Tendências, coisas e descrição social em Erner, Perec, Becker e Manovich

sociologia-das-tendenciasO que compõe uma tendência? O livro “Sociologia das Tendências“, de Guillaume Erner busca responder a esta importante questão com rigor científico, baseado em referencial sociológico e sua experiência de dezenas de anos como pesquisador.

Apesar de seu foco estar na moda, assim como a editora Gustavo Gili, o livro deveria ser lido por qualquer comunicador interessado em entender como preferências por estilos, produtos e comportamentos flutuam ao longo do tempo.

O primeiro capítulo, então, busca definir tendências e seus vários níveis de tipologia, como não comerciais x comerciais; tendências confidenciais x massivas; funcionais e não-funcionais; ideológicas e não ideológicas. Quanto a esta última, traz um insight que explica parte da dificuldade de transformar o estudo de tendências em aspectos objetivamente mensuráveis ou pesquisáveis:

“as tendências ideológicas, a exemplo das tendências funcionais, obedecem a ‘boas razões’ que o sujeito pode evocar espontaneamente. Um indivíduo interessado pelo budismo é, em geral, capaz de expor o que o atrai nesse dogma; do mesmo modo, o fato de querer um carro econômico não decorre de uma lógica difícil de entender. Já o entusiasmo das massas pelo macaron tem origem num processo muito mais misterioso”

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Macarons, um mistério disponível na boulangerie mais próxima de você (Foto: Julien Haler)

A história da “tendência” e sua transformação em motriz da sociedade é o tema do segundo capítulo, que revisita pontos chave do desenvolvimento do capitalismo como a revolução industrial, a cultura do automóvel e as primeiras revistas de moda na Europa. O novo ethos da modernidade foi essencial para a viabilização de uma cultura da moda:

Essa “neomania” tem uma história, afirma Colin Campbell; ela surgiu após os séculos conservadores que desprezavam o novo. Somente com o desaparecimento da sociedade tradicional, a paixão pela moda se difundiu pela sociedade: o indivíduo passou a ter a possibilidade de molar tanto a sociedade quanto sua pessoa segundo suas vontades.

O terceiro capítulo busca discutir o essencialismo das tendências e seus limites. A partir semiologia de Roland Barthes, insere as ideias pertinentes aos símbolos incorporados em objetos e comportamentos, que seriam representativos de coisas e valores terceiros. Assim, as tendências seriam sempre calcadas no tempo e espaço. Entender o espírito do tempo permite compreender as tendências – as fichas culinárias da revista Elle, por exemplo, incorporariam a ideologia pequeno-burguesa da época.

Antes de chegar ao quarto capítulo, o conceito de Robert K. Merton de “profecia autorrealizável” esclarece que “as definições coletivas de uma situação (profecia e previsões) fazem parte da situação e, assim, afetam seus desenvolvimentos futuros”. É a ponte para se entender como a distinção e difusão vertical dos gostos. estudada a partir de Bourdieu. Relações de poder entram no jogo, pois definições do que é valorizado, novo ou cool são disseminadas pela rede de influências, olhar e metáfora tão frequentes e persuasivas nas mídias digitais. Para Erner,

“Segundo a sociologia das redes, nossas influências não vêm de uma categoria de indivíduos, dotados de uma competência no assunto, mas da rede de sociabilidade à qual cada um pertence”

Para tanto, discorre um pouco sobre teoria de redes a partir de Stanley Milgram, Mark Granovetter e Erdos.

Por fim, o quinto capítulo chega a um momento no qual o estudo, análise e criação de tendências já se tornou um mercado em si mesmo. Cita empresas como a WSGN que se dedicam a analisar profissionalmente tendências, com o apoio de colaboradores observando inovações, materiais, coleções e tecnologias em todo o mundo.

as-coisas-georges-perecAo final do livro, Erner destaca que “para uma boa compreensão das tendências, é indispensável a leitrua de As Coisas, de Georges Perec, livro escrito por um sociólogo que se tornou romancista”. Boa surpresa para minhas últimas leituras deste ano, que percorreram a obra de Perec antes de chegar ao Erner. Em As Coisas, lançado em 1965, o autor apresenta um romance sutilmente sociológico sobre um casal, Jérôme e Sylvie, que larga a faculdade para trabalhar no que ele chama de “psicossociólogos”. Os protagonistas são pesquisadores de mercado para agências de publicidade, sobretudo de entrevistas em profundidade, um segmento que despontava na França da década de 1960. Ao longo do livro sem diálogos, Perec descreve a busca do casal por sentido, sobretudo no consumo e a tentativa de refinamento ou busca por tendências – seja numa mesinha de canto, na manifestação política ou na moradia em outro país.

A escolha da profissão de ambos não é detalhe na obra. Buscando sentido através das coisas, também fazem dinheiro tentando entender como as coisas são vistas e criadas. Em um trecho particularmente inspirado, Perec lista as questões de pesquisa que enfrentam:

E, durante quatro anos, talvez mais, exploraram, entrevistaram, analisaram. Por que os aspiradores tipo trenó se vendem tão mal? O que pensam, nos meios de extração mais modesta, da bebida preparada com chicória? Gosta do purê já preparado, e por quê?” Porque é leve? Porque é untuoso? Por que é fácil de fazer: um gesto e pronto? Acha que os carrinhos de bebê são realmente caros? Não está sempre disposto a fazer um sacrifício pelo conforto das crianças? Como votará a mulher francesa? Gosta de queijo em tubo? É a favor ou contra os transportes coletivos? Em que presta atenção primeiro quando come um iogurte: na cor? Na consistência? No gosto? No aroma natural? Lê muito, pouco, ou nada? Vai a restaurante? A senhora gostaria de alugar um quadro da sua casa a um negro? O que pensa a juventude? O que pensam os executivos? O que pensa a mulher de trinta anos? O que você pensa das férias? Onde passa suas férias? Gosta dos pratos congelados? Quanto imagina que custa um isqueiro como este? […]

E houve o sabão em pó, a roupa que seca, a roupa que é passada. O gás, a eletricidade, o telefone. As crianças. As roupas e as roupas de baixo. A mostarda. As sopas em pacote, as sopas em lata. Os cabelos: como lavá-los, como pintá-los, como mantê-los, como fazê-los brilhar. Os estudantes, as unhas, os xaropes para a tosse, as máquinas de escrever, os adubos, os tratores, as diversões, os presentes, a papelaria, a linha branca, a política, as autoestradas, as bebidas alcoólicas, as águas minerais, os queijos e as conservas, as lâmpadas e as cortinas, os seguros, a jardinagem.

Nada do que era humano lhe foi alheio” (PEREC ,2012, p.26-27).

Para os prováveis leitores deste blog – profissionais da “nova” área das mídias sociais, sobretudo das que envolvem monitoramento de mídias sociais -, as similaridades são gritantes. Além da profissão focada em suposta inovação e descoberta dos desejos dos consumidores, a relação com o mercado tradicional de agências publicitárias também está ali. Enquanto sentem-se livres e buscam a liberdade através de seu estilo de vida longe das “amarras” do emprego formal em um momento, noutro percebem que a transição generacional os levará a cargos burocráticos – ou a pobreza. Em um período no qual vemos os negócios que se vendiam como disruptivos sucumbirem a aquisições, fusões ou perda de mercado para players calcados em capital especulativo, difícil não traçar paralelos.

Howard Becker (autor do indispensável Outsiders) dedica um artigo aos experimentos de Perec em descrição social. Ao tratar de As Coisas, Becker interpreta “descrição da sociedade sendo dominada pelo consumo material, uma sociedade na qual, mais exatamente, coisas passaram a dar forma às vidas das pessoas de um modo e grau nunca visto antes” (2001, p.75).  É uma narrativa que, ao focar no cotidiano e no ordinário, transcende o material. Em outro trecho, deixa mais explícita a interpretação do livro como dispositivo etnográfico:

As Coisas faz uso de outro dispositivo literário/etnográfico: a lista detalhada de objetos e pessoas, especialmente objetos. Uma lista sem análise explícita ou formal de seus conteúdos é um potente recurso representacional, usado mais por artistas do que cientistas sociais”. (BECKER, 2001, p.66)

Em outro trabalho, “Tentativa de esgotamento de um local parisiense”, Perec anotou tudo o que viu durante três dias em uma praça parisiense chamada Saint-Sulpice. A vibração do fluxo de pessoas, carros, animais, objetos ou mesmo elementos atmosféricos é descrita ora de forma aparentemente desencontrada, ora de forma que dá luz a classes de coisas:

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Café de La Mairie – https://calledelorco.com/2012/02/26/enumeracion-por-georges-perec-iv/

“várias dezenas, várias centenas de ações simultâneas, de microacontecimentos, cada um dos quais implicando posturas, atos motores, dispêndio de energia específicos:

discussões de dois, discussões de tres, discussões de vários: o movimento dos lábios, os gestos as mímicas expressivas

modos de locomoção: caminhando, em veículos de duas rodas (sem motor, a motor), automóveis (carros particulares, carros empresariais, carros de aluguel, autoescolas), veículos utilitários, do serviço público, transporte comunitário, ônibus de turismo

maneiras de carregar (na mão, embaixo do braço, às costas)

modos de traço (carrinho de compras)

graus de determinação ou de motivação: esperar, passear, arrastas, errar, ir, correr para, precipitar-se (em direção a um táxi livre, por exemplo), procurar, zanzar, hesitar, caminhas com passo decidido

posições do corpo: sentado (nos ônibus, nos carros, nos cafés, nos bancos)

de pé (nas paradas de ônibus, diante de uma vitrina (Laffont, casa funerária), ao lado de um táxi (pagando)

A enumeração não é apenas de coisas, mas de concentração de tipos e classes de objetos e comportamentos. Os itens são agrupados em modos, maneiras e graus que dão visibilidade a um aspecto (motor, cinético ou ‘energético’) que não prestamos atenção no dia a dia.

Foto de Georges Perec. Por trás de um grande pensador há sempre um cabelo bacana e um gato.

Foto de Georges Perec. Por trás de um grande pensador há sempre um cabelo bacana e um gato.

A relevância desta postura analítica para os adeptos dos métodos digitais e monitoramento de mídias sociais já deve ter ficado clara neste ponto. A convergência entre a descrição exaustiva e minuciosa de ambientes, fenômenos e acontecimentos sociais – e sua aplicação na percepção de tendências – se aproxima das possibilidades engendradas pela abundância de dados sociais digitais. No projeto The Exceptional and the Everyday: 144 Hours in Kiev, Manovich, Alise Tifentale, Mehrdad Yazdani e Jay Chow. Entre 17 e 22 de fevereiro,  os autores coletaram 13.208 imagens geolocalizadas no Instagram em uma área central de Kiev, durante a Revolução Ucraniana. Como resultado, as diversas análises foram publicadas em website e paper, permitindo discutir aspectos como a possibilidade (e particularidades) do discurso político no Instagram, evocação de estilos imagéticos e performáticos de mobilização e sua iconografia.

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Os autores citam o trabalho de Georges Perec em Tentativa de esgotamento de um local parisiense ao comparar seu  ponto de vista ao do escrito. Se o olhar de Perec era delimitado pelo retângulo da janela do café onde ele sentou-se naqueles três dias, o dos autores, ampliado pelas metodologias das humanidades digitais, pode fazer diferente, indo além em muitos pontos.

“uma vez que substituímos um único ponto de vista humano pelo da mídia social, pudemos esticar nosso enquadramento, para capturar uma área muito maior. Isto nos permitiu observar tanto o infra-ordinário quanto o extraordinário, e reconstruir alguns modos pelos quais interagem” (MANOVICH et al, 2014, p.84)

O trabalho nos lembra novamente que o registro da história sendo feita pode ser realizado de diferentes formas e, sobretudo, descrito de modos inovadores. A conjunção de coleta e processamento de dados com a capacidade (e energia) descritiva são aliados da análise da realidade social. A percepção de tendências e comportamentos, que se modificam e remixam cada vez mais rapidamente, hoje passa por aquela combinação.

 

Referências Bibliográficas

BECKER, Howard. Georges Perec’s Experiments in Social Description. Ethnography, vol 2, n.1, 2001.  http://eth.sagepub.com/content/2/1/63.abstract

ERNER, Guillaume. Sociologia das Tendências. São Paulo: Editora Gustavo Gili, 2015.

MANOVICH, Lev; TIFENTALE, Alise; YAZDANI, Mehrdad; CHOW, Jay.“The Exceptional and the Everyday: 144 Hours in Kyiv” The 2nd Workshop on Big Humanities Data held in conjunction with IEEE Big Data 2014 Conference. (Paper in PDF format.)

PEREC, Georges. As Coisas. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

PEREC, Georges. Tentativa de esgotamento de um local parisiense. São Paulo: Editorial Gustavo Gili, 2016 [1975].

 

A pesquisa de campo experimental Perecquiana

Em Georges Perec’s experimental fieldwork; Perecquian fieldwork, publicado em dezembro de 2016 na revista Social & Cultural Geography, o pesquisador Richard Phillips da University of Sheffield aborda a pesquisa de campo experimental a partir das propostas do escritor Georges Perec. Para Phillips, “Perec antecipa e informa temas chave em pesquisa de campo contemporânea – uso do lúdico, atenção ao ordinário e escrita como prática de pesquisa – e a abordagem ensaística que apoia cada uma destas”.

O autor cita diversos modos experimentais de pesquisa nos quais se propõem aos leitores realizar trabalhos de campo, como How to be an Explorer of the world e The lonely planet guide to experimental travel; e trabalhos relacionados a geografia com proposições de observação urbana relacionados a modos de selecionar e agrupar atividades, objetos e lugares.

Propõe que as abordagens mais sistemáticas são fruto das perspectivas que se baseiam no Situacionismo e, portanto, vai comparar a perspectiva situacionista com a abordagem de Perec, defendendo que a aplicação mais estruturada de leituras do autor pode ser ainda mais útil. Phillips defende no artigo que o trabalho de Perec, apesar do próprio tratar de alguns de seus livros como “sociológicos” seria eminentemente geográficos. Na França dos anos 60 e 70, evidentemente, a sociologia estava mais em voga, daí a aproximação mais clara. Porém, tanto o Tentativa de Esgotamento de um Local Parisiense como o próprio Species of Spaces além de conceitualmente estar mais próximos da geografia, também trazem a questão do espaço no título.

Phillips sugere que Perec antecipou três tendências no trabalho de campo experimental: o lúdico; a exploração de locais ordinários; e a escrita como prática de campo.

Quanto ao trabalho de campo lúdico, em contraposição ao trabalho de campo ortodoxo e mecanicista, a aproximação ao lúdico e ao jogo trouxeram frescor à exploração urbana. Apesar das regras e restrições impostas pela literatura experimental de Perec, sobretudo relacionadas aos projetos como OuLiPo, eram regras e restrições fluídas. Estão presentes o uso criativo de listas, índices, referências acadêmicas fictícias e propostas implícitas de replicação de experimentos.

Sobre a exploração de locais ordinários, livros como o Tentativa se destacam do ponto de vista da observação e descrição de um cotidiano ordinário, mas o próprio livro Vida: Modo de Usar também aplica, para produzir ficção, recursos similares. Ao descrever cada ambiente de um prédio, assim como suas histórias, em um quebra-cabeça narrativo, Perec aproxima o projeto do narrador a ideia de levantamento ou censo, incluindo desta vez as relações entre as unidades habitacionais. Os exercícios de descrição do ordinário pro’curam gerar reencantamento do já conhecido, de modo similar à proposta de Merleau-Ponty citada pelo autor ‘the act of describing the world undoes its familiarity to produce wonderment”

E ver a escrita como prática de pesquisa de campo, para Perec, passa por pensar minuciosamente e criativamente como a própria documentação e escrita será realizada. As notas de pesquisa e descrições – sejam narrativas, ensaísticas ou ‘densas – podem ser pensadas como “flat” (em “writing flatly”), que seria descrever o observado sem adicionar julgamento, camadas simbólicas ou evocações sociais, teóricas ou históricas. Entretanto, esta tentativa é aprioristicamente fadada ao fracasso parcial, pois uma escrita totalmente “factual, simple, descritive, unvarnished, empirical” é impossível de ser alcançada. A tentativa, porém, é um exercício de exploração da pesquisa. O autor propõe que

writing is fundamental to another feldwork practice: the identifcation of individual observations with classes of things and actions through categories and classes, categorisation and classifcation. Perec used lists and inventories to explore the taxonomies that are commonly deployed in the experience and interpretation of the everyday

Na conclusão o autor revisita o impacto de Georges Perec em métodos etnográficos, observação de massa e técnicas de pesquisa de mercado. A tradição “perecquiana” de pesquisa, impulsionada pelo resgate e reapropriação de suas obras, poderá nos levar para prosseguirmos experimentalmente, tentativamente, ensaisticamente.

 

Referências

PHILLIPS, Richard. Georges Perec’s experimental fieldwork; Perecquian fieldwork. Social & Cultural Geography, p. 1-21, 2016.

PEREC, Georges. A vida modo de usar. Editora Companhia das Letras, 1989.

PEREC, Georges. Tentativa de Esgotamento de um Local Parisiense. São Paulo: Editorial Gustavo Gili, 2016.

SMITH, Keri. How to be an explorer of the world: portable life museum. Penguin, 2008.

Curso de Etnografia em Mídias Sociais – nova edição começa neste sábado 20 de maio

Começa neste sábado dia 20 de maio nova edição do curso de Etnografia em Mídias Sociais do IBPAD em São Paulo. Com minha curadoria, o curso da prof. Débora Zanini inclui 21 horas de conteúdo e atividades. Apresenta o estado da arte sobre a aplicação de técnicas etnográficas ao estudo do comportamento online nas mídias sociais, ferramentas e cases. Nesta edição, os inscritos receberão o livro Monitoramento e Pesquisa em Mídias Sociais, que conta com capítulo da professora. Saiba mais:

Thickening no monitoramento e etnografia em mídias sociais

[Publiquei originalmente no blog do IBPAD – confira lá este e outros textos meus e dos demais professores]

Iniciando a série de postagens sobre capítulos do livro Handbook of Social Media Research Methods, vamos falar de um dos textos dedicados à pesquisa qualitativa que usa, deliberadamente, o termo small data em seu título. Merece ser o primeiro também para chamar atenção para os procedimentos metodológicos necessários em qualquer pesquisa e monitoramento de mídias sociais – que muitas vezes são esquecidos por ansiosos que perseguem os novos termos da onda.

Small Data, Thick Data: Thickening Strategies for Trace-based Social Media Research foi escrito por Guillaume Latzko-Toth, Claudine Bonneau e Mélaine Millette, pesquisadores da Université Laval e Université du Québec à Montréal – ambas do Canadá. O objetivo do capítulo é ir além da infrutífera cisão entre quanti-quali ou big-small data, buscando reduzir o “fôlego” dos dados (breadth) em prol de sua profundidade – ou thickening – engrossamento.

Os autores explicam que o termo se assimila a ideias de thick data do Geertz (1973) ou rich data do Becker (1970). O conceito de thickening usado no capítulo vem de Tricia Wang

“Thick data é o oposto de ‘Big Data’; é a cola pegajosa que é difícil de quantificar – emoções, estórias, visões de mundo – o que se perde no processo de normalização, padronização, definição e clustering que torna os datasets massivos analisáveis por computadores” (WANG, 2016: online)

Assim, a ideia de thick data se aproxima das ideias de etnografia online e netnografia (Hine, 2015; Kozinets, 2010). Ao definir small data, os autores enfatizam a ideia de manejabilidade (manageability): uma quantidade de pontos de dados que é pequena demais para ser representativa no sentido estatístico e pequena o suficiente para ser gerenciada por um time pequeno de analistas humanos. A rigor, trata-se da grande maioria dos casos de estudos de dados em mídias sociais em empresas e agências.

Tabela por Tricia Wang

São três camadas essenciais para o engrossamento dos dados: uma camada de informação contextual, que dá conta das affordances técnicas e convenções culturais que dão forma às práticas online; uma camada de “descrições grossas” sobre as práticas sendo estudas, os produtos sociais a partir das perspectivas dos vários atores envolvidos; e uma camada de entendimento dos significados das experiências sendo estudadas – incluindo a interpretação dos próprios envolvidos.

A partir desse entendimento, os autores propõem três tipos de estratégias de data thickening: entrevista baseada em rastros e traços nas mídias sociais; coleta manual de dados; e observação ágil de longa duração.

 

Entrevista baseada em rastros e traços nas mídias sociais – Trace Interview

Aqui a ideia é convidar os participantes/sujeitos de pesquisa a refletir sobre seus próprios dados nas mídias sociais. Usando aplicativos de análise de informação social disponíveis largamente como Twitonomy, Tweetstats, Sociograph, Digital Footprints ou outros, o entrevistado pode se confrontar com seus próprios padrões de interação ou dados resgatados para refletir e falar sobre suas práticas online.

A utilização de sociogramas simples – criados de forma mista analógica e digital é um recurso comum, como mostrou Elizabeth Dubois em seu metodologia, citada pelos autores:

Coleta Manual de Dados

Demonizar a coleta manual de dados fez com que muitos pesquisadores e analistas confiassem demais na coleta baseada em palavras-chave, deixando de lado o potencial de se estudar elementos para além do texto, por exemplo. Escolha de imagem de avatares e “capas” e a posterir análise de seus elementos, muito úteis para a construção de personas – é um exemplo de coleta manual relevante.

Mesmo em termos de publicações – tweets, postagens, comentários – , a coleta manual a partir da navegação do pesquisador, usando de conceitos de bricolagem e serendipidade, pode expandir o horizonte e quebrar com os limites consciente e inconscientemente impostos pelo escopo do analista.

 

Observação ágil de longa duração – Agile long-term online observation

Por fim, com o conceito de observação ágil de longa duração, os autores vão tratar da necessidade de seguir os sujeitos de pesquisa através de diversas comunidades e plataformas. A agilidade é essencial para transformar a observação contínua dos fenômenos e interações sociais em novos escopos de pesquisa, configuração de ferramenta e registros de dados. As menções a eventos exógenos, conteúdos e memes em outras plataformas são pistas para o pesquisador encontrar novas referências e caminhos a percorrer para o entendimento das comunidades sendo estudadas.

A seção seguinte do capítulo traz estudos de caso de cada uma das estratégias citadas acima. Para as entrevistas baseadas em traços, os pesquisadores relatam como os participantes descreveram as pessoas e relacionamentos em suas timelines – com várias informações que não seriam descobertas por um pesquisador isolado daquele contexto social. Para a segunda estratégia, os autores falam sobre pesquisa em torno do fenômeno Working Out Loud (relatos do cotidiano de trabalho através de tweets). O monitoramento de palavras-chave foi o passo inicial para, em seguida, a coleta manual permitir registrar o contexto de publicação de cada tweet, para cada usuário. Finalmente, um estudo sobre a comunidade francófila do Canadá foi objeto do terceiro relato de caso, resgatando o mapeamento realizado pelos pesquisadores através da metodologia de observação ágil de longa duração.

Os autores concluem o capítulo sublinhando três características das metodologias e casos estudados: contextualidade, temporalidade e flexibilidade. O entusiasmo com os métodos digitais de pesquisa não podem se restringir a suas capacidades de automatização, aplicação de algoritmos e procedimentos padronizados. Aquelas características da thick data só poderão ser alcançadas com olhares qualitativos de pesquisadores imersos em seus objetos de pesquisa.

 

Referências 

Becker, H. S. (1970) Sociological Work: Method and Substance. New Brunswick, NJ: Transaction Books

Dubois, E. and Ford, H. (2015) ‘Trace interviews: An actor-centered approach’, International Journal of Communication, 9(25): 2067–2091.

Geertz, C. (1973) Interpretation of Cultures: Selected essays. New York: Basic Books.

Hine, C. (2015) Ethnography for the Internet: Embedded, Embodied and Everyday. London: Bloomsbury Publishing.

Kozinets, R.V. (2010) Netnography: Doing Ethnographic Research Online. London: Sage.

Latzko-Toth, G., Bonneau, C. et Millette, M. (2017). Small data, thick data : thickening strategies in trace-based social media research. In: A. Quan-Haase et L. Sloan (dir.). The SAGE handbook of social media research methods (p. 199–214). Thousand Oaks, CA : Sage Publications.

Wang, T. (2016, January 20) ‘Why Big Data Needs Thick Data’, Ethnography Matters (Medium channel) (https://medium.com/ethnography-matters/why-big-data-needs-thick-data-b4b3e75e3d7#.y9plmare1)

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