Olhar para as mídias sociais com o microscópio

Parece-me que os olhares sobre as mídias sociais, hoje, são em sua maioria telescópicos. Grandes audiência, foco extremo em uma única mídia social, pouca atenção aos dados e “rede social” só da boca pra fora, pois as relações não são vistas em suas individualidades.

A partir deste tema, realizei uma palestra no evento Imersão em Mídias Sociais #4, no último 15 de março. O slideshow da palestra pode ser acessado e baixado em:

Monitoramento de Mídias Sociais para Política e Eleições: histórico, aplicações e passo-a-passo

Início de ano par é sempre a mesma correria para alguns profissionais de comunicação. Todos os preparativos para as eleições movimentam dinheiro, pessoas, equipes e ânimos. Pensando nisto preparamos um whitepaper com histórico, aplicações e passo-a-passo para Monitoramento de Mídias Sociais para Política e Eleições.

10 anos de Facebook, um ponto obrigatório de passagem

Ao completar seus dez anos de existência, o Facebook serve de excelente exemplo prático de uma das definições mais interessantes do que significa poder no mundo contemporâneo. Pensadores como Michel Callon e Bruno Latour exploraram o conceito de “ponto obrigatório de passagem” sobre uma das estratégias para alcançar poder. Nas palavras de Callon: “podemos tentar nos tornar tão indispensáveis que ninguém pode agir sem nós, criando um monopólio sobre certo tipo de força. Se sucedermos nesta estratégia, nos tornamos um “ponto obrigatório de passagem”, um porto compulsório onde todos são forçados a negociar”.facebook-2004-640

Em 2004, como acompanhamos em primeira mão, lemos ou vimos em biografias controversas sobre Mark Zuckerberg, surgia o site que hoje supera o bilhão de usuários em todo o mundo. Inicialmente uma comunidade exclusiva para alunos de Harvard, o Facebook foi se abrindo pouco a pouco e hoje tem como público potencial qualquer cidadão mundial com acesso à internet. Porém, este crescimento e sua força não foi resultado dessa abertura apenas, mas sim da inserção do Facebook nas propriedades digitais para além de seus domínios.

Os aplicativos sociais, como o mercado de social games que movimentou alguns bilhões nos últimos anos, o newsfeed e sua circulação de informações baseadas em fluxo, os logins sociais e os botões likes trouxeram facilidades para usuários, desenvolvedores, jornalistas, gerentes de marketing e comércio eletrônico e até ativistas políticos. A facilidade construída pelo volume de dados e sua circulação pelos servidores do Facebook seduz os mais diferentes atores sociais: agir, expressar-se, conversar e vender não só são facilitados através do Facebook, como também suas manifestações neste site tornam-se quase que obrigatórias. Para muitos, a rede praticamente engoliu a web, tornando-se sinônimo desta. É uma espécie de simbiose fomentada pelo site de rede social, para seu próprio benefício.

Trata-se aqui tanto de conexão e conectividade (tradução difícil dos conceitos de Jose van Dijck: connectedness e connectivity). Por um lado a cultura participativa é promovida pelas pessoas e seus interesses de sociabilidade e compartilhamento. Atravessando esta comunicação, está presenta também a transformação dos pontos de dados relacionais e de atributos sobre os indivíduos e seus comportamentos, empreendida pelo Facebook para fortalecer seus modelos de negócio. Cada perfil – os “eus” digitais de bilhões de usuários – são também nós em uma rede de dados que só o gigante das mídias sociais tem acesso completo.

É uma população digital conectada e relativamente madura, que já passou por diversas mídias sociais e investiu mais tempo em uma específica, criando suas redes e apresentação de si. O esforço de procurar alternativas supera as insatisfações com o Facebook, de modo geral e prescindir do site significa perder os valores afetivos, temporais e até financeiros depositados ali durante anos.

Assim como acontece com os usuários comuns, o mundo da comunicação passa por um grande desafio ao enfrentar esta dualidade. Ao mesmo tempo em que oferece vantagens gigantescas (circulação rápida de informações, social big data e visibilidade são só alguns exemplos), o ecossistema midiático que tem o Facebook como o centro também lhe dá plenos poderes de mudar as regras do jogo, através de seus algoritmos e decisões de interface.

O que hoje é visto como uma das poucas ameaças ao Facebook, o suposto abandono da rede por adolescentes, é próprio do choque entre gerações. Talvez este grupo social, historicamente contestador, seja justamente o que tem mais energia de mudar e menos coisas a perder. Resta acompanhar e agir nesta rede e nas que a perpassam: nossas ações individuais, de forma coletiva, é que definirão se o Facebook continuará sendo “obrigatório” nos próximos anos.

E você, consegue imaginar o aniversário de 20 anos do site?

Segmentação do Público no Monitoramento de Mídias Sociais

Na minha opinião, um grande diferencial de relatórios e estudos baseados em monitoramento bem feitos é a presença de uma ênfase nas pessoas que estão emitindo as opiniões e interagindo com as marcas. Para realizar isto, os conceitos de segmentação de público podem ser bastante úteis. Preparamos um material sobre o tema, que pode ser baixado gratuitamente, para relembrar as ideias em torno da segmentação e sugerir algumas aplicações no monitoramento de mídias sociais:

12 Livros para o Profissional em Comunicação ler em 2014 – parte 4

Para finalizar as dicas de livros para 2014 (ver partes 1, 2 e 3), farei diferente: os três livros abaixo são publicações que ainda não li, mas com temas bastante relevantes, de autores que já conheço e que estão na minha lista de leitura do ano.

spreadable mediaEm Spreadable Media – creating value and meaning in a networked culture, Henry Jenkins, Sam Ford e Joshua Green “maps fundamental changes taking place in our contemporary media environment, a space where corporations no longer tightly control media distribution and many of us are directly involved in the circulation of content. It contrasts “stickiness”—aggregating attention in centralized places—with “spreadability”—dispersing content widely through both formal and informal networks,some approved, many unauthorized. Stickiness has been the measure of success in the broadcast era (and has been carried over to the online world), but “spreadability” describes the ways content travels through social media.”

Para quem não se lembra, Jenkins é autor também de Cultura da Convergência, publicação que analisou a cultura da convergência partindo de alguns produtos culturais bastante populares. Um dos casos mais interessantes é a análise das narrativas crossmedia a partir do caso de Matrix Reloaded e Matrix Revolutions, assim como a cultura da colaboração, paratextos e comunidades de interesse a partir de spoilersda série americana Survivor. Best seller, influenciou bastante o modo pelo qual o mercado pensou convergência e digital de 2008 em diante. O livro possui um site com blog, ensaios e reviews: spreadablemedia.org

a comunicação das coisasEm A Comunicação das Coisas: Teoria Ator-Rede e Cibercultura, o professor André Lemos “apresenta aspectos teóricos e exemplos práticos, sendo composto por seis capítulos e uma entrevista com o sociólogo francês Bruno Latour, o mais importante nome da TAR. O leitor vai encontrar temas atuais analisados pela ótica dessa teoria, tais como as mídias locativas, a “internet das coisas”, os dispositivos de leitura eletrônicos, como tablets e e-readers, as redes sociais, o ciberativismo, o jornalismo, entre outros. O livro, escrito por um dos mais importantes estudiosos da cultura digital no Brasil, pode ser útil para estudantes e pesquisadores em sociologia, filosofia, comunicação, geografia, arquitetura e urbanismo, informática e áreas afins.”

André Lemos é professor da Facom e Póscom-UFBA, líder do grupo Lab404 – Laboratório de Pesquisa em Mídia Digital, Redes e Espaço, autor de diversos livros como Cibercultura – tecnologia e vida social na cultura contemporânea e O Futuro da Internet, em co-autoria com Pierre Lévy. Para ter uma ideia do conteúdo de “A Comunicação das Coisas”, recomendo o artigo Espaço, Mídia Locativa e Teoria Ator-Rede.

the culture of connectivityThe Culture of Connectivity: A Critical History of Social Media, escrito pela pesquisadora Jose van Dijck, da Universidade de Amsterdam “studies the rise of social media, providing both a historical and a critical analysis of the emergence of major platforms in the context of a rapidly changing ecosystem of connective media. Author Jose van Dijck offers an analytical prism that can be used to view techno-cultural as well as socio-economic aspects of this transformation as well as to examine shared ideological principles between major social media platforms. This fascinating study will appeal to all readers interested in social media.”

Jose van Dijck é autora também de outros livros, como Mediated Memories in the Digital Age, que explora como as mídias digitais reconfiguram as práticas em torno das memórias pessoais. O artigo “Users like you? Theorizing agency in user-generated content” pode ser uma boa leitura inicial dos escritos da Van Dijck.