como muito do que é produzido em ciência social é “fractal”: recortes dos pólos dentro das divisões e cisões anteriormente estabelecidas (como pensar a contextualidade x acontextualidade dentro de uma linha de pensamento já vista como contextualista).

Em breve, outros três posts com mais nove livros para seu 2014.

 

Social Analytics Summit – últimos dias para inscrição

Até o dia 22/11 ainda é possível realizar a inscrição no Social Analytics Summit, conferência sobre métricas e monitoramento de mídias sociais. Com curadoria minha e de Marcelo Coutinho, o evento trará relevantes palestras e debates com alguns dos profissionais mais experientes do país. Para apresentar a área, a mesa Inteligência nas Agências trará Daniele Dias, da Riot, Natália Traldi, da AgênciaClick, e Armando Neto, da DM9DDB, contanto como os setores de inteligência surgiram em suas agências.

Em Definições e Padrões de Métricas de Mídias Sociais no Brasil Luana Baio (dp6 e IAB) dividirá o palco com Flavio Ferrari (ex-Ibope e atual Qual Canal) para discutir se e como, afinal, serão definidas padronizações de métricas em mídias sociais no país. Em âmbito internacional temos grandes iniciativas do tipo, mas qual o estado disto no Brasil?

social analytics summit - palestrantesMensuração e Inteligência em Mídias Sociais: os clientes contam o que querem promete agitar o evento. Douglas Costa (Netshoes), Chiara Martini (Heineken) e Fabricio Guimarães (Philips) trarão a visão dos clientes sobre mensuração e inteligência em mídias sociais. O que estas três empresas realmente precisam na área? Como estão demandando serviços? Estas e outras perguntas recorrentes prometem ser respondidas no evento.

social analytics summit - palestrantes 2

 

Somarão-se a estas três discussões estratégias sobre o mercado palestras sobre tendências tecnológicas fortíssimas. Big Data: Veracidade e Valor, Dashboards de Mídias SociaisAtribuição Multicanal apontarão caminhos que podem ser seguidos para a ligação entre a comunicação e resultados, através das tecnologias.

Por fim, análises inovadoras na área com o apoio de métodos como social network analysisfocus groupetnografia digital fecharão o evento. Em palestra com o tema Social Network Analysis – Análise das Redes Sociais (de verdade!), Marcelo Coutinho demonstrará um tipo de análise que não é nada nova (remonta ao início do século XX), mas é pouco usada ainda em mídias sociais. E a mesa Pós-Demografia: entendendo e perfilizando o público nas mídias sociais trará cases de estudos de comportamento e perfis de consumidores, apresentados por Matheus Machado (Gauge) e Tatiana Tosi (Plugged Research), mediados por Juliana Ohashi (Ogilvy).

social analytics summit - palestrantes 3

O Social Analytics Summit será um interessante espaço de interlocução de profissionais ávidos por aproveitar cada dado, rastro e traço nas mídias sociais. Se você ainda não se inscreveu, uma mãozinha: usando o código de desconto sam2013tarcizio é possível economizar um pouco.

Acontecerá na Faculdade Casper Líbero (Av. Paulista), no dia 23 de novembro a partir das 08:00hrs. É isto. Te vejo lá?

Evento Scup Ideas | Fortalecendo negócios de mídias sociais

SCUP - fortalecendo negocios

Evento da Scup, em parceria com a Fundação Cásper Líbero, irá debater os desafios que muitas agências e empresas encontram ao fazer negócios de mídias sociais. E é gratuito! Vejam a programação:

13:40 Welcome coffee
14:00 Transmitindo a importância das mídias sociais
Mário Soma | Pólvora Comunicação
14:25 Tangiblizando os benefícios do monitoramento
Alexandra Avelar | Scup
14:50 O que as empresas esperam das agências nas mídias sociais?
Douglas Costa | Netshoes
15:15 Como vender mídias sociais internamente e convencer a geração X?
Lidiane Faria | Fundação Cásper Líbero
15:40 Painel final de discussão
Alexandra Avelar, Douglas Costa, Lidiane Faria e Kátia Furtado (Agência Monstra)
Até 17:00: Networking Coffee

O que se esconde por trás de uma nuvem de palavras?

Nuvem de palavras, word cloud ou tag cloud são vários termos utilizados para um tipo de visualização, assim como os grafos, bem própria da era digital, que democratizou uma série de ferramentas e capacidades analíticas para a pessoa comum. “Brincar com dados” é hoje uma atividade cultural tão fácil quanto qualquer outra na internet e, no caso das nuvens de palavras, algo que pode ser feito imediatamente através de sites como Wordle.

Apesar desta simplicidade de utilização, as nuvens de palavras e nuvens de tags escondem minúcias e fatos interessantes por trás de seu uso corriqueiro no nosso mercado de análise e apresentação de dados. Então, vamos lá: o que se esconde por trás de uma nuvem de palavras?

aladdin sane word cloudNuvens de palavras: como funcionam?
Em uma visualização do tipo, cada palavra tem seu tamanho regido pela relevância em determinado corpus de texto. Geralmente se trata de contagem simples das ocorrências de determinada palavra no texto. Uma palavra citada 276 vezes vai ter um tamanho proporcionalmente maior do que uma palavra citada 154 vezes. Ao lado, por exemplo, uma nuvem de palavras criada a partir da música “Aladdin Sane” do David Bowie.

O que fazer com nuvens de palavras?
O grande motivador da popularidade das nuvens de palavras para o público geral foi sua utilização desenfreada como recurso navegacional em blogs durante os anos 2000. Adicionar uma nuvem de palavras com as principais categorias ou tags do blog no sidebar era praticamente obrigatório durante um período. Eu enfatizaria o seu poder em três pilares:

  • Recurso Navegacional: então, o modo pelo qual podemos clicar em palavras ou tags para irmos direto a textos relativos a estas categorias e/ou com as determinadas palavras possui simplicidade intuitiva. O digital permite criar índices onomásticos de qualquer volume de textos e, considerando a pouca atenção e tempo que temos, a nuvem de palavras com a quantificação visual linkada é eficaz.
  • Método Heurístico de Análise: uma palavra repetida várias vezes o é por algum motivo. Nuvens de palavras são, então, um método heurístico de análise. Por si só não vão resolver um problema ou responder a uma questão de pesquisa, mas apontam caminhos para o quê se observar em um texto ou, mais importante ainda, em um grupo de textos. Os aplicativos que fazem nuvem de palavras via Twitter são reveladores por causa disto. Afinal de contas, um #trendingtopic no Twitter tem a mesma raiz de apontamento de relevância que uma nuvem de palavras.
  • Apresentação e Visualização de Dados: apresentar, de forma hiper resumida, um dado sobre texto(s) ou conversações através de nuvem de palavras tornou-se padrão. Clientes hoje pedem o recurso pois podem vislumbrar imediatamente os termos mais comuns.

Word Cloud, Tag Cloud, Nuvem de Palavras ou Nuvem de Tags?

A rigor, são utilizados de forma intercambiável, mas recomendo usar o termo tag cloud / nuvem de tags para visualizações que tratam de palavras bem definidas enquanto “tags” mesmo. Ou seja, marcações mais gerais, relacionadas a um sistema de classificação ou identificação criado pelos emissores (por exemplo, o uso de #hashtags) ou criado pelo analista (por exemplo, categorias de um monitoramento). Por outro lado, nuvens de palavras ou word clouds são termos para a visualização quantificada do número de ocorrência das palavras (ao invés das “categorias” ou “marcadores” no caso de tags).

Nuvens de palavras representam um novo tipo de visualização
Em seu clássico artigo “What is Visualization”, Lev Manovich explica que visualização de dados, historicamente, sempre envolveu a redução. Ao invés de mostrarmos uma lista com cinco mil respostas a uma survey, transformamos essa lista em um gráfico como um histograma, mostrando a distribuição das respostas. Ou seja, uma redução. Esta redução envolve transformar um dado em outro formato visual: o volume de respostas a cada pergunta, por exemplo, se é traduzido/reduzido em tamanho de colunas.

Mas quando falamos de texto e de nuvens de palavras, estamos falando de uma visualização direta. Utilizamos o mesmo objeto medido (palavras) para representar as relações entre o que estamos medindo (palavras!). Este tipo de visualização direta tem ocorrências muito mais elaboradas como o Cinema Redux, mas as nuvens de palavras são de longe a mais conhecida. Para ilustrar, imagine que as diferenças entre as visualizações das frequências das palavras mais comuns no início deste post:

histograma x word cloud

Nuvens de palavras? Realmente simples?
Quando falamos de nuvens de palavras (e quando vejo alguns relatórios e infográficos por aí…), parece que a montagem de uma nuvem é algo tão simples quanto abrir a ferramenta, apertar ctrl+c e ctrl+v. Fazer uma nuvem de palavras eficaz é algo bem mais complexo do que isto e devemos ter alguns cuidados, como os listados abaixo.

  • Nuvens de palavras baseadas em monitoramento de mídias sociais (ou baseados em queries): recomenda-se retirar ou relativizar o tamanho da palavra envolvida na query em questão. É óbvio que a palavra estará em todas as unidades de texto (menções), então seu tamanho será muito maior do que as outras palavras, prejudicando a clareza da visualização. Abaixo dois exemplos de nuvem brutas de tags, com e sem as palavras da query buscada.
Tagclouds com e sem query.

Tagclouds com e sem query.

  • Cores e Marcas de Clientes: assim como outros tipos de elementos visuais de um relatório, é mais eficiente utilizar as cores próprias da marca e branding da empresa ou produto do cliente ao se apresentar nuvens de palavras em torno da marca.
  • Simbologia Afetiva das Cores: assim como ocorre com os gráficos de sentimento, pode ser útil mostrar nuvens de palavras segmentadas de acordo com o sentimento atribuído na análise. Neste caso, a simbologia das cores mais básica está relacionada à análise de sentimento: vermelho, verde e laranja para denotar negativo, positivo e neutro. Arbitrárias, mas são codificações consensuais (pelo menos na maioria dos países), então não faça uma nuvem de palavras sobre “elogios de consumidores” usando tons de vermelho.
  • Cores enquanto gradação: a intensidade da cor em cada palavra pode direcionar o olhar, mas ser uma dimensão que não traz dados. Cuidado com as configurações básicas das ferramentas de nuvem de palavras. Não deixe que suas limitações façam uma visualização confusa.
  • Realmente dizem algo? Nem todas nuvens de palavras vão lhe dar informações relevantes. Em alguns casos, a nuvem de palavras vai reproduzir o óbvio ou, ainda, motivar interpretações errôneas. Imagine que você extraiu todas as bios dos seguidores de uma conta Twitter e usa uma nuvem de palavras pra medir e visualizar as mais comuns. Encontrará palavras como “apaixonado/a”, “mundo”, “deus” e outras bem comuns. Mas são termos comuns no Twitter brasileiro como um todo. Contexto e comparações são sempre bem vindos para refinar as interpretações.

 

Onde fazer nuvens de palavras?

  • A Wordle é o software online usado por 9 entre 10 analistas de monitoramento de mídias sociais. Basta copiar e colar um texto, editar as opções, ou ainda ir na seção avançada, e voilà!
  • A Wordcounter conta as palavras de um texto, recurso muitas vezes necessário para se realizar nuvens de palavas customizadas e mais claras no Wordle, por exemplo.
  • Tagxedo permite criar nuvens de palavras com formas abstratas e silhuetas representacionais, como o raio que caiu como uma luva para a letra de Aladdin Sane lá em cima.
  • O projeto Many Eyes permite criar não só nuvens de palavras, mas também outras visualizações de texto como phrase netword tree.
  • Já o portal Tapor é mantido pela Universidade de Alberta e se dedica a manter, investigar e produzir conteúdo e ferramentas de estudo de textos.

 

Nuvem de palavras formam apenas um cubinho de gelo do iceberg de text analytics e análise semântica

Análise semântica, análise de conteúdo e análise de discurso são metodologias amplamente consolidadas nas ciências sociais aplicadas e podem te ajudar a aprofundar bastante as interpretações realizadas. Dois excelentes livros, traduzidos para o português, tratam bastante do tema: Análise de Conteúdo, de Laurence Bardin; e Pesquisa Qualitativa com Imagem, Texto e Som, de Martin Bauer e George Gaskell.

E conheça a história e teoria por trás do popular Wordle no artigo Participatory Visualization with Wordle, Fernanda B. Viégas, Martin Wattenberg e Jonathan Feinberg.