Macanudo #1

Sobre a tirinha Macanudo, vocês já ouviram falar aqui mesmo no blog. A postagem atual é para falar do primeiro livro coletânea da tirinha. Macanudo #1 traz alguns dos primeiros trabalhos de Liniers neste universo.

A capa é maravihosa, com centenas de tipos característicos do desenho de Liniers. O prólogo traz um texto da quadrinista e escritora Maitena. “Cualquiera pude dibujar un gato, cualquiera puede dibujar una nena o un hombre con sombrero, pero no cualquiera puede hacer que ese gato, esa nena o ese hombre con sombrero sean diferentes a todos los que habíamos visto antes y pasen a formar parte del mundo como si los conociéramos.” Assino embaixo.

É curioso ver os primeiros passos do gato Fellini em algumas tirinhas. Ainda sem a forma que tem hoje, gato-futuro-Fellini interagia com um cão, numa perseguição ao estilo gato-e-rato, Tom & Jerry, Krazy Kat e Ignatz.

No miolo, uma surpresa para fãs de Beatles, e uma ilustração sublime com citação de Bill Watterson, criador de Calvin & Hobbes. O formato do livro é um quadrado perfeito, no qual fica ótima a visualização de três tirinhas por página.

Mais:
+ Compre este livro aqui
+ Baixe este livro o hdvirtual do blog
+ Leia painel científico do artigo Aproximações entre o estudo do cômico literário e a análise dos quadrinhos Macanudo aqui

Revista do Brasil, n°1

Todo produto cultural ou comunicacional pressupôe um autor. Este possui uma identidade, posição política, repertório cultural e vivências específicas. O mito da objetividade já deixou de ser sequer verossímil faz tempo.
A Revista do Brasil não pretende se dizer objetiva e imparcial. A edição número 01, de maio de 2006, traz o presidente Lula na capa: “O Segredo de Lula. Um ano de bombardeios, na mídia e no Congresso, não abalou a liderança do presidente. De onde vem essa resistência?“

Produzida e patrocinada por alguns sindicatos de trabalhadores,a publicação se pretende uma alternativa para a “parcela significativa da opinião pública que sente-se insatisfeita com o que encontra nos meios de comunicação.” De fato, também é importante ler publicações que sejam o oposto da Veja, para contrabalançar.

Os elementos gráficos como numeração, barra, fios, títulos e gráficos são todos impressos em preto, branco e vermelho bem vivo. A escolha das fotografias também parece ser bem minuciosa.

Em uma matéria sobre feijoada, “Mistura à brasileira“, nas páginas 22-23, o centro da dupla é preenchido por um prato farto. Os indispensáveis arroz e feijão decorados com tomate e pimenta, bem vermelhinhos.

Na dupla 12-13, temos a matéria “Pavor de Investigação” com o seguinte lead: “Apesar de tentar construir imagem de bonzinho, o PSDB usou de rolo compressor para impedir, na Assembléia Legislativa de São Paulo, CPIs que investigariam seu governo.” Neste caso o critério de escolha da foto de Alckmin é sorrateiro.

No jornalismo, entre uma fotografia e outra de um acontecimento, sempre é selecionado o mais representativo. Quando o acontecimento envolve uma personalidade, é selecionada a fotografia em que a ação do referido represente o que a publicação pensa sobre ele. Mas no caso de retrato, isso é excessivo.

Na capa dessa edição, claro, nada mais do que justo e condizente com a reportagem, o rosto de Lula feliz e satisfeito. Mas na matéria “Pavor de Investigação” foi impresso um retrato de Alckmin com uma expressão facial engraçada, ridícula. Nesse caso, acho que é forçação de barra desagradável.

+ Baixe o primeiro número aqui

Causos de banca de revista

Estava eu, distraído e serelepe, folheando revistas a decidir qual seria a eleita do meu escasso dinheirinho. Eis que chego na Homem Vogue do mês, capa com Wagner Moura. No miolo, especial sobre mulheres que se destacaram em 2007. Concentrado em como conseguiram deixar Fernanda Machado quase feia, com aquela maquiagem e um fotógrafo ruim, me sobressalto quando ouço:
– Essa sacana é gostosa, hein? Ssssss. [aquele ruído entre os dentes que supostamente demonstra tensão sexual]

O senhor, de seus 54 anos, estava sozinho. Acompanhava-o apenas a VIP e a barriga proeminente. Decerto tentava uma aproximação. Nada mais sutil, se queria conversar coisas de ”macho”.

Dei um passo pro lado e comecei a folhear a DOM (que será tema de uma postagem em breve)…
O senhor não puxou assunto.

* fotografia de Marcelo Guidoux Kalil

Revista Inversus, n°3

A Inversus é uma revista portuguesa de jornalismo cultural. Na sua página web, que não é das melhores coisas já feitas em flash, podem ser baixados quase todos os números, com a exceção dos dois primeiros.

Trimestral, trouxe no terceiro número (primavera de 2005) um editorial que explicita bem a proposta da publicação. Começa assim: “O outro lado. A outra face de nós e do Mundo. De cada espaço e homem. Da música, cinema e teatro. Da literatura e da pintura. Uma estrada onde se abraça o desconhecido e a liberdade. Uma brecha onde o líquido da vida não se estanca.“

Uma das matérias mais interessantes, “reféns da escuridão” fala de duas doenças que fazem com que os doentes sejam privados do sol. A referência, tanto no preconceito, quanto nas lendas, aos vampiros, é inevitável.

Atenção especial também à matéria “matemática sonora“, que trata de Iannis Xenakis, um compositor, arquiteto, engenheiro civil e filósofo, que compôs o que chama de “música arquitetônica”.

A entrevista com Vasco Granja, apresentador e animador português é curiosa e… insólita. Em certo momento diz que “As pessoas que apresentam os desenhos animados não têm qualidade. Não conhecem as peças e limitam-se a apresentar, lendo o que o teleponto lhe diz”. Para quem se diz grande conhecedor, é curioso ler: “Não gosto de fenômenos como o Mangá…“, referindo-se a animações japonesas… Bom, dizer que todos os mangás ou animes são ruins é um direito. Mas declarar-se grande conhecedor e trocar os termos é deprimente.

“Perdido na tradução” fala de situações insólitas e outras idiossincrasias da tarefa de tradutor de legendas de filmes. O número ainda traz: pequenos textos sobre o “outro”; crônica sobre lendas urbanas virtuais; o polêmico quadrinista Álvarez Rabo; video-jockeys; Orquestra de Vegetais de Viena e mais conteúdo interessante.

Por último, mas não em último, vale a pena destacar o design da Inversus. A maioria das páginas são bem realizadas. As fotografias nas matérias e reportagens de texto não são predominantes, mas as formas criadas são análogas ao assunto e geralmente são bem-sucedidas. Atenção particular aos números e formas geométricas de “matemática sonora” e as cores e formas de “vegetais no palco“.

Está presente também um recurso que acho ser o ideal para publicações, sobretudo revistas, de jornalismo cultural. A retangularidade da fotografia é posta de lado. Em primeiro lugar, diferencia o design do jornalismo gélido, que ainda tenta vender o mito da objetividade. E, principalmente, integra melhor as fotos à arte da página, com recortes, colagens e fusões. É assim que faço e pretendo continuar fazendo na minha menina-dos-olhos, a Fraude. Mas isso já é outra história e outra postagem…

Mas, quando se trata de fotografia, a revista também não deixa a desejar. A capa e contracapa se completam. Um pequeno ensaio fotográfico, de Inês Fontes Prada, chamado “identidade incessante” merece ser contemplado durante alguns minutos.

Mais:
+ Diretor de Arte, Vírgilio Afonso Beatriz
+ Link direto para baixar o terceiro número aqui

Sadayuki Mikami

sadayuki-mikamiA fotografia ao lado foi vencedora do World Press Photo em 1978. De Sadayuki Mikami, foi tirada em 26 de março de 1978, durante protestos contra construção do Aeroporto Narita, em Tokyo.Esta fotografia pode ser considerada pictórica*, na conceituação de Heinrich Wolfflin. Quando uma foto é tirada em movimento, ou de algo em movimento, a depender da velocidade de obturação, é criado um efeito de “borrão” característico de algumas fotografias que representam certos tipos de ações, como confrontos e guerra.

Particularmente em dois pontos o caráter de pictórico fica mais evidente. Há objetos, talvez projéteis, na parte superior, à esquerda, que de tão difusos sequer podem ser reconhecidos. E a figura que está pegando fogo é outra, na qual não existem limites reconhecíveis entre a figura, o fogo, a fumaça e o fundo.

E também não é uma forma fechada. Wolfflin define forma fechada como aquela em que cada objeto relevante à cena é apresentado nitidamente, sendo que os limites do quadro só recortem objetos secundários. Esta fotografia é um recorte fracionado da ação, que se prolonga além de seus limites laterais. A massa de manifestantes é recortada bruscamente pelo limite esquerdo, enquanto que o olhar e o vetor do movimento (uma vez que é fuga) faz referência a algo que provavelmente estaria localizado à direita do grupo.

Em relação à unidade, pode-se dizer que é um exemplar de fotografia nos quais os elementos relevantes estão dispostos em unidade múltipla. Aqui, o efeito também parece ser resultado do tipo de ação representada. Uma massa em fuga se avoluma em uma seção da fotografia, tornando indistinguíveis as formas em separado que executam uma mesma ação relacionada.

* O texto sobre esta fotografia foi desenvolvido origialmente para um exercício de análise durante a disciplina Teorias da Imagem (clique para fichamento do livro), ministrada pelo professor dr. Benjamim Picado. A disciplina consistiu em leitura de “Conceitos Fundamentais da História da Arte”, de Heinrich Wolfflin e posterior aplicação de seus pares conceituais sobre história da arte para a análise da fotografia. O professor Picado é o pesquisador-chefe do GRAFO, grupo de pesquisa em análise da fotografia, da Facom-UFBa.

+ Compare preços do livro