Evocando Cartões Postais no Instagram: estudo automatizado de imagens

Escrito em parceria com a orientanda de especialização Mariana Zanotti, aprovei artigo Evocando Cartões Postais no Instagram: estudo automatizado de imagens no Congresso Nacional da Intercom deste ano, que acontecerá em Joinville. O artigo faz parte de uma série de experimentos sobre a aplicação de computação visual ao estudo da comunicação e cultura, que estamos desenvolvendo no IBPAD e já teve estudos sobre marketing turístico, estudo de influenciadores, construção de imagem política entre outros.

Resumo: Os cartões postais são materiais mistificados desde a sua gênese no final do século XX. Entre sinais de crise e ressignificação, mantêm-se como objeto cultural reconhecível por indivíduos de todo o mundo, a despeito de serem efetivamente usuários ou não do formato. Com a popularização de sites de redes sociais e aplicativos voltados a publicação cotidiana de fotografias, como o Instagram, usuários evocam estilos de formatos consagrados. O artigo apresenta experimento de análise e visualização apoiada por computação visual de 14 mil publicações com a hashtag #postcard. Como resultado da aplicação de algoritmos de modularidade, identificou 7 agrupamentos de entidades visuais presentes nas fotografias, através das quais os usuários se apropriam do conhecimento tácito dos públicos sobre o formato para gerar conteúdos de construção estratégica de seus perfis pessoais para suas audiências.

A imagem abaixo representa a rede de imagens gerada durante a análise e descrita no trabalho. Além do artigo, compartilhamos também os datasets principais.

 

Saiba mais sobre o evento em http://www.portalintercom.org.br/eventos1/congresso-nacional/2018  e acesse o artigo diretamente no ResearchGate

Formas Contemporâneas de Racismo e Intolerância nas Redes Sociais

O documento Formas Contemporâneas de Racismo e Intolerância nas Redes Sociais foi publicado pelo Dr. Luiz Valério P. Trindade, como um dos resultados de seu doutorado na University of Southampton (Reino Unido). O documento traz informações sobre o racismo nas mídias sociais e recomendações de políticas públicas direcionadas a juventude, autoridades governamentais, legisladores e as próprias empresas de mídias sociais.

Merece destaque o mapeamento de quais os “gatillhos” para movimentos articulados de ódio racista. Os itens impressionam pela crueldade:
a. expressar discordância com algum post ou comentário anterior de cunho negativo contra Negros;
b. evidência de engajamento com profissões consideradas mais ‘nobres’ e de prestígio (por exemplo: medicina, jornalismo, direito, engenharia, etc.);
c. relacionamento interacial;
d. exercer posição de liderança ou bem-sucedida em programa de televisão ou até mesmo como convidada de honra;
e. desfrutar de viagens de férias no exterior (sobretudo em países localizados no Hemisfério Norte);
f. utilizar e/ou enaltecer a adoção de cabelo cacheado natural estilo Afro;
g. vencer concurso de beleza; e
h. rejeitar proposta de relacionamento afetivo.
Trindade também fala, entre outros itens, do Efeito Eco Infinito, no qual posts antigos, de até mais de 03 anos, continuam a reverberar por negligência das plataformas.
Saiba mais sobre o trabalho de Trindade em https://soton.academia.edu/LuizValerioTrindade

Por que empresas de mídia insistem que não são empresas de mídia, por que estão erradas e por que isso importa?

Mais um caso de racismo em plataformas de mídias sociais. Desta vez, o criador de “conteúdo” ou “influenciador” Cocielo, que já trabalhou pra marcas como Coca Cola, Asus, Submarino e outras publicou um tweet racista contra o jogador Mbappé e deletou em seguida, preocupado com os impactos comerciais que teriam. Quando o print do tweet começou a circular, tanto o youtuber quanto amigos e fãs argumentaram que “quem conhecece o Cocielo sabe que ele não é assim” e variantes. Foi o estopim para mostrar que sempre foi assim, na verdade: publicações racistas, misóginas, homofóbias, transfóbicas e violências de todo o tipo foram descobertas por outros tuiteiros e a reincidência em crimes de ódio ficou mais que evidente.

O absurdo de marcas e agências contratarem gente como o Cocielo, permitindo que suas vozes sejam replicadas e fortalecidas (uma vez que os remuneram aumentando seu público) foi coberto por várias analistas, como  Stephanie Ribeiro que comentou que “marcas patrocinam qualquer um, menos os negros com discurso engajado“. Em reportagem no Alma Preta, Thalyta Martins cita fala da historiadora Suzane Martins sobre as “desculpas” do YouTube – “Isso seria trabalhar a política racial em um âmbito individual mediado por conceitos como ‘culpa’ ou ‘perdão’, que dizem mais sobre uma visão cristã e maniqueísta do mundo do que sobre política e projeto de sociedade”. Anderson França em postagem relembra que “eleger pessoas negras engajadas nessa pauta, mudar leis, agir, de cima pra baixo, na educação, no judiciário, nas polícias, nas estruturas fundamentais do estado e da sociedade, para que possamos evitar os novos atos de racismo e mais: eliminar a cultura do racismo.”

Mas este caso está longe de ser novo. Como ocorreu em vários momentos nos últimos anos, criadores de conteúdo, atores e apresentadores de TV cometem repetidamente crimes de ódio nas mídias sociais. Então este caso é um ótimo momento para refletir: por que as plataformas de mídias sociais protegem criminosos? E por que não estamos falando disto?

Plataformas como Twitter, YouTube e Facebook devem ser vistas como mídia, não só como tecnologia. Algoritmos, recursos como Moments, termos de uso e aplicação restrita ou alargada dos Termos de Uso (como encobrir e até remunerar racistas com recursos como Conta Verificada) são, efetivamente, decisões editoriais. Elas não possuem o formato de decisão editorial como em jornais tradicionais, mas o são. E precisamos falar sobre isso.

Um ótimo ponto de partida é o artigo Por que empresas de mídia insistem que não são empresas de mídia, por que estão erradas e por que isso importa?, escrito por Philip Napoli e Robyn Caplan e publicado ano passado na First Monday. Acabou de ser publicado em versão em português, com tradução feita por mim e Willian Araújo na revista Parágrafo. Esta edição da revista Parágrafo inclui um dossiê completo sobre mediações algorítmicas, editado por Willian Araújo e Carlos D’Andrea, com artigos, traduções e entrevista.

No caso do artigo em questão de Napoli e Caplan, resumo pode ser visto a seguir:

Uma posição comum entre plataformas de mídia social e agregadores de conteúdo é sua resistência em ser caracterizados como empresas de mídia. Ao contrário, empresas como Google, Facebook e Twitter tem constantemente insistido que deveriam ser pensadas como puramente empresas de tecnologia. Este artigo critica a opinião que estas plataformas são empresas de tecnologias ao invés de empresas de mídia, explora seus argumentos subjacentes e considera as implicações políticas, legais e regulatórias associadas com o aceite ou recusa desta opinião. Como o artigo ilustra, não é apenas uma distinção semântica, dado que o histórico de classificação precisa de tecnologias e serviços da comunicação possui profundas implicações em como estas tecnologias e serviços da comunicação são avaliadas por decisores políticos e tribunais.

Os autores cobrem os vários argumentos usados por estas plataformas para se posicionarem no campo da “tecnologia”, contra-argumenta mostrando suas fragilidades e, por fim, apresentam a importância desta crítica e os papéis que a academia e sociedade civil podem exercer para uma internet mais justa.

Acesse o artigo diretamente e confira todo o dossiê em http://revistaseletronicas.fiamfaam.br/index.php/recicofi/issue/view/59/showToc

 

Pensando Raça a partir da Teoria da Informação: a diferença que faz diferença

Praticamente qualquer aluno meu já me viu citar a frase “informação é a diferença que faz diferença”. Atribuída ao matemático Gregory Bateson, é um ótimo modo de debater a distinção entre dados e informação antes de chegar aos conceitos da pirâmide DIKW (Data, Information, Knowledge e Wisdom). O que Bateson quis dizer é que informação é uma observação que faz diferença para algum “objetivo” ou em termos de “efeitos” possíveis. Em sala de aula, uso o exemplo das cores das camisas e número de notebooks. As cores das roupas dos alunos podem compor uma “diferença” observável. Posso contar a distribuição das cores. O mesmo acontece com o número de notebooks. Mas, enquanto professor, somente esta segunda diferença “faz diferença” para meus objetivos: a partir do número de notebooks em sala posso planejar melhor as atividades práticas. As cores das roupas não são informação relevante pra mim. Por outro lado, podem se tornar informação em algum exemplo sobre análise cultural e moda (ex: anti-esquerdismo diminuiu o uso de vermelho? cariocas usam mais cores que paulistas?).

É a partir desta famosa frase do Gregory Bateson que o pesquisador Syed Mustafa Ali (Open University) inicia o artigo Race: The Difference that Makes a Difference publicado na tripleC em 2012. O autor busca entender as interseções das disciplinas da Teoria Racial Crítica e da Teoria Crítica da Informação e como elas tem abordado a questão.

Quanto às múltiplas áreas da Teoria da Informação, o autor resgata diferentes abordagens, sobretudo as colaborações do filósofo Luciano Floridi em torno da filosofia da informação, que se debruça sobre tópicos, métodos e teorias do campo para estudar suas definições e colaborações. Mais recentemente, a perspectiva das ciências sociais como o trabalho de Scott Lash e Christian Fuchs (autor também de Social Media: A Critical Introduction) trazem panoramas críticos de classe, gênero e raça mas, segundo Ali, priorizando a primeira a partir de frameworks neo-Marxistas.

A colaboração da Teoria Racial Crítica, então, é essencial para a questão de pesquisa proposta. Depois de citar a crescente re-leitura informada por discurso crítico sobre raça de filósofos pós-Iluminismo a partir do trabalho de Emmanuel Chukwudi Eze nos últimos 20 anos, Ali chega à conclusão de que a perspectiva informacional não tem sido realizada. Quando é realizada, tende a ser de um olhar mais sociológico do que filosófico, em itens como: a) exclusão digital; b) representação e relações de poder em ambientes online; c) o uso de tecnologias digitais para agendas de supremacistas brancos; e d) contribuições africanas e afro-americanas à teoria dos sistemas e cibernética.

 

Mas qual a colaboração que Teoria dos Sistemas e Teoria da Informação podem trazer ao entendimento sobre raça, racismo e processos de racialização?

A proposta que se aproxima do que o Mustafa Ali procura seria, para o autor, a formulação de racismo oferecida por Fuller Jr.:

“Um sistema de pensamento, discurso e ação operado por pessoas que se classificam como “brancas” e que usam engano, violência e/ou ameaça de violência para subjugar, usar e/ou abusar de pessoas classificadas como “não-brancas” sob condições que promovam a falsidade, injustiça e incorrigibilidade em uma ou mais áreas de atividade, para o fim último de manter, expandir e/ou refinar a prática da supremacia branca (racismo)” (1984, 301)

Na visão de Fuller Jr. racismo equivale a supremacia branca e é um sistema global composto de 9 áreas principais de atividades ou sub-sistemas: economia, educação, entretenimento, trabalho, lei, política, religião, sexo e guerra. Para Ali, a colaboração de Fuller Jr. é uma formulação que é orientada para raça de forma radicalmente alternativa a outros pensadores críticos como Giddens, Bourdieu e Habermas.

Em seguida, as definições de Teoria Racial Crítica e Teoria Crítica da Informação são vinculadas para propor uma abordagem hermenêutica reflexiva sobre raça e informação. Quanto ao termo informação, polissêmico, Ali referencia von Bayer para explicar que informação pode ser vista de forma dual tanto como inform-ação quanto in-formação. No primeiro sentido, se refere à transmissão de significados e no segundo se refere à transmissão de forma, que pode ser configuração, ordem, organização, padrão, estrutura ou relacionamento. Neste sentido, a circulação de alguns padrões de pensamento no mundo pode ser vista como informação, tal como a ideia de hierarquia racial, discriminação e dominação associadas à diferença racial.

Assim, é possível ver raça como sistema e como processo. Como sistema, Ali cita Charles Mills para afirmar que racismo pode e de fato existe em potência puramente estrutural, isto é, em termos de relações de poder incorporadas diferencialmente que não são sempre explicitamente intenacionais então não são dependentes de consciência para a continuidade de sua existência. Assim, a ideia de “contrato racial” proposta por Mills pode ser vista como:

that set of formal or in-formal agreements or meta-agreements (higher-level contracts about contracts, which set the limits of the contract’s validity) between the members of one subset of humans, henceforth designated by (shifting) “racial” (phenotypical/genealogical/cultural) criteria C1, C2, C3… as “white”, and coexten-sive (making due allowance for gender differentiation) with the class of full persons, to categorise the remaining subset of humans as “nonwhite” and of a different and inferior moral status

Barnor Hesse é a referência citada a seguir para falar de raça como processo. Para Ali,  mais do que estar correlacionado com a presença (ou ausência) de marcadores materiais no corpo,

“racialization [is] embodied in a series of onto-colonial taxonomies of land, climate, history, bodies, customs, language, all of which became sedimented metonymically, metaphorically, and normatively, as the assembled attributions of race”

Deste modo, a perspectiva consegue dar conta dos processos pelos quais racialização acontece nas interseções com contextos e projetos político-econômicos de poder em cada período, como o acirramento do ódio contra islâmicos nos EUA nos últimos 30 anos. Por fim, o artigo enfatiza a importância dessa aproximação entre as áreas da ciência da informação e da teoria racial crítica para abordar os processos de resgate de argumentos e ideais biológicos do conceito de raça graças a biometria, barateamento de testes genéticos e afins.

Para saber mais sobre o trabalho do Syed Musfata Ali, acompanhe suas páginas na Open UniversityResearchGate  ou confira a palestra abaixo:

Fake News. Velha prática, nome nome: o papel das mídias sociais

“Fake News” foi eleita a palavra do ano em 2016 pelo Dicionário Macquarie e em 2017 pela “Sociedade Americana do Dialeto” (The American Dislect Society”). A abundância informacional e aparente aceleração de mudanças comportamentais tem gerado novos termos tais como fake news, pós-verdade, selfie e afins. Na maioria dos casos estes novos termos trazem uma nova popularidade a práticas que já existiam como literalmente notícias falsas ou as barrigadas no jornalismo.

Eu, particularmente, não gosto de neologismos. Fake News sempre existiram seja por incompetência jornalística seja por projetos organizados. Há casos emblemáticos que se tornaram livros e são estudados e ensinados por nós em faculdades e disciplinas de análise do discurso. O impacto de notícias falsas sempre foi relevante pois a cobertura incompetente ou má intencionada costuma ser em manchetes  e destaques, enquanto as correções e erratas são notas de rodapé. Porém, historicamente, sabemos que alguns grupos sociais, como a esquerda ou minorias políticas e identitárias são alvos mais frequentes de fake news.

Mas será que as pessoas acreditam em fake News? Em levantamento recente realizado pelo INCT, brasileiros foram consultados sobre “fake News”. Será que os brasileiros acham que acreditam em fake News? Quase 70% acredita que não caem em fake news.

Além disto, a desconfiança depende do emissor e veículo. Os brasileiros confiam em notícias compartilhadas por amigos e familiares, o que sua viza a desconfiança com plataformas de redes sociais. Se é um amigo ou familiar compartilhando na própria mídia social, esta desconfiança diminui. Então fake news é um conceito performativo. A perseguição contra as chamadas “fake news” pode ajudar a criar ou intensificar novas relações de poder que podem, não paradoxalmente, ter malefícios na circulação de informações, sobretudo políticas.

Nos EUA podemos ver partidários do Trump chamando toda e qualquer notícia crítica ao político como “fake news”? Quem define o que é verdade e quem define o que é falso? No Brasil, o grupo que mais declara receber fake news, na pesquisa do INCT Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação, são os auto-declarados no extremo ideológico da direita.

 

Então trata-se de batalhas discursivas que tem a ver com poder. E queria trazer aqui uma definição de poder a partir do Latour. Ao falar das redes, o sociólogo usou a ideia de “ponto obrigatório de passagem”. Nos desenhos das redes e seus fluxos, poder é tornar-se na rede um ponto, um nó no qual todos precisam passar para agir. Monopólio sobre um tipo de força – hoje, trata-se da audiência, do tempo das pessoas.

De fato, estamos falando do poder de controlar boa parte da audiência, mídia e rastros de atividades humanas. Mas, para além disso, empresas como Facebook tem investido em outras áreas como tecnologias materiais, drones, satélites, realidade aumentada e infraestrutura de acesso. E as forças das interfaces entre tecnologia e comunicação estão concentradas sobretudo no chamado GAFA = sigla para dar conta de Google, Apple, Facebook e Amazon. Juntas, tem valor de mercado superior ao nosso PIB. Mas este poder é produzido sobretudo pela análise e aplicação da ciência.

A interpretação da realidade social mudou de locus. Os grandes levantamentos de dados sociais e demográficos nas últimas décadas são frutos de instituições do estado e universidades. O Censo, na maioria dos países, é o exemplo mais claro. Levanta dados de milhões de domicílios, mas a cada 5 ou 10 anos. Entretanto, velhas e novas corporações são cada vez mais intensamente calcadas em levantamento e cruzamento de bases de dados sobre seus clientes e usuários. Hoje, em certa medida, empresas como Facebook, Google, Amazon, Twitter, Uber e afins podem realizar alguns tipos de análises que deixam universidades de ponta a ver navios. Publicamos no blog do IBPAD uma lista de 10 coisas impressionantes que somente o Facebook consegue estudar sobre a sociedade.

Mas esta abundância de dados festejada por muitos como um novo momento da sociedade ou mesmo de ciências, como ideias de “viradas computacionais” escondem um aprofundamento do gap entre o que a sociedade civil, universidades ou mesmo estados conseguem fazer em relação a grandes corporações como Facebook e Google.

Assim como temos opacidade nos algoritmos que regem as plataformas digitais, também temos opacidade em como os dados que nós geramos são usados. Foram raros e assustadores alguns artigos publicados por cientistas do Facebook.

Nas eleições de 2012, o Facebook realizou experimento mostrando para parte dos americanos um banner sobre o dia das eleições. Para outra parte de usuários, mostrou o mesmo banner marcando quais amigos já foram votar. A estimativa de votos gerados pelo uso desse reforço social foi de 280 mil votos. Ou seja, uma pequena mudança na interface do Facebook fez 280 mil pessoas saírem de casa pra votar, por pressão dos amigos. Mas pressão mediada e escolhida pelo Facebook.

Dois anos depois, Facebook o publicou artigo sobre um experimento psicológico em massa. Modificou o algoritmo de exibição de notícias de 700 mil pessoas e para parte dessas pessoas, ofereceu publicações mais positivas, alto astral. Para outra parte, publicações negativas, sobre tragédias e afins. A partir daí provou que a exposição a mensagens positivas tem um impacto psicológico, pois as pessoas publicam mais coisas positivas. E vice-versa. Ou seja, brincou com as emoções de centenas de milhares de pessoas. Não preciso nem falar o quanto isto é problemático.

Desse modo, escândalos como Cambridge Analytica são úteis para gerar mais noção e consciência sobre os problemas mas, a rigor, a Cambridge Analytica foi um bode expiatório. O grande problema foi a microssegmentação que a Cambridge realizou, a rigor baseada em recursos do próprio Facebook.

A idealização de mídias sociais como mecanismos persuasivos por si só não é nova e utilizou como experimento aplicativos  jogos sociais dentro das plataformas. Em 2008 esteve muito em voga a captologia, que é a disciplina focada em gerar tecnologias de persuasão. Em alguns casos, para persuasão positiva na área de saúde, por exemplo, mas em outros focadas em mercado e política. O B J Fogg, pesquisador de Stanford, propôs em 2008 o conceito de “persuasão interpessoal de massa”.

Pela primeira vez, segundo B J Fogg, alguns sistemas reuniam estas seis características. Experiência Persuasiva, Estrutura Automatizada, Distribuição Social, Ciclo Rápido, Grafo Social Imenso e Impacto Mensurável. Alguns casos de sucesso mercadológico foram empresas como a Zynga que rapidamente alcançou centenas de milhões de usuários e permitiram empresas como o Facebook aprenderem bastante sobre mecanismos de persuasão com gamificação.

Então estudar os modos pelos quais as interfaces são construídas e editadas para fins específicos é essencial.

E aí temos um ponto cego nas pesquisas em comunicação. Este ponto cego são as plataformas de auto serviço publicitário em Facebook e Google anúncios. Falamos muito de algoritmos, mas esquecemos com frequência de suas aplicações na área de anúncios microssegmentados. Em parte me parece que isso acontece porque pesquisadores de comunicação não tem dinheiro, então experimentos que envolvem investimento deste tipo ficam de fora dos escopos.

Só que nestas eleições, a legislação eleitoral cedeu ao lobby de Facebook e de Google. E seus dois modelos de anúncio são os únicos aprovados para campanha eleitoral na internet. Entretanto, o modelo de leilão destas plataformas permite não só que grandes partidos dominem o ambiente com mensagens criadas para “viralizar” (em detrimento de qualidade de propostas e debate) como permite que outros atores interfiram de forma indireta

As soluções possíveis não são fáceis e passam por reconhecer pelo menos 5 grandes necessidades: a) Plataformas de mídias sociais devem ser vistas como construídas também por seus milhões de usuários – trabalho imaterial gratuito; b) Plataformas de mídias sociais são empresas de comunicação, não de “tecnologia” – reguladas por interesse público). c) “Auditoria” algorítmica e crítica da economia política das plataformas. d) Papel social do jornalismo abraçado pela sociedade. e) Promoção de alternativas midiáticas abertas (plataformas open source de blogs plataformas).