Unspeakable Vault (of Doom)

Os quadrinhos são a arte nerd por excelência. Em comparação com outras artes narrativas (cinema, literatura ou até música), a facilidade de produção e distribuição é muito superior. Isso permite que muitos quadrinhos, principalmente tirinhas, possam delimitar seu público bem restritamente.
Uma tirinha exclusivamente de sátira a um único universo ficcional é uma faca de dois gumes. De um lado o humor pode ter o máximo de eficácia por causa da especificidade das referências. Por outro, quem não conhece a referência fica boiando sem entender patavinas. Logo, não serve para esse público.

Unspeakable Vault (of Doom) é uma dessas tirinhas especializadas em sátira. No caso faz referência ao mundo, por alguns chamados de Mitos de Cthulhu, criado pelo autor norte-americano H. P. Lovecraft. Aproximadamente entre 1920 e 1937 esse autor produziu dezenas de contos que criaram toda uma mitologia de raças alienígenas, planetas e deuses desconhecidos do homem, que são menos do que formigas no universo, que não pode sequer compreender.

As piadas envolvem tanto o universo ficcional, ou seja, referência a rituais de invocação, deuses sádicos e investigadores, quanto o público consumidor do material de Lovecraft. Rpgistas, ouvintes e músicos de metal, e nerds em geral também aparecem eventualmente. Também vale a pena conferir as brincadeiras com outras obras famosas, como Piratas do Caribe, Senhor dos Anéis, Matrix, Arquivo X, Moby Dick, Godzilla etc.

Algumas dos primeiros posts são fichas dos personagens, para ajudar os incautos. O desenho tem algumas peculiaridades interessantes. Uma delas é o fato de que os seres humanos são todos representados sem rosto. Fácil entender, uma vez que não são protagonistas e sim, geralmente, comida dos Old Ones.

Jamie Reid, Sex Pistols e expressão punk

A identidade cultural de um grupo qualquer é sempre uma negociação com as outras identidades possíveis. Negociação tanto no sentido de partilha de alguns elementos em comum quanto no sentido de posicionamento contrário. Para definir qualquer coisa, e não só uma identidade, é preciso dizer o que não se é. A alteridade do posicionamento de um sujeito em relação ao outro é mais evidente em alguns grupos, como os punks.

Os adeptos do movimento punk quiseram se diferenciar do restante de uma sociedade que eles abominavam, daí a necessidade de desmerecer os símbolos dos poderes institucionalizados – caso do repúdio do Sex Pistols à rainha da Inglaterra. A cultura punk pretende-se iconoclasta de todos os valores clássicos. A música – sob a forma do punk rock – é reconhecidamente o principal pilar do movimento e sua subcultura, com letras de caráter contestador.

A enunciação oficial histórica é combatida por intervenções urbanas que contestam a autoridade. O movimento punk foi especialmente prolífico nesse sentido. A capa do single ao lado, por exemplo, usa como base uma imagem oficial largamente difundida da rainha da Inglaterra. Essa imagem foi utilizada em diversos fanzines e grafites, com dizeres ofensivos sobrepostos à imagem.

O álbum “Never Mind the Bollocks”, da banda inglês Sex Pistols é um exemplo característico da quebra de regras formas de composição. Também elaborada pelo designer Jamie Reid, ignora propositalmente conceitos básicos de design, como visibilidade, simplicidade e padronização. O título do álbum é fragmentado em duas famílias diferentes de tipos, causando uma certa estranheza na primeira leitura. O nome “Sex Pistols” é escrito com letras irregulares em espaço negativo numa faixa lilás sobre um fundo amarelo. O uso de letras diferentes em uma mesma palavra foi utilizado pela cultura punk para se referir à cartas anônimas (de seqüestro ou atentado, por exemplo).

Outros trabalhos de Jamie Reid:


Leia mais:
+ HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade.

+ LOPES, M.B.P. As fontes no rock: uma análise dos elementos tipográficos em capas de discos.
+ mais sobre Jamie Reid no site mital-U

Battle Royale

Um reality show. Quarenta e dois participantes. Uma ilha. Só um vencedor. pra alcançar a vitória, todos os outros quarenta e um concorrentes devem ser eliminados. Para todo o sempre. Pode não parecer o mais original dos roteiros (vide O Sobrevivente, romance de Stephen King adaptado aos cinemas em 87), mas o mangá Battle Royale tem um diferencial que marca bem a forma que é desenvolvida a trama. Os sorteados são turmas de primeiro ano do colegial. Como todos sabem, já um campo de guerra.

Battle Royale originalmente foi um polêmico romance escrito pelo japonês Koushun Takami em 1999. No final do ano seguinte, Kinji Fukasaku lançou uma adaptação para os cinemas. Apesar de nenhum deles ter sido traduzido para português oficialmente (até agora), o filme e o mangá tornaram-se cult entre internautas, graças ao trabalho de scanlators. Em janeiro de 2006 o último volume foi lançado no Japão, e aqui no Brasil a Conrad lança mensalmente, a partir de outubro.

O realismo do mangá é perturbador. Logo no primeiro volume, uma página dupla mostra um aluno atingido no rosto por um tiro. O aspecto visceral (literalmente) e direto do desenho pode não ser o mais agradável de se ver, mas acusações de sensacionalismo não duram muito. Battle Royale poderia ser um shonen mangá raso, que se concentra nas lutas e mortes. Na verdade, o mangá não é sobre um reality show de matança. A ilha é só uma fachada para que o autor destrinche as relações humanas, principalmente a dinâmica das relações escolares, que podem definir toda a vida de uma pessoa.

Os personagens principais são: Shuuya Nanahara, um órfão de bom coração, que tenta sempre ajudar os colegas mais fracos; Noriko Nakagawa, a paixão do melhor amigo de Shuuya, que promete protegê-la; e Shogo Kawada, um recém-transferido e misterioso aluno. Os três se juntam, não entram no jogo e tentam convencer outros a não participarem.

A cada personagem apresentado na ilha, seu perfil é mostrado pelas atitudes na escola. Os tipos clichês do colegial aparecem, como a garota popular, o otaku, o esportista, o lutador de artes marciais ou a gangue que oprime os mais fracos. O primeiro coadjuvante a aparecer é Yoshio Akamatsu, perseguido por outros alunos no colegial por ser “lento”. Assim que o Programa começa ele enlouquece, lembrando das vezes que foi constrangido ou até espancado. Shuuya tenta convencê-lo a não lutar, mas Akamatsu já perdeu a confiança nas pessoas…

Super Heróis Gays | Gay Super Heroes

Os quadrinhos sempre foram polêmicos em se tratando de personagens de orientação não-hétero. Na maioria das revistas, principalmente as dos universos Marvel e DC, que são as mais vendidas, só existiram heterossexuais durante muito tempo. Na década de 50, o “psicólogo” Frederick Wertham escreveu o relatório A Sedução dos Inocentes, que teve consequências desastrosas.

Nessa obra ele mostrava todos os supostos danos que os quadrinhos provocavam nos jovens. Todos os medos do americano médio da época estavam lá. Além de incentivar o comunismo, a maioria dos heróis eram maus exemplos por incentivar condutas sexuais questionáveis. A Mulher-Maravilha vinha de um país só de mulheres, enquanto Batman e Robin eram chegados demais…

O relatório foi levado ao Senado americano, que discutiu o assunto. Para evitar a falência, as empresas de quadrinhos criaram um código de censura interno que, dentre outras conseqüências, matou o menino-prodígio. Apesar das alegações de Wertham serem em sua maior parte infundadas, o código ajudou a manter os heróis dentro do armário.

Cinqüenta anos depois, a situação vem mudando. O segundo número da revista Mundo Super Heróis (Editora Europa, 10/2006, r$9,90) traz uma matéria de duas páginas sobre super heróis gays. O autor usa o termo genericamente, pois também traz alguns heróis bissexuais e heroínas lésbicas. Talvez até pan, considerando o alienígena Starman.

Entre os mais famosos temos John Contastine, que se declarou bissexual na edição 51 da revista Hellblazer. Na conservadora Marvel, a revista Jovens Vingadores, ainda em seus primeiros números, é a primeira a trazer dois protagonistas gays em relação estável. Os adolescentes Billy Kaplan e Teddy Altman são os heróis Wiccan e Hulkling, possíveis substitutos de Thor e Hulk.

A revista pode ser comprada aqui. Também visite o fórum de discussão F.A.R.R.A., que tem um tópico dedicado à revista aqui.

The comics have always been controversial when it leads to characters with non-hetero orientation. In most magazines, especially those universes of Marvel and DC, who are the most sold, only heterosexual existed for a long time. In the 50’s, the “psychologist” Frederick Wertham wrote the report The Seduction of Inocents, which had disastrous consequences.

In this work he showed all the supposed damage that the comics provoked in young people. All the average American fears of the epoch were there. Besides encouraging the communism, most heroes were bad examples by encouraging a questionable sexual conduct. Wonder Woman came from a country of only women, while Batman and Robin were too close…

The report was brought to the Senate, that discussed the matter. To avoid bankruptcy, comics’ companies created an internal censorship code which, among other consequences, killed the boy-prodigy. Despite most part of the allegations of Wertham were unfounded, the code helped keep the heroes get out of the closet.

Fifty years later, the situation is changing. The second issue of the magazine Mundo Super Heróis (Editora Europa, 10/2006, r $ 9.90) brings a matter of two pages about gay super heroes. The author uses the term generally, which also brings some bisexual and lesbians heroes and heroines. Maybe even pan, considering the alien Starman.

Among the most famous we have John Contastine, who declared himself bisexual in the 51 edition of the Hellblazer Magazine. In conservative Marvel, the magazine Young Avengers, still in its early numbers, is the first to bring two gay protagonists in stable relationship. Adolescents Billy Kaplan and Teddy Altman are the heroes Wiccan and Hulkling, possible replacement for Thor and Hulk.

The magazine can be bought here. Also visit the discussion forum FARRA, which has a topic devoted to the magazine here.

Macanudo e metalinguagem: uma tirinha

Tirinha maravilhosa de Liniers. Os primeiros cinco quadros mostram cinco gatos famosos dos quadrinhos. Os retângulos dedicados a cada gato são formados por outros três. Um menor, em cima, é uma legenda ornamentada, que traz o nome do gato. Abaixo, a imagem do gato, cada um deles desenhado no traço, cor, material e textura característicos. Mais abaixo os nomes dos autores. Há um equilíbrio cromático deveras bonito: no fundo de cada quadrado do meio predomina ou o amarelo ou o azul, alternadamente. A legenda de cima traz como fundo também as cores azul ou amarelo, sendo a oposta a depender do quadro abaixo. Estes cinco retângulos são configurados numa mesma unidade, pela proximidade entre si e distância em relação ao sexto e último. Este traz Enriqueta e Fellini lendo o livro que contêm os primeiros quadros, finalizando a tirinhas com uma metalinguagem dupla (livro de quadrinhos dentro do quadrinho e gato preto dos quadrinhos falando sobre… gatos pretos dos quadrinhos…)