Papo sobre analytics e ciência de dados

Final do mês passado tive um papo rápido com o Vinícius Ghise, que tá reforçando a escassa blogosfera sobre social analytics com não apenas um, mas dois blogs: o seu próprio e o 2Read Analytics (sigam!). A mini-entrevista foi feita para um texto sobre o #SAS2014 e, como o estilo jornalístico pede brevidade, reproduzo as respostas inteiras aqui:

O Social Analytics Summit está na terceira edição. Como você avalia a evolução do mercado desde a primeira edição do evento?
Ao longo destes três anos, os setores de monitoramento, pesquisa e mensuração em mídias sociais deixaram as posições secundárias, tornando-se muitas vezes centro das estratégias. O nível de exigência do mercado cresceu muito junto à experiência dos profissionais. Falando de monitoramento de mídias sociais, o número de especialistas com perfil de liderança aumentou bastante, graças ao que foi realizado nestes últimos anos. Então temos dois movimentos fortes: valorização dos profissionais com experiência, que “desbravaram” o mercado e a busca por profissionais de outras áreas com capacidades que são escassas no mercado, como pensamento científico, conhecimento estatístico ou compreensão de metodologias de ciências sociais. O Social Analytics Summit 2014 traz então dois pilares que representam o atual mercado brasileiro de dados sociais: maturidade e ciência.

Apesar da insistência dos especialistas (de social analytics), muitas vezes a inteligência de dados fica um pouco de lado na concepção de novos projetos, em detrimento do conceito criativo, principalmente em agências que surgiram e se consolidaram no mercado trabalhando com propaganda, até então offline, e em determinado momento foram praticamente forçadas a conectar com o digital. Como você avalia este cenário?
Gosto de citar um caso real bem curioso em outro evento que assisti. Numa mesa com um cliente, um planejador e um atendimento, foi justamente o planejador que criticou o uso de métricas na comunicação. Para ele, “métricas tiram a poesia da publicidade”. De bate-pronto, um espectador tuita algo como “não sabe ele que métricas ajudam os poetas desde sempre”. A ojeriza de alguns criativos em relação a matemática e mensuração de modo geral não faz sentido, na minha opinião. É possível analisar tendências, padrões e estilos – inclusive o que “foge” deles – mesmo sem usar uma única fórmula matemática. O pensamento científico pode ser aplicado em todas áreas humanas, inclusive nas criativas, para expandir o domínio até da experimentação.

Como debate de encerramento pusemos dois profissionais que vieram do “mundo acadêmico” para agências de publicidade justamente para mostrar o quanto isto funciona bem. Não por acaso, os dois vieram de outras áreas, administração e ciência política, devido a esta lacuna atual no mundo publicitário. Acredito que, em breve, o mercado publicitário vai voltar a investir ainda mais no entendimento sólido de ciências sociais e metodologia, forçada pelos meios digitais. Esta falsa dicotomia entre criatividade e mensuração vai ser demolida nos próximos anos.

Para quem já trabalha com mídias sociais e deseja se especializar em métricas, qual conselho (ou conselhos) você daria?
O conselho vale para profissionais que desejem trabalhar com mensuração, monitoramento e pesquisa: estudem metodologia. Ao contrário do que se fala por aí em relação a marketing – e em relação a qualquer ciência, no final das contas – o que é considerado ser um bom indicador ou resultado é socialmente estabelecido. Então, os profissionais que conseguem compreender muito bem o mercado, suas demandas e ferramentas para atendê-las, devem compreender como transformar estas necessidades em produtos informacionais. E isto pode ser feito de forma rentável e eficiente apenas por quem compreende como transformar tantos dados de atributos, relações, interações, fluxos, conversas e opiniões, disponíveis nas mídias sociais, em informações acionáveis.

Social Analytics Summit chega à sua terceira edição em 07 e 08 de novembro

social analytics summit

O Social Analytics Summit chegará à sua terceira edição no dia 08 de novembro.  Pelo segundo ano consecutivo tenho o prazer de realizar a curadoria, desta vez com a ajuda da Priscila Marcenes. O evento procura mostrar como insights e estratégia podem ser baseados em dados e ciência para obter os melhores resultados e descobertas.

Para tanto, teremos palestras e debates como temas como Jornalismo e Social Analytics; Infografia: rapidez na apresentação de informações; Social Analytics, Política e Eleições; Melhorando resultados de sites e lojas com dados de mídias sociais; Pesquisa Qualitativa nas Mídias Sociais; e Ciência de dados no mercado publicitário.

Com temas tão interessantes, o nível dos palestrantes só poderia ser de excelência. Confira quem estará no palco:

social analytics summit - palestrantes

Neste ano temos 2 grandes novidades. A primeira é a abertura de um espaço colaborativo. Queremos levar jovens profissionais a mostrarem boas ideias, macetes e modos de trabalhar com os dados sociais digitais. Até 01 de outubro

E a outra grande novidade é um dia do evento composto de um Workshop. A inscrição é opcional e os alunos terão a oportunidade de receber orientação prática de como trabalhar com métricas de mídias sociais e como planejar e analisar monitoramento de mídias sociais.

Então, o que está esperando? O evento acontecerá 7 e 8 de novembro na Faculdade Casper Líbero, em São Paulo. Se ainda tem dúvidas, mais um incentivo: use os códigos de desconto taru2014sas (para as palestras) ou taru2014sasws (palestras + workshop).

Ataque por Infográfico: notas sobre aplicação de dados e marketing de conteúdo

No início de julho, nos últimos dias da Copa do Mundo, foi publicado um curioso e interessante texto no site Máquina do Esporte. Com o título “Copa do Mundo assiste a explosão de análises das redes sociais”, o jornalista faz uma crítica à publicação de análises e infográficos baseados em dados nas mídias sociais.

Nas palavras do jornalista, que parece desconhecer o histórico do mercado de inteligência digital no Brasil, “A Copa fez emergir no Brasil algo recorrente em redes sociais estrangeiras. Hoje, há muito mais agências que divulgam levantamentos feitos em mídias como Twitter e Facebook sobre o comportamento do consumidor. O que ele está falando, onde ele fez check-in, quais atletas e seleções ele menciona, tudo o que dizem está sendo monitorado e transformado em infográficos recheados de números – muitos com pouco valor na prática.

O mais curioso porém, foi transformar dados de algumas agências e consultorias, algumas delas que ajudaram a evoluir este mercado no Brasil, em um meta-infográfico irônico. Na chamada para o infográfico, “Tente caçar, no infográfico a seguir, algum dado útil para sua empresa.

Segue abaixo o meta-infográfico publicado:

ataque por infografico maquina do esporte

A dica do caso foi do Thiago Filipe, em post no produtivo grupo “Entusiastas do Monitoramento e Métricas“. Além da importância de registrar este peculiar caso de “ataque por infográfico”, o texto toca em duas questões que acho bem interessantes, então vou desenterrar o debate neste post.

Existe valor em todas medições de Dados Sociais Digitais?
O uso de dados extraídos de mídias sociais, especialmente o Twitter, que favorece isto por filosofia empresarial e por affordance sociotécnica, enquanto atalho para opiniões de consumidores, é lugar-comum hoje. Em postagem recente trouxe alguns exemplos de como o Twitter pode ser considerado uma plataforma que reúne 300 milhões de sensores humanos, gerando dados para fins tão dispersos quanto reagir a terremotos ou descobrir se um programa de TV está dando certo.

Já o mercado de inteligência de mercado baseada em mídias sociais é o carro-chefe da distribuição de gráficos, visualizações, relatórios e infográficos sobre as opiniões de consumidores (clientes, eleitores, militantes a depender do foco). Conhecendo centenas de empresas brasileiras que dependem deste rico fluxo de informações em tempo-real, transformado em valor para empresas, é desnecessário dizer a importância deste tipo de matéria-prima digital.

Mas o desafio explícito na publicação foi: “Tente caçar, no infográfico a seguir, algum dado útil para sua empresa“. Em primeiro lugar, a matéria esquece de analisar o papel do contexto: mesmo dados quantitativos, que foram até repetidos em vários infográficos diferentes, podem ter valor. Como apontou o Paulo Cabral naquele tópico, mesmo o volume quantitativo das menções apresentado nos gráficos, sem análise profunda, poderia ser observado como um indício para cursos de idiomas ou confecção de camisas esportivas, por exemplo.

Outro erro básico foi não entender o objetivo: a publicação e circulação dos infográficos pelas empresas citadas não tem o objetivo de gerar sólidas aplicações e informações acionáveis. É uma modalidade de divulgação B2B que busca apresentar algumas características básicas do serviço como coleta, codificação, clustering e o tamanho do volume, pois ignorar milhares de menções que podem ser coletadas e processadas a relativo baixo custo não é algo muito inteligente. O objetivo destes simples infográficos é quase publicitário, dar um gostinho da coisa.  Como disse o Augusto Carneiro, “resumindo: “favor avaliar esse elefante pela sua capacidade de subir em árvore”.

Porque os infográficos ficaram tão populares?
Mas quando falamos do formato de “infográfico”, entretanto,  tenho algumas ressalvas. Não é o caso de todas empresas citadas pela Máquina do Esporte, pois parte delas publicam também outros formatos de conteúdo, mas não será que os arremedos de infográficos que vemos por aí estão sendo publicados demais? Não será que temos muitos infográficos e poucos artigos?

Quem acompanha meu blog ou SlideShare, sabe que sou um entusiasta das táticas de conteúdo na relação entre empresas. Acredito, sobretudo em mercados que envolvem algum tipo de disrupção ou inovação (como é o caso de parte do mercado de comunicação digital), que produzir conteúdo que ensine ou problematize algo é quase uma obrigação das empresas destes mercados.

O Nathan Yau, do excelente Flowing Data e autor de 2 livros sobre o tema, dá algumas dicas no texto “The Do’s And Don’ts Of Infographic Design“. Yau cita três problemas que são correntes:

  • Mostre, não fale
  • Se o cliente queria um gráfico do Excel, ele não precisa de você
  • Tipografia não deve ser uma muleta

Ouso dizer que 90% dos “infográficos” em circulação infringem estas três regras e não merecem ser chamados de infográficos, pois não apresentam a informação de modo visual, chegando mesmo a ser um apanhado de caixas de texto e gráficos sem ligação. Isto sem nem mencionar a massiva ausência de fontes, referências ou clareza metodológica.

Parece-me que, no mercado empresarial de comunicação digital, o foco das táticas de comunicação parece estar cada vez menos no “texto de qualidade” para ser algo “shareable” (leio essa palavra em textos brasileiros com frequência, para meu pesar). Menos primeira página no Google, mais “Pessoas Falando sobre Isto” no Facebook. Com a premissa de que imagens geram mais engajamento, infográficos (ou “memes”, deus nos proteja) em páginas de Facebook recebem mais atenção que artigos em blogs.

A ojeriza ao texto está tão em voga que vejo empresas publicando documentos de 3 mil palavras e chamando de “ebooks”. Será realmente que estamos lendo e escrevendo tão pouco que PDFs de 8 páginas já merecem ser chamados de e-livros?