{"id":13727,"date":"2025-12-10T17:48:02","date_gmt":"2025-12-10T20:48:02","guid":{"rendered":"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/?p=13727"},"modified":"2025-12-10T17:49:22","modified_gmt":"2025-12-10T20:49:22","slug":"de-onde-veio-o-termo-racismo-algoritmico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/de-onde-veio-o-termo-racismo-algoritmico\/","title":{"rendered":"De onde veio o termo &#8220;racismo algor\u00edtmico&#8221;?"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-8f761849 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:33.33%\"><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:66.66%\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Tive a honra de ser entrevistado pelos pesquisadores J\u00falio Ara\u00fajo, Kleber Silva, Paulo Boa Sorte e Eduardo de Moura Almeida para um dossi\u00ea especial da revista <\/em>Linguagem em Foco<em>, do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Lingu\u00edstica Aplicada da UECE. O dossi\u00ea tem\u00e1tico &#8220;<strong><a href=\"https:\/\/revistas.uece.br\/index.php\/linguagememfoco\/issue\/view\/706\">Intelig\u00eancia Artificial, racismo algor\u00edtmico e outras exclus\u00f5es<\/a><\/strong>&#8221; traz, al\u00e9m da entrevista, 15 artigos in\u00e9ditos e imperd\u00edveis sobre o tema.<\/em> <br>Reproduzo aqui as duas primeiras perguntas da <a href=\"https:\/\/revistas.uece.br\/index.php\/linguagememfoco\/article\/view\/16163\">entrevista<\/a>, que resumem bem de onde veio o termo racismo algor\u00edtmico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li><em><strong>No livro, voc\u00ea afirma que o racismo algor\u00edtmico \u00e9 uma atualiza\u00e7\u00e3o do racismo estrutural. Poderia explicar como essa atualiza\u00e7\u00e3o se d\u00e1 na pr\u00e1tica e quais s\u00e3o suas consequ\u00eancias sociais mais graves?<\/strong><\/em><\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A perspectiva do racismo estrutural tem sido apresentada por intelectuais negras e antirracistas h\u00e1 algumas d\u00e9cadas tanto como lente de an\u00e1lise quanto caminho de incid\u00eancia em pol\u00edticas p\u00fablicas. Do ponto de vista do racismo estrutural como lente de an\u00e1lise, significa abarcar investiga\u00e7\u00f5es sobre a rela\u00e7\u00e3o sist\u00eamica de vari\u00e1veis culturais, econ\u00f4micas, institucionais, pol\u00edticas e psicol\u00f3gicas que tornam o racismo, em pa\u00edses como o Brasil, um eixo central das rela\u00e7\u00f5es sociais.&nbsp; Se entender a reprodu\u00e7\u00e3o das hierarquias raciais de forma multidimensional e multidisciplinar \u00e9 necess\u00e1ria, intelectuais como \u00cdsis Concei\u00e7\u00e3o propuseram que a abordagem estrutural centre a aten\u00e7\u00e3o nos arranjos e intera\u00e7\u00f5es interinstitucionais, aqui entendidas em sentido lato. Apenas olhando dessa forma, podemos refletir as rela\u00e7\u00f5es complexas de retroalimenta\u00e7\u00e3o das hierarquias raciais. Assim podemos entender, por exemplo, como a exclus\u00e3o deliberada de personagens negras nos ambientes narrativos populares \u2013 como novelas, digamos \u2013 est\u00e1 ligada \u00e0 baixa representatividade de parlamentares negras e ambas se conectam com a constru\u00e7\u00e3o antidemocr\u00e1tica da universidade brasileira. Quem pode formular op\u00e7\u00f5es, opini\u00f5es e avalia\u00e7\u00f5es sobre pol\u00edticas p\u00fablicas? Quem \u00e9 considerado confi\u00e1vel como representante pol\u00edtico? Quem \u00e9 considerado um ser humano completo e complexo \u2013 e que pode ser visto como igual sobre o qual projetamos nossos anseios, medos, empatia e experi\u00eancia? Todas essas perguntas est\u00e3o relacionadas e para as respondermos precisamos entender como os mecanismos de reprodu\u00e7\u00e3o das estruturas de hierarquia de valor entre humanos perpassa afetos, recursos, morais, intelectualidades e paix\u00f5es multidimensionais. Assim, lentes estruturais sobre opress\u00f5es, incluindo, mas n\u00e3o s\u00f3 a opress\u00e3o racial, significam entender como as produ\u00e7\u00f5es de valores nas rela\u00e7\u00f5es sociais nas v\u00e1rias esferas da vida se retroalimentam ou se questionam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao entendermos essas rela\u00e7\u00f5es, movimentos de grupos minorizados politicamente tem lutado de forma simult\u00e2nea em v\u00e1rias camadas da vida social por inclus\u00e3o, reconhecimento e repara\u00e7\u00e3o. Sabemos que condena\u00e7\u00f5es de pessoas negras por crimes sem v\u00edtimas e de valor irrelevante, como furto de comida, chegam a inst\u00e2ncias superiores do judici\u00e1rio n\u00e3o s\u00f3 pelas v\u00e1rias decis\u00f5es racistas das pessoas diretamente envolvidas, mas tamb\u00e9m pela constru\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica e cultural de desumaniza\u00e7\u00e3o de pessoas negras e da constru\u00e7\u00e3o da imag\u00e9tica do que \u00e9 o crime e o criminoso. Nesse sentido, a disputa por pol\u00edticas p\u00fablicas por movimentos antirracistas leva em considera\u00e7\u00e3o os diversos fatores e vari\u00e1veis que se conectam em v\u00e1rias dimens\u00f5es da vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o que acontece quando cada vari\u00e1vel citada acima pode ser incorporada nos fluxos de decis\u00f5es automatizadas delegadas a sistemas que se vendem como neutros e alienam as possibilidades de resist\u00eancia nos pontos de conflito? A digitaliza\u00e7\u00e3o, plataformiza\u00e7\u00e3o e algoritmiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais e epist\u00eamicas, sobretudo por ser realizada por um punhado de corpora\u00e7\u00f5es vinculadas ao capital financeiro global, s\u00e3o modos de retomada de controle dos fluxos de produ\u00e7\u00e3o, refor\u00e7o ou disputa de valores entre indiv\u00edduos por todo o globo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o podemos entender racismo algor\u00edtmico como o modo pelo qual a disposi\u00e7\u00e3o de tecnologias e imagin\u00e1rios sociot\u00e9cnicos em um mundo moldado pela supremacia branca realiza a ordena\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica racializada de classifica\u00e7\u00e3o social, recursos e viol\u00eancia em detrimento de grupos minorizados. Tal ordena\u00e7\u00e3o pode ser vista como uma camada adicional do racismo estrutural, que vai al\u00e9m e molda o futuro e horizontes de rela\u00e7\u00f5es de poder adicionando mais opacidade sobre explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o global racializada desde o projeto colonial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>2. <em>Quais autores e teorias foram centrais para voc\u00ea formular o conceito de racismo algor\u00edtmico? H\u00e1 alguma influ\u00eancia de pensadores do Sul Global que voc\u00ea considera essencial nesse debate?<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Subjacente \u00e0 toda reflex\u00e3o sobre racismo e antirracismo no Brasil, centralizo a contribui\u00e7\u00e3o te\u00f3rico e pol\u00edtica de soci\u00f3logas, historiadoras, antrop\u00f3logas e juristas como Sueli Carneiro, Adilson Moreira, Abdias Nascimento, L\u00e9lia Gonzalez e \u00cdsis Concei\u00e7\u00e3o. Como conceitos-chave para entender o fen\u00f4meno global do racismo antinegro, a abordagem de contrato racial de Charles Mills e sua leitura, por Sueli Carneiro, sobre o epistemic\u00eddio s\u00e3o essenciais para entender como o racismo algor\u00edtmico se liga a promo\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica da ignor\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em termos de produ\u00e7\u00f5es de impacto global, o estudo do fen\u00f4meno \u201cracismo algor\u00edtmico\u201d pode ser caracterizado por duas grandes ondas de elabora\u00e7\u00f5es. A primeira \u00e9 caracterizada por estudos de cientistas da computa\u00e7\u00e3o e soci\u00f3logas estadunidenses que abordaram o impacto das tecnologias e ideologias do Vale do Sil\u00edcio no aprofundamento das desigualdades de ra\u00e7a, classe e g\u00eanero nos EUA. Autoras como Alondra Nelson, Latanya Sweeney, Bosah Ebo e Oscar Gandy Jr., produzem an\u00e1lise sobre racismo, m\u00eddias sociais, I.A. e tecnoci\u00eancia desde a virada do s\u00e9culo. Publica\u00e7\u00f5es como \u201cThe Panoptic Sort\u201d, de 1993, \u201cCyberimperialism\u201d, de 2000, e \u201cTechnicolor: race, technology and everyday life\u201d, de 2001, s\u00e3o exemplos de produ\u00e7\u00f5es que inspiraram e formaram pensadoras cr\u00edticas sobre tecnologia dos EUA que hoje s\u00e3o influentes no Brasil como Ruha Benjamin, Safiya Noble e Simone Browne. Em sua maioria conectam abordagens dos campos dos Estudos de Ci\u00eancia em Tecnologia e da Economia Pol\u00edtica da Informa\u00e7\u00e3o em conex\u00e3o com Teoria Cr\u00edtica da Ra\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir da d\u00e9cada iniciada em 2011, a populariza\u00e7\u00e3o das plataformas de m\u00eddias sociais e, posteriormente, a nova fase de <em>hype<\/em> da intelig\u00eancia artificial, motivaram rea\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s da emerg\u00eancia de trabalhos emp\u00edricos multidisciplinares. Estudos cr\u00edticos de bases de dados, auditorias acion\u00e1veis e propostas de metodologias de mitiga\u00e7\u00e3o de danos da I.A. caracterizam esta nova onda de estudos sobre racismo algor\u00edtmico. Pesquisadoras como Joy Buolamwini, Timnit Gebru, Abeba Birhane, Rediet Abebe representam bem o atual momento. N\u00e3o por acaso as \u00faltimas tr\u00eas citadas s\u00e3o de origem ou ascend\u00eancia et\u00edope, que originou uma converg\u00eancia de fatores epist\u00eamicos, pol\u00edticos e cient\u00edficos que resultou em ume gera\u00e7\u00e3o que define um olhar global e sist\u00eamico sobre as pot\u00eancias e riscos da intelig\u00eancia artificial em um mundo \u2013 ainda \u2013 dominado pelo imperialismo, colonialismo e supremacia branca estadunidense.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto ao termo em si, um dos primeiros formuladores de \u201cracismo algor\u00edtmico\u201d foi Syed Mustafa Ali, que apresenta o conceito em reflex\u00f5es sobre como o imagin\u00e1rio de futuro dist\u00f3pico da branquitude ocidental depende da demoniza\u00e7\u00e3o colonial do Outro \u2013 como da negritude ou do Isl\u00e3 \u2013 para estabelecer seu ideal de desenvolvimento tecnol\u00f3gico hegem\u00f4nico como \u00fanico poss\u00edvel, incluindo suas camadas crescentemente expl\u00edcitas de eugenia e destrui\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para meu trabalho, Ali \u00e9 uma grande influ\u00eancia junto \u00e0s demais autoras apresentadas, em especial Ruha Benjamin. Em cap\u00edtulo que pudemos traduzir no livro \u201cComunidades, Algoritmos e Ativismos Digitais\u201d, Benjamin faz um apelo que \u201ccontinuemos promovendo investiga\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas que n\u00e3o sejam apenas sobre processos racializados, mas tamb\u00e9m apliquem uma lente de estudos racialmente cr\u00edticos de ci\u00eancia e tecnologia a todos os aspectos da vida social que atualmente s\u00e3o sufocados pelas l\u00f3gicas carcerais\u201d que direciona minha abordagem de pesquisa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Leia o dossi\u00ea completo no <strong><a href=\"https:\/\/revistas.uece.br\/index.php\/linguagememfoco\/issue\/view\/706\">site da revista Linguagem em Foco<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tive a honra de ser entrevistado pelos pesquisadores J\u00falio Ara\u00fajo, Kleber Silva, Paulo Boa Sorte e Eduardo de Moura Almeida para um dossi\u00ea especial da revista Linguagem em Foco, do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Lingu\u00edstica Aplicada da UECE. 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