Arquivo do autor:Tarcízio Silva
Faz Caber
“Faz Caber” é uma brincadeira com uma frase comum em redações, quando um texto excede o espaço da página. Nosso blog traz os bastidores do processo de produção da revista e dicas que podem interessar a quem, como nós, não fica satisfeito com página feia.
Quem já teve a experiência de diagramar um jornal ou revista sabe o quanto estes rapazes devem sofrer. O blog é escrito pela equipe de arte da revista Época. Além de notícias sobre design editorial, a cada semana o blog mostra os testes de capas realizadas pela equipe, para escolha da definitiva que irá às bancas.
Lovecraft
E se as criaturas criadas por Howard Phillips Lovecraft nos contos que mais tarde seriam categorizados por August Derleth como os Mitos de Cthulhu fossem reais? O romance gráfico Lovecraft propõe que o escritor foi perseguido por algumas de “suas” criaturas e os cultistas destas, incomodados pela publicação de seus trabalhos.
H. P. Lovecraft foi um contista de horror do início do século XX. Em seus escritos, a humanidade é irrelevante para o universo. Nos contos da fase chamada Mitos de Cthulhu, foi criada uma mitologia própria: além das divindades ‘verdadeiras’, existiriam algumas criaturas na Terra, os Grandes Antigos, tão poderosos que chegam a ser cultuados como deuses. Antes da humanidade florescer, esses monstros foram banidos e esperam uma oportunidade de reinar novamente. O Necronomicon, um livro mágico maldito, seria a chave para abrir o portal. A premissa da revista é de que este livro realmente existiu, e Lovecraft o recebeu como “herança”.
Adaptado por Keith Giffen, o roteiro de Hans Rodionoff é uma homenagem fundamentada. Fica claro que foi baseado em um amplo trabalho de pesquisa. São identificáveis referências históricas e minúcias biográficas, além da inevitável referência a estruturas narrativas lovecraftianas recorrentes. A introdução escrita pelo cineasta John Carpenter deixa clara a importância do escritor para grandes nomes do horror, como Stephen King e Clive Barker. O próprio Carpenter já homenageou Lovecraft com a premissa e o título original de À Beira da Loucura (em inglês The Mouth of Madness, referência a At The Mountain of Madness).
O horror cósmico criado por H. P. Lovecraft é um desafio para quem queira construir uma representação visual, principalmente se for estática, como no caso dos quadrinhos. Lovecraft construía suas criaturas sempre em termos de inadequação ao mundo e à compreensão humana. A vagueza de descrição era intencional, pois o narrador protagonista não tinha parâmetros de comparação para o “inominável”. O desenhista argentino Enrique Breccia faz um bom trabalho. Seu estilo não é realista, por isso mesmo atinge o objetivo. Os monstros aparecem de forma explícita, apesar disso não ficam banais. Talvez o resultado fosse ainda melhor se o uso de penumbras fosse mais freqüente, mas nada que comprometa a obra.
Alguns detalhes são deleites para os fãs. O desprezo de Lovecraft por seu conto Herbert West: O Reanimador, encomendado pela revista Weird Tales, é mostrado numa conversa com o editor da revista pulp, Edwin Baird. Como não poderia faltar, alguns dos escritores colaboradores de Lovecraft (mais tarde conhecidos como o “círculo lovecraftiano”) aparecem, como Frank Belknap Long e Robert E. Howard. E talvez a melhor das miudezas seja o encontro com o ilusionista Houdini, para quem trabalharia como ghost writer do conto Aprisionado com os Faraós. Atenção também para o papel de Edgar Allan Poe como ídolo e influência para Lovecraft. Apropriadamente uma citação de Poe abre a revista.
Mesmo quem sequer ouviu falar em Lovecraft pode apreciar a revista. Em passagens mais obscuras, notas de rodapé esclarecem o leitor. Se o neófito em Lovecraft não vai sorrir como o fã para cada referência, aos borbotões por página, ao menos vai ser despertado para um autor tão rico, embora ainda sem a fama merecida, setenta anos depois da morte.
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De Outro Modo, n°1
Em dezembro foi lançada a primeira edição da DOM – De Outro Modo. A revista quer ser “mais do que uma “revista gay”, a DOM que apresentamos a você hoje quer ser igualmente plural. Sua essência é inclusiva, não exclusiva. Queremos que todos, gays e lésbicas em todas suas variantes, simpatizantes ou simplesmente humanos, sintam-se à vontade por aqui, enxergando nessas pa´ginas um universo não de estranhamento, mas de encantamento, não de apartes, mas de encontros.”
Graficamente, a revista é excelente. Não à toa: o pai da idéia da revista e do projeto gráfico-editorial foi Augusto Lins Soares, diretor de criação. Nas primeiras páginas, depois de um índice em duas páginas pares (pra valorizar a publicidade de turismo nas ímpares) com a divina tríade de cor (preto, branco e vermelho) a seção Misto Quente. Pequenas notas, citações e produtos curiosos. Em seguida, Cult. Divide-se em cenas, filmes, letras, artes e sons, mas sem páginas definidas. A cor dos títulos se refere a cada parte da seção. Sou suspeito pra falar, mas a parte de artes é particularmente interessante.
Outros pontos altos da revista se concentram no final. Em Psiquè texto do jornalista e terapeuta Jolio Moreno sobre auto-preconceito. Fechando a revista, a seção Aspas, com Laura Bacellar. A editora fala da criação do selo GLS no grupo Summus. O melhor texto dessa edição.
A seção Iconografia traz perfil e uma pequena história em quadrinhos de Tim Fish. A partir do próximo número, a série Cavalcade of Boys. Em Portfolio um ensaio fotográfico com vários trabalhadores, de padeiro a gogo boy, passando por estilista e personal trainer.
A Entrevista da edição é com o cineasta Guilherme de Almeida Prado (de A Dama do Cine Shanghai). O entrevistado fala de seu nome filme, Onde Andará Dulce Veiga?, linguagem pop no cinema, e representação de gays nos filmes.
Na gorda parte consumista da revista, muitas seções. Em Moda várias páginas com ensaios. Está na cara traz uma disposição interessante dos óculos anunciados, realizando uma das melhores duplas da revista. Consumo traz os carros mais desejados por gays de três capitais do brasil. Há ainda uma seção de Tecnologia e outra de Beleza, trazendo perfumes. E a cereja estragada do bolo solado, Petshop, traz coleirinhas de luxo…
Em Relacionamento uma matéria sobre o casal da “alta sociedade” carioca Carlos Tufvesson e André Piva. Viagem: A matéria ‘La cena’ traz a capital gay latino-americana, Buenos Aires. Em Gastronomia são apresentados pratos simples com frutos do mar usando “o que você tem na geladeira”. Giros indica lugares curiosos.
Saúde traz matéria sobre auto-exame de detecção de câncer de testículo. Bem-Estar fala sobre spas direcionados ao público gay. Fitness traz vários exercícios para alcançar o tanquinho. Em Corpo (divisão estranha em relação à saúde), traz matéria sobre disfunção erétil. Interiores traz dicas para melhor arrumar o armário… No título, o clichê dispensável: “Por dentro do armário”.
Signos não poderia faltar, claro. O diferencial é uma fotografia que acompanha (texto na página par, foto na ímpar), representando o signo do mês, sagitário. Como não poderia deixar de ser, um Teste relacionado a sexo. Dessa vez, “Que bicho sexual você é?”.
Com altos e baixos como toda publicação, a compra vale a pena. Nas bancas por dez reais.
