Lançado: “Comunidades, Algoritmos e Ativismos Digitais: olhares afrodiaspóricos”

Lançado! Depois de muito trabalho, o livro “Comunidades, Algoritmos e Ativismos Digitais: olhares afrodiaspóricos” está no ar para compra e/ou download. Reproduzo a seguir a apresentação do livro:

Ao longo das últimas décadas, inúmeras ideias sobre o “virtual”, o “digital” ou a “cibercultura” ganharam tração nos espaços acadêmicos e vernaculares interessados em estudar o impacto (ou relação) da internet na sociedade. Figuras de linguagem que evocavam a internet como composta de “janelas” a outros mundos possíveis também foram aplicadas a indivíduos, grupos e suas identidades.

A comunicação mediada por computador permitiria até o abandono de afiliações identitárias, disseram muitos. Gênero, raça, etnia, nacionalidade e classe ficariam de lado, afirmaram pesquisadores que faziam parte da pequena parcela conectada da população. A realidade era muito diferente disso, como sabiam tanto as maiorias demográficas reais quanto as camadas mais violentas da branquitude. Nos anos 90 supremacistas brancos já planejavam uma reconexão e expansão global, através da internet, que dá seus frutos tóxicos hoje em todo o mundo.         

Processo similar aconteceu na última década com a empolgação quanto a conceitos como big data ou inteligência artificial. Os mais inocentes e os mais cínicos convergiram publicamente a acreditar ou defender que a abundância na geração de dados e a capacidade computacional para analisá-los levariam ao fortalecimento da produção democrática de conhecimento sobre as questões públicas. Testemunhamos o contrário: um aprofundamento do abismo entre cidadãos comuns – que, de fato, possuem mais acesso à informação do que antes – e corporações que concentram exponencialmente não só as informações e sua capacidade de interpretação analítica, mas também a aplicação de conhecimento operacionalizado na concentração de capitais e esfarelamento das instituições públicas.

Interpretações generalistas e totalizantes sobre os usos, apropriações, narrativas e contra-narrativas das tecnologias da comunicação ficaram, portanto, ainda mais anacrônicas. Mas às pioneiras e pioneiros de estudos críticos da comunicação digital somam-se cada vez mais pesquisadoras/es interessadas e instrumentalizadas a contar as histórias dos subalternizados, empenhadas em desvelar fenômenos, objetos e dinâmicas invisibilizadas por academias elitistas ainda a serviço de uma supremacia branca global.

O livro “Comunidades, Algoritmos e Ativismos: olhares afrodiaspóricos” é uma das muitas iniciativas de combate a cegueiras supostamente pós-raciais. Visando colaborar no preenchimento das muitas lacunas bibliográficas que tolhem a oferta bibliográfica de estudantes do Brasil e países lusófonos, o livro reúne 14 capítulos de pesquisadoras e pesquisadores provenientes e com conhecimento científico e experiencial dos Brasis e de países da Afrodiáspora e África, como Congo, Etiópia, Gana, Nigeria, Colômbia, Estados Unidos e Reino Unido. O principal objetivo da publicação é reunir reflexões diversas e multidisciplinares sobre as interfaces dentre os fenômenos da comunicação digital, raça, negritude e branquitude nos últimos 20 anos, oferecendo material de referência para estudantes e pesquisadoras/es em diversos níveis.

Através da tradução de textos estrangeiros inéditos em português e atualização e redação de publicações selecionadas de brasileiras/os, o livro colabora com a crescente complexificação do pensamento sobre a comunicação digital e internet resultante da diversificação dos olhares e falas nos espaços acadêmicos. Da matemática na divinação Ifá ao ativismo político, os temas e objetos dos capítulos passam por transição capilar, blackfishing, afroempreendedorismo, Black Twitter, contra-narrativas ao racismo e métodos digitais de pesquisa apropriados à complexidade das plataformas, algoritmos e relações de poder incorporadas nas materialidades digitais racializadas.

Abrindo o livro, o artigo “Retomando nosso fôlego: Estudos de Ciência e Tecnologia, Teoria Racial Crítica e a imaginação carcerária” de Ruha Benjamin propõe o conceito de Critical Race STS como nexo essencial para entender a imaginação carcerária que motiva a criação e formatação das tecnologias digitais empregadas cotidianamente no controle, classificação e fixação dos corpos.  Partindo da metáfora da respiração e do fôlego, repetidamente negados a afro-americanos e afro-brasileiros sufocados por forças policiais, Benjamin nos convoca a repensar os projetos da sociologia e dos estudos de ciência, tecnologia e sociedade.

Como resultado de amplo estudo sobre discurso de ódio, Luiz Valério P. Trindade apresenta, logo na introdução do texto “Mídias sociais e a naturalização de discursos racistas no Brasil“, um resgate da invisibilidade da “questão” – longe de ser apenas uma inflexão – racial na pesquisa sobre comunicação digital e internet. Esta invisibilidade é combatida a seguir em seu trabalho, que evoca a literatura e metodologia científica para compreender como o racismo à brasileira se desdobra nos discursos digitais circulados em mídias sociais.

Realizando a ponte entre as realidades brasileira e colombiana, Niousha Roshani apresenta dados e reflexões sobre o racismo nos dois países em diversas esferas, da econômica à midiática. O artigo “Discurso de Ódio e Anti-Racismo Digital: ativismo da juventude afrodescendente no Brasil e Colômbia” inclui também mapeamento de projetos da sociedade civil que oferecem contra-narrativas e reações à sociedade racista nestes países latino-americanos.

A partir de longo histórico de pesquisa sobre o Black Twitter, Andre Brock organiza o método “Análise Crítica Tecnocultural do Discurso”. Influenciado pela abordagem histórico-discursiva, Brock sugere princípios, pilares e expectativas para o método, que vê a cultura como artefato tecnológico e, portanto, combina análise das materialidades e articulações sociais-políticas na compreensão da produção de significado em rede.

A transição capilar, fenômeno que se intensificou na última década graças à convergência de aspectos econômicos, políticos e ideológicos é o tema agregador das comunidades investigadas por Larisse Pontes Gomes. Em “Estéticas em transformação: a experiência de mulheres negras na transição capilar em grupos virtuais“, a autora estuda como as tecnologias de comunicação digital foram transformadas em ferramentas afetivas e decoloniais para as mulheres negras no apoio mútuo e expansão da autoestima.

 Também na seara da política da estética, Ronaldo Araújo e Jobson da Silva Junior apresentam as micronarrativas de racismo no Twitter em torno de um fenômeno em ascensão, ainda que não exatamente novo: o blackfishing. Em “Blackfishing e a transformação transracial monetizada“, os autores apresentam e discutem o fenômeno, assim como as controvérsias resultantes.

Em “Racismo Algorítmico em Plataformas Digitais: microagressões e discriminação em código”, Tarcízio Silva apresenta o pensamento sobre as microagressões como método para discutir o racismo digital e suas novas e perversas manifestações algorítmicas. Argumentamos que a reprodução pervasiva das ideologias racistas em bases de dados, representações visuais e recomendação de conteúdo nas plataformas digitais podem ser compreendidas a partir desta chave conceitual.

Explorando levantamento de dados em bancos de imagens, Fernanda Carrera estuda as dinâmicas de produção e reprodução de representações racistas no Shutterstock, Stockphotos e Getty Images. Em “Racismo e sexismo em bancos de imagens digitais: análise de resultados de busca e atribuição de relevância na dimensão financeira/profissional” resultados a buscas imbuídas de valoração na sociedade contemporânea, tais como “chefe” ou “secretária/o” e “pobreza” são analisados em suas representações raciais e visibilidades nos sites em questão.

Dedicada também à centralidade da questão algorítmica na contemporaneidade, Abeba Birhane discute as faces do poder colonial transformado em mecanismos invisíveis de controle das plataformas, padrões tecnológicos e negócios digitais. O texto “Colonização Algorítmica da África” discute e enfrenta as interpretações neocoloniais sobre a “mineração” de dados e conhecimento sobre o continente africano.

A partir de um ponto de vista africano sobre o ativismo digital, o texto a seguir defende uma perspectiva continental sobre o tema frente a repressão de projetos autoritários. Referenciando o evergetismo cívico, Serge Katembera nos apresenta sua análise sobre o “Ativismo Digital na África: demandas, agendas e perspectivas“.

Os ciberativismos do feminismo negro, os pontos de convergência e particularidades de pensadoras e ativistas negras sobre a questão nos são apresentados por Thiane Neves Barros em “uma autobiografia de milhares de vozes”. O texto “’Estamos em marcha’: Escrevivendo, agindo e quebrando códigos” resgata pontos das construções intelectuais de feministas negras na academia e para além.

Em “Mulheres e tecnologias de sobrevivência: Economia Étnica e Afroempreendedorismo”, Taís Oliveira e Dulcilei C. Lima apresentam as particularidades do afroempreendedorismo das mulheres no Brasil a partir da exploração das fortalezas e contradições dos estudos sobre economia étnica. A partir do pensamento e realidade afrobrasileiras sobre o tema e dados provenientes de duas pesquisas realizadas pelas autoras sobre feminismo negro na internet e práticas de empreendedores, apresentam a ideia de tecnologias de sobrevivência.

Lembrando das ancestralidades e ideações milenares, Femi O. Alamu, Halleluyah Aworinde e Walter Isharufe nos mostram como a divinação Ifá tem paralelos – e precede – processos típicos da Computação. Tanto a estrutura de cálculo dos 256 Odus e quanto o fluxograma das operações Entrada-Processo-Saída na relação entre sacerdote e cliente são explorados em “Estudo Comparativo entre o Sistema de Divinação Ifá e Ciência da Computação”.

Encerrando o livro, “Articulando e performando desenvolvimento: retornantes qualificados no negócio de TICs do Gana” de Seyram Avle  investiga motivações, percepções e trajetórias profissionais e empreendedoras de emigrantes ganenses que retornaram ao país depois de formação global no exterior, sobretudo em países do Norte. Os retornantes impulsionam ideias particulares de responsabilidade com o país e desenvolvimento tecnológico de Gana.

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