Curso Online de Etnografia em Mídias Sociais

Lançamos nosso primeiro curso online no IBPAD! A partir de 16 de janeiro, alunos de todo o país poderão fazer o curso de Etnografia em Mídias Sociais com a Débora Zanini e comigo. Saiba mais no vídeo abaixo:

Dois diferenciais relevantes podem ser destacados. O primeiro é que estamos já há mais de 1 ano planejando este curso online, usando as diversas versões presenciais abertas e in-company para otimizar o conteúdo ao longo do tempo. O segundo diferencial é o modelo, pois usamos como horizonte os padrões dos MOOC (Massive Online Open Courses). São dezenas de aulas em cada curso, divididas em módulos, em vários formatos: vídeos, artigos exclusivos, tutoriais, leituras orientadas, quizzes e outros. O de Etnografia, por exemplo, possui mais de 60 aulas que os alunos poderão realizar em quatro semanas ou em seu tempo:

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O curso está com valor promocional de pré-venda e aqui no blog tem um cupom exclusivo! Use o código atadllams no carrinho e economize ainda mais.

Estão em produção também o curso de Análise de Redes em Mídias Sociais e de Monitoramento de Mídias Sociais.

Tendências em Mídias Sociais para 2017

Eu adoro documentos de projeção de tendências mercadológicas. Não por achar que exista um caráter preditor de fato. Mas porque, consciente ou inconscientemente, profissionais seguem a máxima do Peter Drucker: “A melhor maneira de prever o futuro é criá-lo”. Dessa forma, cada texto publicado sobre tendências traz interesses implícitos que aquelas ideias se tornem profecias autorrealizáveis. Isto torna um documento como o Tendências 2017 da turma do Quero Ser Social Media basicamente um guia sobre as movimentações futuras do mercado. Aproveitem:

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Pesquisa acadêmica: o caminho para a evolução da análise de dados no mercado

A fatia da população brasileira com ensino superior ainda é absurdamente pequena. O gráfico abaixo compara dados de 2014 da OECD, mostrando a fatia da população entre 25-64 anos com ensino superior. Apesar da relativa evolução na última decada, o Brasil conseguiu formar apenas 14%, nesta lista à frente apenas de Indonésia e China (que, devido a sua população gigantesca, acaba por ter várias vezes o número de formados que o Brasil). Japão, Rússia, Canadá e EUA superam 50%.

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Apesar desta triste realidade, são comuns os discursos que menosprezam o papel das universidades e da formação e pesquisa acadêmicas no país, sobretudo entre parte do mercado ligado à publicidade. Lembro como, no ano passado, uma matéria sobre o papel da graduação na formação de bilionarios viralizou no meio. Seu título era “Você vai se surpreender quando descobrir qual graduação mais forma bilionários” e supostamente surpreendia o leitor ao mostrar que, na verdade, na frente de cursos de Business e Engenharia, estava simplesmente a opção “Nenhuma”. O estudo mostrou que 32% dos bilionários americanos levantados não se formaram, contra 68% que se formaram em alguma graduação. Este dado foi visto como indicador, no discurso neoliberal, de que graduação não é sinônimo de “sucesso”.

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Uma das versões da reportagem.

A ironia é que cruzar dados é justamente algo que pode ser aprendido em graduações. Os dados da OECD também mostram que 45% da população americana, onde está a maioria dos bilionários, se formou. Ou seja, 55% não se formaram contra 32% dos bilionários. Bastaria ter um pouco de repertório crítico-analítico para ver que os dados da matéria mostram que os ricaços são mais educados formalmente que a média da população. E isto sem falar de todas as variáveis sistêmicas que explicam sua riqueza.

Em novembro foi publicada a pesquisa Perfil dos Profissional de Inteligência em Mídias Sociais, desenvolvida por Ana Claudia Zandavalle.  Como comentei nos resultados do ano passado, a pesquisa mostra importante fatia de pós-graduandos neste mercado, com salário muito maior que a média.

Também curioso é que grande parte destes profissionais estão alocados em agências de publicidade, que em peso “ignoram” a formação acadêmica. Mas, nas áreas de monitoramento, business intelligence e métricas, profissionais com formação acadêmica densa se destacam. Estes profissionais se destacam nas agências por capacidades adquiridas na universidade ou através de procedimentos de investigação aprendidos em grupos de pesquisa – mas as agências subestimam a formação. Ou, pior: as desmotivam publicamente.

Já no recorte do “mercado de mídias sociais”, que cerca de 8 anos atrás ainda era uma grande novidade, um fenômeno curioso aconteceu. De um lado, predominava o discurso de que as mídias sociais eram algo “novo” e por isto as formações existentes não dariam conta de suas especificidades. Balela, claro, pois decisiva mesmo é a formação em comunicação, psicologia social, linguística e disciplinas ligadas a interação humana, e não aprender a apertar botão ou onde ficam as funcionalidades na interface do Facebook. E ao mesmo tempo, por ser um mercado percebido como novo e que não requer inicialmente muito mais que um computador, as barreiras de entrada eram mínimas. Então centenas de agências surgiram neste período, diversas delas criadas por graduandos.

Foi o meu caso. Criei com amigos uma agência em 2008, quando ainda estava acabando a graduação. O ambiente propício foi a excelência acadêmica da UFBA em um laboratório com apoio externo, do mercado. Desde então, além desta agência, ao menos quatro agências/institutos nasceram das mãos daqueles ex-bolsistas. E a maior parte continua desenvolvendo, também, pesquisa acadêmica.

Entretanto, estas parceiras público-privadas em pesquisa & desenvolvimento são raras em comunicação no Brasil. Sobretudo devido ao desinteresse das empresas em retornar o que recebem direta e indiretamente das universidades e do Estado. A desvalorização da formação acadêmica em alguns meios da comunicação se intensificou ainda mais com as narrativas em torno de figuras como Steve Jobs e Mark Zuckerberg.

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Porém, a maior parte deste discurso deixa de lado a relevância do papel das universidades no início da criação de empresas como Microsoft, Apple e Facebook; deixam de lado o quanto estas empresas contratam cientistas; e como elas próprias desenvolvem estruturas que copiam as universidades. Este discurso comumente vem casado com a velha demonização do papel do estado. Mas como mostra a consultora italiana Mariana Mazzucato no excelente livro O Estado Empreendedor, mesmo a Apple deve seu sucesso ao investimento em pesquisa de base que o liberal Estados Unidos faz:

Em suma, “descobrir o que você gosta” enquanto continua sendo “louco” é muito mais fácil em um país em que o Estado desempenha um papel fundamental, assumindo o desenvolvimento das tecnologias de alto risco, fazendo os investimentos iniciais, maiores, mais arriscados e depois sustentando-os até que os atores do setor privado, em um estágio muito mais adiantado, apareçam “para brincar e se divertir”. Assim, enquanto os especialistas do “livre mercado” continuam a alertar para o perigo de o governo “escolher vencedores”, pode-se dizer que várias políticas governamentais americanas lançaram as bases que deram à Apple os instrumentos para se tornar um dos principais integrantes de uma das indústrias mais dinâmicas do século XXI.

Mas, para além desta discussão, chegamos a um momento crucial na relação da comunicação com práticas científicas. A “era do big data” e a metrificação de (quase) tudo requerem mais ciência, mais análise, mais dados, mais rigor, mais ferramentas, mais P&D. Tanto o desenvolvimento do mercado como um todo quanto dos indivíduos interessados em atuar nesta área passa por mais especialização e ciência, não menos. É hora do mercado se atualizar e ver que os cientistas acadêmicos pesquisam e aplicam há décadas inovações que a maioria das empresas nem sonham.

Promover e defender a ciência brasileira é muito importante, sobretudo no atual momento. Se você que lê este texto atua e/ou possui algum tipo de impacto no mercado da comunicação, espero que este texto possa te tocar para fazer parte desta compreensão. Não consigo entender como um brasileiro não se choque com aquele gráfico lá no topo do post. Precisamos atuar para expandir o acesso a universidades no país e sua efetiva democratização. Do ponto de vista do “mercado”, mesmo sem pensar em motivos mais nobres, este perde em muito em não consumir e disseminar a pesquisa acadêmica.

Se você é estudante e está lendo o blog para aprender algo novo, saiba que o caminho pode passar pela junção rigorosa dos diversos mundos de conhecimentos e práticas. Leia, procure, atue, pesquise, se aproprie, transforme, ensine e leve suas experiências para a universidade e para outras pessoas.

Mas por mais válida que seja esta minha crítica em si, podemos ir além e tentar afetar o mercado de forma positiva. Recentemente lançamos mais um livro gratuito (é meu quinto) e hoje trago outra novidade relacionada ao tema que discuto aqui. Fizemos a curadoria de uma lista de 100 pessoas do Brasil e do mundo que publicam conhecimento sobre Pesquisa e Monitoramento de Mídias Sociais. Isto resultou em mais de 1 mil links de artigos, vídeos, entrevistas, ferramentas e tutoriais:

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Com uma listagem destas, é impossível dizer que há pouco conhecimento acadêmico sobre o assunto ou alegar que não o encontra.

Vamos estudar e aplicar juntos?

Além das hashtags – #Ferguson, #Blacklivesmatter e a batalha online por justiça offline

Desde 2014, cresceu online a mobilização para denúncia e repúdio às execuções de indivíduos negros desarmados por policiais nos EUA. Além do uso desproporcional da força em casos que envolviam crimes efetivos, aconteceram execuções escandalosamente racistas – como o chocante caso de Tamir Rice, de 12 anos, morto enquanto brincava em um parque.

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Mortes por policiais nos EUA e outros países também populosos e com IDH altíssimo, em 2013. No Brasil, em 2014, foram 3.022 pessoas.

O movimento e hashtag #BlackLivesMatter (“Vidas Negras Importam”) surgiu em 2013, mas se intensificou a partir de 2014. A possibilidade de circular informação sobre os casos nas mídias sociais, somada às evidências dos acontecimentos através de vídeo abriram a possibilidade de gerar fortes manifestações, como os protestos em Ferguson depois que a justiça americana inocentou policial que matou Michael Brown com seis tiros.

beyond-the-hashtagsO relatório Beyond Hashtags: #Ferguson, #Blacklivesmatter, and the online for offline struggle, realizado pelos pesquisadores Deen Freelon (American University), Chartlton D. Mcilwain (New York University) e Meredith D. Clark (University of North Texas) foi publicado neste ano e aplicou métodos digitais de pesquisa a 40,8 milhões de tweets, 100 mil links e 40 entrevistas com ativistas e aliados do BLM.

  • Foram encontradas seis grandes comunidades de conversa, a partir da análise de redes: Black Lives Matter; Anonymous/Bipartisan Report; Artistas/Profissionais de Entretenimento Negros; Conservadores; Notícias Mainstream; Twitter Negro Jovem.
  • O maior parte das comunidades observadas apoiam justiça para as vítimas e denunciam a brutalidade policial;
  • Os jovens negros discutiram a brutalidade policial, mas de modos diferentes das outras comunidades;
  • Ativistas conseguiram educar observadores casuais em dois pontos: choque e descrença sobre as reações policiais nos protestos de Ferguson; e reconhecimento pelos Conservadores, da brutalidade policial nos casos de Eric Garner e Walter Scott.

Os pesquisadores descobriram 9 períodos distintos de mobilização, nos quais aplicaram 2 perguntas de pesquisa em dois níveis de abstração. No nível Macro, analisou as comunidades em rede e as hashtags mais utilizadas; no nível micro, os principais usuários em cada comunidade e análise dos tweets muito replicados. Assim, conseguiram responder as perguntas “Quem é mais ouvido?” e “O que estes usuários dizem”.

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Ao longo de suas 92 páginas, os autores aplicaram um processo muito útil e eloquente de simplificação das redes em suas comunidades. O grafo abaixo, por exemplo, representa 3,9 milhões de tweets de 897 mil usuários, que foram esquematizados nas comunidades participantes e suas interações.  Foi possível observar, por exemplo, a presença de conservadores contra os movimentos e mobilização, e também a presença de ativistas da Rússia e Irã expondo as contradições internas estadunidenses.

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Alguns dos tweets de destaque do período: de conservadores promovendo a violência; flagra de violência contra jornalista; e articulação dos militantes.

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Diversos recursos criativos de análise dos dados a partir da perspectiva dos métodos digitais foram utilizados. Em um trecho do relatório, os sites são comparados em torno de sua idade, usando dados da WaybackMachine:

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Entre as várias ricas conclusões, os autores observaram que raramente os tweets mais replicados são aqueles que estão articulando movimentação presencial. Geralmente são informacionais. Isto pode ser visto tanto quanto indicador do risco inerente em se expor ao tema, quanto indicador da necessidade de se aprofundar na cauda longa da análise, assim como este estudo conseguiu.

We also found that attempts to coordinate movement action were rare among the top tweets. By this we mean information about where protests would be held, invitations to participate, instructions on how to participate, and discussions about what kinds of actions should be held. We saw a few such tweets in passing and some of our interview participants mentioned finding out about protests from Twitter. However, movement action tweets were not among the most shared. This implies that most people paying attention to BLM online were more interested in consuming information and participating digitally than in offline participation. This is not much of a surprise, especially considering the risks of some of BLM’s offline actions. But it does remind us that just because a certain movement use of Twitter is not the most visible does not mean it is not occurring somewhere. It simply means that researchers and interested citizens might need to dig a bit deeper to understand the full scope of social media’s value for activists.

Alguns dos autores estão também envolvidos com o projeto DocNow, que busca desenvolver um software e promover educação sobre a importância de preservar recursos e documentos online para ativistas e pesquisadores de direitos humanos. Em breve, escreverei mais sobre o projeto:

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