{"id":12381,"date":"2021-11-23T01:12:30","date_gmt":"2021-11-23T03:12:30","guid":{"rendered":"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/?p=12381"},"modified":"2021-12-08T11:38:31","modified_gmt":"2021-12-08T13:38:31","slug":"incendios-pontes-baixas-e-racismo-algoritmico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/incendios-pontes-baixas-e-racismo-algoritmico\/","title":{"rendered":"Inc\u00eandios, pontes baixas e racismo algor\u00edtmico"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voc\u00ea sabia que um modelo computacional desenvolvido pela famosa <em>think tank<\/em> RAND foi um dos grandes respons\u00e1veis por gigantescos inc\u00eandios que assolaram Nova Iorque nos anos 70?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Trabalho jornal\u00edstico publicado por Joe Flood no livro  \u201c<em><strong>The Fires: How a Computer Formula, Big Ideas, and the Best of Intentions Burned Down New York City and Determined the Future of Cities<\/strong><\/em>\u201d<sup>[1]<\/sup> mostrou como o uso de modelos computacionais para tomada de decis\u00f5es sobre combate ao inc\u00eandio ajudou a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria queimando bairros inteiros.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"580\" height=\"349\" src=\"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/devastacao-incendio-nova-iorque-580x349.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-12392\" srcset=\"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/devastacao-incendio-nova-iorque-580x349.png 580w, https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/devastacao-incendio-nova-iorque-300x181.png 300w, https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/devastacao-incendio-nova-iorque-150x90.png 150w, https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/devastacao-incendio-nova-iorque.png 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sistema foi alimentado por dados enviesados para definir a atribui\u00e7\u00e3o de recursos de preven\u00e7\u00e3o e combate a inc\u00eandios. Dados hist\u00f3ricos como velocidade m\u00e9dia de resposta aos inc\u00eandios e n\u00famero de a\u00e7\u00f5es de preven\u00e7\u00e3o e combate foram modelados para definir quais \u00e1reas da cidade seriam priorizadas. Isto gerou o que hoje conhecemos bem em casos de racismo algor\u00edtmico: o uso de dados hist\u00f3ricos como representativo do que seria a realidade ou o que seria \u201cjusto\u201d na verdade se torna um aceleracionismo das opress\u00f5es. Bairros que eram menos atendidos por bombeiros e pelo poder p\u00fablico geravam menos dados, o que os invisibilizou na constru\u00e7\u00e3o do modelo preditivo &#8211; os deixando com ainda menos recursos de preven\u00e7\u00e3o e consequentemente mais vulner\u00e1veis aos inc\u00eandios. Adicionalmente, decis\u00f5es intencionais e expl\u00edcitas para privilegiar bairros ricos ou onde moravam pessoas influentes eram inclusas no modelo &#8211; e ocultas ao p\u00fablico como se fossem decis\u00f5es t\u00e9cnicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tal modelagem permitiria supostamente a otimiza\u00e7\u00e3o de custos de forma inteligente, uma ladainha frequente levada a cabo por empresas que prop\u00f5em ideais de \u201ccidades inteligentes\u201d. Os inc\u00eandios expulsaram centenas de milhares &#8211; popula\u00e7\u00f5es negras, latinas e imigrantes, sobretudo &#8211; de bairros visados em ideais de transforma\u00e7\u00e3o da cidade levados \u00e0 frente por urbanistas do governo e empresas de v\u00e1rios mercados. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sindicatos, inclusive de bombeiros, e ativistas denunciaram que o governo estava prejudicando sistematicamente bairros negros e porto-riquenhos, mas os modelos e m\u00e9tricas da <em>think tank<\/em> poderiam \u201c<em><strong>prover resmas de jarg\u00f5es t\u00e9cnicos e equa\u00e7\u00f5es complicadas que davam um ar de imparcialidade ao processo<\/strong><\/em>&#8220;<sup>[1]<\/sup>. Dos anos 1970 at\u00e9 hoje, a t\u00e1tica apenas se complexificou. O poder pol\u00edtico e do capital consegue se aproveitar do car\u00e1ter quase m\u00edtico das \u201cnovas tecnologias\u201d para levar \u00e0 frente decis\u00f5es discriminat\u00f3rias disfar\u00e7adas em tecnicalidades. Um expl\u00edcito paralelo pode ser realizado com as problem\u00e1ticas iniciativas de policiamento preditivo, que apenas promovem a <a href=\"https:\/\/twitter.com\/kremerbia\/status\/1442512310904373254\">criminaliza\u00e7\u00e3o da pobreza e de bairros vulner\u00e1veis<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Inc\u00eandios intencionais e criminosos ou a leni\u00eancia em combat\u00ea-los fazem parte da hist\u00f3ria da segrega\u00e7\u00e3o espacial tanto nos territ\u00f3rios rurais quanto nas grandes cidades. A destrui\u00e7\u00e3o de favelas por fogo virou rotina durante ondas de especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria em S\u00e3o Paulo, incluindo casos c\u00e9lebres como a Favela do Moinho. Pesquisadores cruzaram os dados de inc\u00eandios e descobriram correla\u00e7\u00f5es com \u00e1reas em valoriza\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e motiva\u00e7\u00e3o higienista de moradores de classe m\u00e9dia dos entornos<sup>[2]<\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\nhttps:\/\/youtu.be\/WAVqcCdFoos\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em quaisquer decis\u00f5es quanto a tecnologias p\u00fablicas como arquitetura e ordenamento espacial, a distribui\u00e7\u00e3o de poder, autoridade e privil\u00e9gio de uma comunidade ou entre comunidades est\u00e3o em jogo e as decis\u00f5es que as impactam podem ser diferentes a depender do compromisso e capacidade de a\u00e7\u00e3o de quem faz pol\u00edticas p\u00fablicas de investimento ou regula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Pontes<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um caso aned\u00f3tico mais famoso e controverso sobre decis\u00f5es quanto \u00e0s cidades \u00e9 o relatado pelo jornalista Robert Caro, em livro ganhador do pr\u00eamio Pulitzer. Na obra <em><strong>The Power Broker: Robert Moses and the fall of New York<\/strong><\/em>, Caro conta a hist\u00f3ria de um racista orgulhoso de seu \u00f3dio \u2013 Robert Moses. Tal \u00f3dio e afilia\u00e7\u00e3o \u00e0 supremacia branca foi impulsionado por nada menos que 27 bilh\u00f5es de d\u00f3lares \u2013 o valor que ele gerenciou entre as d\u00e9cadas de 1920 e 1950 em cargos de tomada de decis\u00e3o sobre o planejamento urbano de Nova Iorque.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sua decis\u00e3o mais famosa e controversa foi a <strong>ordena\u00e7\u00e3o de pontes baixas o suficiente para supostamente impedir que \u00f4nibus acessassem os parques p\u00fablicos da regi\u00e3o<\/strong><sup>[3]<\/sup>, especificamente para dificultar o acesso da popula\u00e7\u00e3o pobre e negra. H\u00e1 disputas sobre a efic\u00e1cia das pontes para tal objetivo<sup>[4]<\/sup>, mas a simplicidade do exemplo nos lembra sobre como as decis\u00f5es urbanas em todas as cidades tem potencial de criar barreiras adicionais para popula\u00e7\u00f5es que n\u00e3o usam carros \u2013 e tal gera um efeito cumulativo de hierarquizar direito \u00e0 cidade.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"580\" height=\"435\" src=\"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/bridge-low-clearance-580x435.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12382\" srcset=\"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/bridge-low-clearance-580x435.jpg 580w, https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/bridge-low-clearance-300x225.jpg 300w, https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/bridge-low-clearance-150x113.jpg 150w, https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/bridge-low-clearance-768x576.jpg 768w, https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/bridge-low-clearance.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma ponte extremamente baixa pode impedir um \u00f4nibus de atravess\u00e1-la, assim como os grupos da popula\u00e7\u00e3o dependentes dos \u00f4nibus. Ou um centro administrativo municipal localizado nas bordas da cidade n\u00e3o cobertas por transporte p\u00fablico, longe da popula\u00e7\u00e3o pobre, pode desmotivar a cobran\u00e7a de representantes do executivo e legislativo. As realidades materiais expressas em pontes, viadutos, ruas e malhas de transporte podem ser planejadas e ter impactos perenes na qualidade de vida da popula\u00e7\u00e3o de uma cidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O caso das pontes de Moses \u00e9 citado pelo cientista pol\u00edtico Langdon Winner em cl\u00e1ssico artigo sobre propriedades pol\u00edticas de artefatos, tecnologias ou objetos<sup>[5]<\/sup>. As decis\u00f5es intencionais sobre as pontes seriam exemplo de  <strong>um primeiro modo de artefatos possu\u00edrem propriedades pol\u00edticas &#8211; de forma deliberada quando a inven\u00e7\u00e3o, design ou arranjo de um sistema\/tecnologia foi realizado justamente em resposta a uma quest\u00e3o espec\u00edfica &#8216;pol\u00edtica&#8217;<\/strong>. No caso, o projeto segregador de Moses, apoiado pela supremacia branca detentora de capital e for\u00e7a pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por mais chocante que pare\u00e7a, a pr\u00e1tica de segrega\u00e7\u00e3o racialmente planejada foi e \u00e9 comum em incont\u00e1veis cidades no mundo Ocidental. Apesar da controv\u00e9rsia em espec\u00edfico sobre as pontes, por\u00e9m, foi especialmente not\u00e1vel como o per\u00edodo regido por Robert Moses moldou padr\u00f5es de planejamento urbano. Sobre tal influ\u00eancia, Caro aponta que:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>Ao se certificar que os amplos sub\u00farbios, \u00e1reas rurais e \u00e1reas esvaziadas fossem preenchidas por um padr\u00e3o de desenvolvimento espalhado de baixa densidade dependente sobretudo de rodovias ao inv\u00e9s de transporte em massa, garantiu que aquele fluxo continuaria por gera\u00e7\u00f5es, qui\u00e7\u00e1 s\u00e9culos, e que a \u00e1rea metropolitana de New York seria &#8211; talvez para sempre &#8211; uma regi\u00e3o onde o transporte &#8211; ir de um lugar ao outro &#8211; permaneceria uma preocupa\u00e7\u00e3o irritante e exaustiva para 14 milh\u00f5es de habitantes<\/em><sup>[3]<\/sup><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A distribui\u00e7\u00e3o racializada nas cidades brasileiras pode ser explicada tanto pelo ac\u00famulo convergente de milhares de decis\u00f5es e influ\u00eancias \u201cindiretas\u201d da desigualdade e racismo quanto pela implementa\u00e7\u00e3o de tais ideologias de forma expl\u00edcita em cidades ou bairros planejados. Paulo Henrique da Silva Santar\u00e9m escreveu sobre as escalas de segrega\u00e7\u00e3o que foram produzidas em Bras\u00edlia para comp\u00f4-la como um centro planejado rodeado de espa\u00e7os marginais, sendo o transporte coletivo orientado ao controle e domina\u00e7\u00e3o urbana, definindo quem pode ir, onde, quando e como<sup>[6]<\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Comparando a capital de nosso pa\u00eds \u00e0 experi\u00eancia de Soweto, na \u00c1frica do Sul, Guilherme Lemos vez observa a distribui\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 cidade e \u201cquem pode ou n\u00e3o ocupar espa\u00e7os centrais ou a quem s\u00e3o destinados os espa\u00e7os perif\u00e9ricos, em outras palavras, quem deve fazer viver e quem pode deixar morrer atrav\u00e9s do racismo institucional&#8221;<sup>[7]<\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery columns-2 is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"478\" height=\"415\" src=\"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Soweto-remocoes-fotografia-selecionada-por-Guilherme-Lemos.png\" alt=\"\" data-id=\"12387\" data-full-url=\"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Soweto-remocoes-fotografia-selecionada-por-Guilherme-Lemos.png\" data-link=\"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/?attachment_id=12387#main\" class=\"wp-image-12387\" srcset=\"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Soweto-remocoes-fotografia-selecionada-por-Guilherme-Lemos.png 478w, https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Soweto-remocoes-fotografia-selecionada-por-Guilherme-Lemos-300x260.png 300w, https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Soweto-remocoes-fotografia-selecionada-por-Guilherme-Lemos-150x130.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 478px) 100vw, 478px\" \/><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"405\" height=\"399\" src=\"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/BRasilia-montagem-de-barracos-Guilherme-Lemos.png\" alt=\"\" data-id=\"12386\" data-full-url=\"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/BRasilia-montagem-de-barracos-Guilherme-Lemos.png\" data-link=\"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/?attachment_id=12386#main\" class=\"wp-image-12386\" srcset=\"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/BRasilia-montagem-de-barracos-Guilherme-Lemos.png 405w, https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/BRasilia-montagem-de-barracos-Guilherme-Lemos-300x296.png 300w, https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/BRasilia-montagem-de-barracos-Guilherme-Lemos-150x148.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 405px) 100vw, 405px\" \/><\/figure><\/li><\/ul><figcaption class=\"blocks-gallery-caption\"><sub>[<em>Na esquerda: remo\u00e7\u00f5es em Sophiatown, fam\u00edlias transferidas para Soweto em 1955; Na direita: montagem de barracos de fam\u00edlias removidas do entorno de Bras\u00edlia em 1971. Fotos selecionadas por Guilherme Lemos (ver refer\u00eancias)<\/em>]<\/sub><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Falando de arquitetura, as pontes de Moses foram desenhadas por ordens documentadas e explicitamente racistas, mas boa parte da arquitetura ocidental traz barreiras gigantescas vistas como \u201cn\u00e3o-intencionais\u201d a pedestres ou cadeirantes, por exemplo. As rela\u00e7\u00f5es entre os grupos da sociedade atrav\u00e9s do balan\u00e7o entre autoridade cient\u00edfica, representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, inven\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e, enfim, direcionamento a lucro ou bem-estar social influenciam diferencialmente o impacto das tecnologias, objetos e estruturas nas cidades. Independente da inten\u00e7\u00e3o de atores individuais, &nbsp;seus impactos em grupos espec\u00edficos s\u00e3o efetivos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Racismo algor\u00edtmico e reconhecimento facial nas cidades<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro modo, para Langdon Winner, de <strong>artefatos conterem propriedades pol\u00edticas seria quando estas propriedades s\u00e3o inerentes<\/strong>. Essa percep\u00e7\u00e3o \u00e9 mais controversa, mas de acordo com este olhar &#8220;a<em> ado\u00e7\u00e3o de um determinado sistema t\u00e9cnico traz inevitavelmente consigo condi\u00e7\u00f5es para rela\u00e7\u00f5es humanas que possuem uma carga pol\u00edtica distintiva &#8211; por exemplo, centralizadora ou descentralizadora, promotora ou desencorajadora da igualdade, repressora ou libertadora<\/em>&#8220;<sup>[5]<\/sup>. A partir de Engels, Winner discorreu sobre a produ\u00e7\u00e3o fabril e a necessidade de coordena\u00e7\u00e3o em tabelas fixas de hor\u00e1rio para a produ\u00e7\u00e3o disciplinada. Em grandes f\u00e1bricas na virada do s\u00e9culo XIX ao XX, os trabalhadores seriam subordinados \u00e0 l\u00f3gica maqu\u00ednica da produ\u00e7\u00e3o, que seria desp\u00f3tica em si mesma?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando falamos de <strong>reconhecimento facial no espa\u00e7o p\u00fablico<\/strong>, temos talvez outro \u00f3timo exemplo da complexidade dos agenciamentos tecnopol\u00edticos. Em torno do mundo, a tecnologia tem sido aplicada em contextos de viol\u00eancia estatal como Brasil (nos diferentes estados da <a href=\"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/o-horror-do-reconhecimento-facial-na-bahia-onde-poderia-ser-diferente\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Bahia<\/a>, <a href=\"https:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/2019\/06\/11\/o-governador-witzel-e-as-caras-ocultas-no-milionario-negocio-de-reconhecimento-facial\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Rio de Janeiro<\/a>, <a href=\"https:\/\/idec.org.br\/noticia\/metro-de-sp-nao-tem-garantia-de-seguranca-de-dados-de-reconhecimento-facial\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">S\u00e3o Paulo<\/a> e Amazonas por exemplo), Estados Unidos, Inglaterra, Canad\u00e1 ou <a href=\"https:\/\/epocanegocios.globo.com\/Tecnologia\/noticia\/2021\/08\/taliba-pode-usar-tecnologia-para-identificar-pessoas-que-colaboram-com-os-eua.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Afeganist\u00e3o<\/a> com diferentes n\u00edveis de permissividade mediados pela rela\u00e7\u00e3o entre racismo, classismo e vigilantismo. No potente trabalho <em>Direito \u00e0 (Priva)Cidade: Design Discriminat\u00f3rio, Racismo Algor\u00edtmico e Vigil\u00e2ncia Criminal no Distrito Federal<\/em><sup>[8]<\/sup><em>, <\/em><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/profile\/Elizandra-Salomao-Nascimento\" target=\"_blank\">Elizandra Salom\u00e3o<\/a> realizou an\u00e1lise sobre a implementa\u00e7\u00e3o do reconhecimento facial na capital do pa\u00eds. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Concentradas em terminais rodovi\u00e1rios, esta\u00e7\u00f5es de metr\u00f4, centros comerciais e espa\u00e7os de grande circula\u00e7\u00e3o de pessoas, o Reconhecimento Facial tem aplica\u00e7\u00e3o permitida legalmente para persecu\u00e7\u00e3o de suspeitos desde 10 de novembro de 2020, quando da promulga\u00e7\u00e3o da Lei Distrital n\u00ba 6.712. Mas o uso da RF j\u00e1 havia sido implementado no sistema de Passe Livre, testado primeiramente no 0.110, em 2018<sup>[9]<\/sup>, \u00f4nibus que faz o trajeto Rodovi\u00e1ria Central \u2013 Universidade de Bras\u00edlia, permitindo aos estudantes perif\u00e9ricos a baldea\u00e7\u00e3o entre a Esta\u00e7\u00e3o Central do Metr\u00f4\/linhas de \u00f4nibus que ligam as sat\u00e9lites ao centro, ao transporte frequentemente superlotado que circula na UnB. Ir\u00f4nica a implementa\u00e7\u00e3o de tal pol\u00edtica 1 ano ap\u00f3s quase 30% dos estudantes daquela Universidade se tornarem ingressos por cotas para escolas p\u00fablicas<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se tanto a vis\u00e3o de urbanismo de Robert Moses como a &#8220;limpeza com fogo&#8221; impulsionada por modelos computacionais em Nova Iorque inspiraram t\u00e9cnicas de segrega\u00e7\u00e3o, que futuros trazem o reconhecimento facial se for normalizado? A viol\u00eancia contra popula\u00e7\u00f5es negras enquanto laborat\u00f3rio para projetos autorit\u00e1rios totalizadores se desdobra com potencial de velocidade, opacidade e escala no reconhecimento facial. O <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/destaques\/posts\/racismo-algoritmico-linha-do-tempo\/\" target=\"_blank\">racismo algor\u00edtmico<\/a> permite que a sociedade seja leniente com dados enviesados, modelos equivocados, infra\u00e7\u00e3o de pilares de administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica e objetivos de implementa\u00e7\u00e3o que infringem direitos humanos. Elizandra Salom\u00e3o fez uma ponte similar \u00e0 esta ideia ao explicar como<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>avan\u00e7os no sentido da vigil\u00e2ncia estatal contra a popula\u00e7\u00e3o do Distrito Federal j\u00e1 fazem parte da rotina nas cidades sat\u00e9lites h\u00e1 muito tempo. Em <em>Branco Sai, Preto Fica<\/em>, um DF futurista \u00e9 retratado como que numa profecia, na exist\u00eancia de um documento oficial como forma de limitar o acesso ao Plano Piloto: uma autoriza\u00e7\u00e3o legal para adentrar a cidade. A fic\u00e7\u00e3o ceilandense projetava essa ideia em 20 anos no futuro, mas ela j\u00e1 se pratica na forma das c\u00e2meras de vigil\u00e2ncia estrategicamente vinculadas a softwares de Reconhecimento Facial Autom\u00e1tico.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em sociedades neoliberais que privilegiam o lucro sobre o bem-estar social, a capacidade de a\u00e7\u00e3o dos eventuais bons gestores p\u00fablicos ou <em>experts<\/em> competentes \u00e9 limitada por interesses corporativos e de outros grupos. Em torno do mundo, lobby corporativo e <em>think tanks<\/em> tentam normalizar e diluir os horrores da explora\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de re-enquadramentos discursivos como &#8216;govtech&#8217;, plataformiza\u00e7\u00e3o e diversos tecnosolucionismos. Na persuas\u00e3o pol\u00edtica, <a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/a-servico-do-punitivismo-do-policiamento-preditivo-e-do-racismo-estrutural\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">o vigilantismo e punitivismo<\/a> rende ganhos pol\u00edticos para postulantes seja ao legislativo seja ao executivo. Mas ainda h\u00e1 tempo para superarmos o tecnosolucionismo e apagarmos os inc\u00eandios &#8211; metaf\u00f3ricos e literais &#8211; que corroem as democracias.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[1] Joe Flood, <em>The Fires: How a Computer Formula, Big Ideas, and the Best of Intentions Burned Down New York City and Determined the Future of Cities<\/em>, Nova Iorque (EUA): Riverhead Books, 2010, pos. 3128.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[2] Rodrigo Dantas Bastos, <em>Na rota do fogo: especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria em S\u00e3o Paulo<\/em>, Tese de Doutorado apresentada ao Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2018.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[3] Robert A. Caro, <em>The power broker<\/em>: Robert Moses and the fall of New York, Nova Iorque: Vintage Books, 1974.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[4] Steve Woolgar; Geoff Cooper, \u201cDo Artefacts Have Ambivalence: Moses&#8217; Bridges, Winner&#8217;s Bridges and other Urban Legends in S&amp;TS\u201d, <em>Social studies of science<\/em>, v. 29, n. 3, 1999, pp. 433-449.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[5] Langdon Winner, \u201cDo artifacts have politics?\u201d. <em>Daedalus<\/em>, p. 121-136, 1980<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[6] Paulo Henrique da Silva Santar\u00e9m, <em>A Cidade Bras\u00edlia (dfe): conflitos sociais e espaciais significados na ra\u00e7a<\/em>, disserta\u00e7\u00e3o realizada na P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Antropologia Social da Universidade de Bras\u00edlia, Bras\u00edlia \u2013 DF, 2013.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[7] Guilherme O. Lemos, &#8220;De Soweto \u00e0 Ceil\u00e2ndia: siglas de segrega\u00e7\u00e3o racial&#8221;, <em>Parano\u00e1: Cadernos de Arquitetura e Urbanismo<\/em>, n. 18, 2017, p.12.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[8] Elizandra Salom\u00e3o.<em> Direito \u00e0 (Priva)Cidade: Design Discriminat\u00f3rio, Racismo Algor\u00edtmico e Vigil\u00e2ncia Criminal no Distrito Federal<\/em>. Trabalho de Conclus\u00e3o de Curso de Gradua\u00e7\u00e3o. Faculdade de Direito &#8211; Universidade de Bras\u00edlia, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[9] Elizandra Salom\u00e3o. <em>Direito \u00e0 (Priva)Cidade: da c\u00e2mera na catraca \u00e0s pris\u00f5es com uso do Reconhecimento Facial \u2013 Vigil\u00e2ncia e Prote\u00e7\u00e3o de Dados Pessoais no Distrito Federal<\/em>. XI Congresso Brasileiro de Pesquisadores\/as Negros\/as, Curitiba, 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C<strong>omo citar este texto? <\/strong><br>SILVA, Tarc\u00edzio. <strong>Inc\u00eandios, pontes baixas e racismo algor\u00edtmico<\/strong>. Blog do Tarcizio Silva, 23 nov. 2021. Dispon\u00edvel em:&lt;https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog&gt;. Acesso em: dia, m\u00eas, ano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea sabia que um modelo computacional desenvolvido pela famosa think tank RAND foi um dos grandes respons\u00e1veis por gigantescos inc\u00eandios que assolaram Nova Iorque nos anos 70? 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