{"id":12179,"date":"2021-06-10T17:58:08","date_gmt":"2021-06-10T20:58:08","guid":{"rendered":"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/?p=12179"},"modified":"2021-06-10T17:58:11","modified_gmt":"2021-06-10T20:58:11","slug":"colonialismo-de-dados-e-fruto-e-arma-da-supremacia-branca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/colonialismo-de-dados-e-fruto-e-arma-da-supremacia-branca\/","title":{"rendered":"Colonialismo de dados \u00e9 fruto e arma da supremacia branca"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span style=\"color:#959292\" class=\"has-inline-color\">[O texto abaixo \u00e9 a adapta\u00e7\u00e3o de respostas a uma entrevista para reportagem sobre colonialismo de dados. Como habitual, todas men\u00e7\u00f5es \u00e0 Europa, branquitude e supremacia branca nas respostas foram suprimidas da reportagem final. Testemunhamos em torno do mundo um apagamento do colonialismo &#8220;hist\u00f3rico&#8221; na formata\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es para emerg\u00eancia das <em>big tech<\/em> e tamb\u00e9m o apagamento de como as colonialidades do poder, do ser e do saber se relacionam com tecnologia na distribui\u00e7\u00e3o de hierarquias de humanidade nas domina\u00e7\u00f5es globais.]<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pr\u00e1ticas de extra\u00e7\u00e3o e processamento de dados reproduzem fluxos de apropria\u00e7\u00e3o de capital e epistemes t\u00edpicas de sanhas coloniais que moldaram o mundo, em especial em torno do Atl\u00e2ntico. O dom\u00ednio de meios informacionais de circula\u00e7\u00e3o de dados \u00e9 realizado atrav\u00e9s da plataformiza\u00e7\u00e3o de mais e mais esferas sociais atrav\u00e9s da datifica\u00e7\u00e3o. Comunica\u00e7\u00e3o e esfera p\u00fablica centrada nas m\u00eddias sociais, trocas financeiras de servi\u00e7os centradas em aplicativos mobile e mesmo trocas afetivo-sexuais s\u00e3o registradas e monetizadas em softwares dominados por grupos dominantes que tem a capacidade de selecionar, criar, adquirir ou copiar servi\u00e7os de startups que se destacam nos neg\u00f3cios da tecnologia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando o capital financeiro global consegue realizar <em>dumping<\/em> em pa\u00edses dominados pelas pot\u00eancias europeias e EUA, mercados e ind\u00fastrias locais s\u00e3o fragilizados gra\u00e7as ao controle das trocas realizadas nas plataformas. Dos aplicativos de transporte at\u00e9 tecnologias biom\u00e9tricas, passando por plataformas de m\u00eddias sociais, o colonialismo de dados reproduz a domina\u00e7\u00e3o dos fluxos e trocas em favor dos grandes centros e de grupos demogr\u00e1ficos espec\u00edficos quanto a ra\u00e7a, classe e g\u00eanero. O trabalho gratuito ou precarizado de centenas de milh\u00f5es em torno do mundo desemboca, ao fim e ao cabo, na concentra\u00e7\u00e3o de recursos dos neg\u00f3cios bilion\u00e1rios da tecnologia que se reinventaram para se apresentar a p\u00fablico como uma mir\u00edade de milhares de marcas ou, mesmo, pela fic\u00e7\u00e3o da \u201ceconomia compartilhada\u201d que oculta tal concentra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Levando os fluxos de interesse em conta, com certeza a articula\u00e7\u00e3o pela produ\u00e7\u00e3o intelectual e pr\u00e1xis s\u00f3cio-pol\u00edtica descolonial \u00e9 uma necessidade para o avan\u00e7o das ci\u00eancias e soberania epistemol\u00f3gica do pa\u00eds, mas em grande medida o fluxo de ideias sobre algumas chaves te\u00f3rico-conceituais em torno do colonialismo de dados reproduz a dire\u00e7\u00e3o Norte-Sul. Uma agenda de pesquisa brasileira que se coloca voluntariamente como \u201c\u00e0 margem\u201d dos centros passa a reproduzir um olhar euroc\u00eantrico sobre sua produ\u00e7\u00e3o. Ao consumir de forma assim\u00e9trica as produ\u00e7\u00f5es europeias sobre caminhos descoloniais ou, ainda, abarcar a ideia de um p\u00f3s-colonial, corremos o risco de produzir, literalmente, para \u201cingl\u00eas ver\u201d. Acredito na possibilidade de intensifica\u00e7\u00e3o de articula\u00e7\u00f5es Sul-Sul que promovam a conex\u00e3o do Brasil com a diversidade da Am\u00e9rica Latina e da \u00c1frica para conex\u00f5es intelectuais que desenvolvam imagin\u00e1rios que n\u00e3o busquem a chancela euroc\u00eantrica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Minha pesquisa atual especificamente gira em torno do conceito de racismo algor\u00edtmico, que o modo pelo qual a disposi\u00e7\u00e3o de tecnologias e imagin\u00e1rios sociot\u00e9cnicos em um mundo moldado pela supremacia branca fortalece a ordena\u00e7\u00e3o racializada de epistemes, recursos, espa\u00e7o e viol\u00eancia em detrimento de grupos racializados pela branquitude detentora das epistemologias e capitais hegem\u00f4nicos que moldam o horizonte de a\u00e7\u00f5es da intelig\u00eancia artificial em sistemas algor\u00edtmicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As pr\u00e1ticas em torno da base de imagens etiquetadas ImageNet formam um dos exemplos mais loquazes sobre como o colonialismo de dados molda pr\u00e1ticas e modelos que ganham incrementalmente camadas de opacidade at\u00e9 o ponto de serem tomados como naturais e promovem algoritmicamente o racismo. Esta base de imagens possui milh\u00f5es de fotografias extra\u00eddas sem consentimento atrav\u00e9s de <em>web scraping <\/em>em buscadores. Foi etiquetada \u2013 ou seja, marcada com categorias para permitir o aprendizado de m\u00e1quina \u2013 sobretudo atrav\u00e9s de trabalho do modelo <em>\u201ccrowdsourced\u201d<\/em> realizado por profissionais precarizados em pa\u00edses como Filipinas e \u00cdndia. As imagens eram provenientes em sua absoluta maioria de pa\u00edses europeus e EUA, hipervisibilizando pessoas e ambientes destes pa\u00edses e invisibilizando est\u00e9ticas do Sul Global. A partir deste treinamento de m\u00e1quina, competi\u00e7\u00f5es de constru\u00e7\u00e3o de modelos algor\u00edtmicos para identifica\u00e7\u00e3o de imagens foram realizados por centros cient\u00edficos dos pa\u00edses afluentes. Como resultado, isto significou a reprodu\u00e7\u00e3o opaca de modelos algor\u00edtmicos de interpreta\u00e7\u00e3o de imagens em vis\u00e3o computacional que apaga ou interpreta erroneamente pessoas e ambientes n\u00e3o-euroc\u00eantricos ao mesmo tempo que transferiu trabalho e recursos reproduz\u00edveis e escal\u00e1veis para os centros afluentes da tecnologia global.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pr\u00f3pria exist\u00eancia de um oligop\u00f3lio tecnol\u00f3gico que domina grande fatia do tempo, produ\u00e7\u00e3o intelectual e comunicacional dos cidad\u00e3os e o valor financeiro decorrente \u00e9 um empecilho inerente ao uso construtivo da internet para o bem estar social. Avan\u00e7a a discuss\u00e3o sobre a necessidade de desmembrar oligop\u00f3lios do chamado FAANG \u2013 Facebook, Amazon, Apple, Netflix e Alphabet (a detentora do Google). Cada uma dessas corpora\u00e7\u00f5es possui amplos conglomerados de empresas em setores como comunica\u00e7\u00e3o, m\u00eddia, intelig\u00eancia artificial, varejo, infraestrutura e muitos outros, podendo cruzar dados de cada a seu bel-prazer e desenvolver modelos de inger\u00eancia nas esferas sociais, econ\u00f4micas e pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste sentido, vimos na \u00faltima d\u00e9cada como tal oligop\u00f3lio se posicionou em um local privilegiado para interpreta\u00e7\u00e3o da realidade social atrav\u00e9s da promo\u00e7\u00e3o da ideologia de mensura\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de <em>big data<\/em>. Com centenas de cientistas, contratados a partir das melhores universidades do mundo, engajados em pesquisa para fins privados, grupos como Facebook e Alphabet acabaram por ter capacidade de interfer\u00eancia no mundo maior do que a de muitos Estados nacionais. Quando falamos de pesquisa cient\u00edfica, temos um risco de dilui\u00e7\u00e3o do potencial transformador e investigativo de projetos possibilitados por <em>grants<\/em> financeiros ou acesso apenas a dados que as plataformas julgam confort\u00e1vel compartilhar. Precisamos defender com todas as for\u00e7as a independ\u00eancia das universidades a esta inger\u00eancia privada e alheia aos interesses nacionais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[O texto abaixo \u00e9 a adapta\u00e7\u00e3o de respostas a uma entrevista para reportagem sobre colonialismo de dados. Como habitual, todas men\u00e7\u00f5es \u00e0 Europa, branquitude e supremacia branca nas respostas foram suprimidas da reportagem final. 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