{"id":11873,"date":"2021-01-05T11:42:37","date_gmt":"2021-01-05T13:42:37","guid":{"rendered":"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/?p=11873"},"modified":"2021-01-05T11:49:26","modified_gmt":"2021-01-05T13:49:26","slug":"humor-racista-e-resistencia-na-midia-social-brasileira-entrevista-com-luiz-valerio-p-trindade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/humor-racista-e-resistencia-na-midia-social-brasileira-entrevista-com-luiz-valerio-p-trindade\/","title":{"rendered":"Humor racista e resist\u00eancia na m\u00eddia social brasileira &#8211; entrevista com Luiz Val\u00e9rio P. Trindade"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O livro <em><strong><a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"No Laughing Matter: Race Joking and Resistance in Brazilian Social Media (opens in a new tab)\" href=\"https:\/\/vernonpress.com\/book\/1195\" target=\"_blank\">No Laughing Matter: Race Joking and Resistance in Brazilian Social Media<\/a><\/strong> <\/em>foi recentemente lan\u00e7ado por <a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Luiz Val\u00e9rio P. Trindade (opens in a new tab)\" href=\"https:\/\/soton.academia.edu\/LuizValerioTrindade\" target=\"_blank\">Luiz Val\u00e9rio P. Trindade<\/a>, doutor pela Univ. de Southampton, pela editora Vernon Press.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"No Laughing Matter: Race Joking and Resistance in Brazilian Social Media | Trailer de Livro\" width=\"630\" height=\"354\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/hzFyFG2qKAQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pesquisa investiga o fen\u00f4meno social da constru\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o de discursos racistas coloniais contra mulheres negras em ascen\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do humor pejorativo nas m\u00eddias sociais. No livro, Luiz Val\u00e9rio P. Trindade adota numa perspectiva inovadora, explorando de forma complexa as camadas do que \u00e9 visto como humor e revela as camadas das ideologias coloniais que permanecem no Brasil. A publica\u00e7\u00e3o do livro \u00e9 de interesse especial pois vai contra ideias ainda promovidas de excepcionalismo e democracia racial no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tive o imenso prazer e honra de escrever o pref\u00e1cio, que pode ser <a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"baixado com a introdu\u00e7\u00e3o e sum\u00e1rio (opens in a new tab)\" href=\"https:\/\/vernonpress.com\/file\/12381\/d9c367fa33b60f04a13bddf49aa9326a\/1594987081.pdf\" target=\"_blank\">baixado com a introdu\u00e7\u00e3o e sum\u00e1rio<\/a>. Quem conferiu nossa \u00faltima colet\u00e2nea teve a oportunidade de ler o Luiz Val\u00e9rio P. Trindade em portugu\u00eas atrav\u00e9s do cap\u00edtulo <em><a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"M\u00eddias Sociais e a naturaliza\u00e7\u00e3o de discursos racistas no Brasil (opens in a new tab)\" href=\"http:\/\/bit.ly\/ComunidadesDigitais\" target=\"_blank\">M\u00eddias Sociais e a naturaliza\u00e7\u00e3o de discursos racistas no Brasil<\/a><\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Gentilmente, o prof. Luiz Val\u00e9rio P. Trindade cedeu uma entrevista exclusiva para o blog! Leiam a seguir as respostas \u00e0 quest\u00f5es desenhadas especialmente para c\u00e1:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>Tarc\u00edzio Silva:<\/em> Como o humor racista pode ser visto como uma performance da branquitude nas m\u00eddias sociais?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Luiz Val\u00e9rio P. Trindade<\/em>: A disciplina estudo cr\u00edtico de humor ainda \u00e9 relativamente incipiente no Brasil e mais ainda no que diz respeito ao estudo do humor de cunho racista, enquanto nos EUA e Inglaterra se estuda este tema deste os anos 1960-70. J\u00e1 no Brasil, Os principais trabalhos nesta \u00e1rea surgem a partir dos anos 1990 e tem adquirido mais corpo nos \u00faltimos 10 anos aproximadamente; e minha pesquisa de doutorado se insere neste cen\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Contudo, um aspecto comum nos estudos desta disciplina consiste na caracter\u00edstica amb\u00edgua do humor de cunho depreciativo. Ou seja, como o humor consiste em uma forma de comunica\u00e7\u00e3o socialmente aceita em grande parte das intera\u00e7\u00f5es sociais, isso permite que muitas pessoas transmitam ideologias racistas e preconceituosas sem parecer flagrantemente racistas, xen\u00f3fobas, intolerantes, etc. Afinal de contas, de acordo com seu ponto de vista, tudo n\u00e3o passa de uma \u2018brincadeirinha\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sendo assim, para dar um exemplo ilustrativo, quando um humorista usa o Twitter para se referir a uma parlamentar negra e nordestina com uma piada do tipo \u201cpensei que fosse a tia do caf\u00e9\u201d, ele est\u00e1 transmitindo uma s\u00e9rie de ideologias preconceituosas. Por\u00e9m, como seu tuite provoca o riso coletivo, nem todo mundo consegue perceber o que est\u00e1 embutido ali. Acontece que este tipo de piada embute uma ideia de deslegitimiza\u00e7\u00e3o do papel social exercido por aquela mulher negra (Como assim? Ela \u00e9 uma parlamentar?). Transmite tamb\u00e9m um estranhamento com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua presen\u00e7a naquele espa\u00e7o social historicamente dominado por homens brancos de classe m\u00e9dia. Por fim, traz tamb\u00e9m um preconceito com rela\u00e7\u00e3o ao seu lugar de origem. Ou seja, por ser uma mulher nordestina, \u00e9 esperado que ela se engaje em profiss\u00f5es de pouca qualifica\u00e7\u00e3o formal como, por exemplo, copeira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Portanto, todos estes aspectos representam facetas da ideologia do branqueamento profundamente arraigadas no imagin\u00e1rio coletivo brasileiro, a qual normaliza uma s\u00e9rie de atributos positivos a pessoas brancas e, em contrapartida, negativos e subalternos a pessoas negras. E o humor racista permite que se reforce e disseminem estas percep\u00e7\u00f5es de forma aberta nas redes sociais, por\u00e9m, geralmente livre de cr\u00edticas j\u00e1 que s\u00e3o encaradas como \u2018brincadeirinhas\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>TS:<\/strong> <strong>As  categorias encadeadoras de movimenta\u00e7\u00f5es racistas online que voc\u00ea  descobriu est\u00e3o em sua maioria ligadas a marcadores de distin\u00e7\u00e3o  exibidos nas m\u00eddias sociais. Essa descoberta parece ser outro indicador  da fragilidade do conceito de \u201cfiltros bolha\u201d, ainda t\u00e3o em voga?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LVPT: N\u00e3o  vejo tanto o fen\u00f4meno da constru\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o de discursos  racistas nas redes sociais sob o prisma de \u2018filtros bolha\u2019 como cunhado  por Eli Pariser. Na verdade, o que observo em meus estudos \u00e9 a  manifesta\u00e7\u00e3o do que se chama de \u2018c\u00e2mara de eco\u2019, no sentido de que a  dissemina\u00e7\u00e3o de conte\u00fados racistas e depreciativos atrai in\u00fameras  pessoas com pensamentos e ideologias convergentes e, por consequ\u00eancia,  as redes sociais facilitam a amplifica\u00e7\u00e3o do alcance de discursos desta  natureza. Como esta tecnologia digital atua atrav\u00e9s de poderosas  conex\u00f5es entre seus usu\u00e1rios (os chamados n\u00f3s das redes sociais) que  crescem em propor\u00e7\u00f5es exponenciais, isso contribui para a r\u00e1pida e  instant\u00e2nea dissemina\u00e7\u00e3o do conte\u00fado (ou como se diz, popularmente, a  viraliza\u00e7\u00e3o). <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>TS:<\/strong> <strong>Sua pesquisa inspirou movimenta\u00e7\u00f5es de cobran\u00e7a \u00e0s plataformas de m\u00eddias sociais no Brasil. Inclusive sobre o Twitter, onde o discurso de \u00f3dio racista motivou relat\u00f3rios at\u00e9 da Anistia Internacional. Como voc\u00ea v\u00ea as particularidades do ambiente em rela\u00e7\u00e3o ao Facebook?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"> LVPT:  Naturalmente que o Twitter e o Facebook possuem suas especificidades no que diz respeito \u00e0 experi\u00eancia de intera\u00e7\u00e3o do usu\u00e1rio com a plataforma. No entanto, em se tratando de constru\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o de discursos racistas, n\u00e3o vejo muitas diferen\u00e7as substanciais entre elas. Isso porque ambas capacitam os usu\u00e1rios defensores de ideologias supremacistas, xen\u00f3fobas, etc. disseminarem conte\u00fados desta natureza de uma forma instant\u00e2nea e ampla.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, \u00e9 importante salientar tamb\u00e9m que, invariavelmente, este tipo de conte\u00fado transita atrav\u00e9s de diferentes plataformas. Ou seja, um usu\u00e1rio pode come\u00e7ar um ataque racista contra algu\u00e9m, por exemplo, no Facebook e, muito rapidamente, aquele mesmo conte\u00fado pode estar circulando pelo Twitter, Instagram, WhatsApp e assim por diante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por fim, meus estudos revelaram tamb\u00e9m que conte\u00fados de cunho racistas podem, eventualmente, continuar a engajar usu\u00e1rios (tanto novos como recorrentes) por at\u00e9 tr\u00eas anos ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o original do post. Em outras palavras, discursos racistas transmitidos pelas redes sociais n\u00e3o se tornam \u2018jornal do dia anterior\u2019, o qual se utiliza somente para embrulhar peixe na feira. Pelo contr\u00e1rio, sua \u2018vida \u00fatil\u2019, por assim dizer, pode ser muito longa. A consequ\u00eancia desse fen\u00f4meno \u00e9 a amplifica\u00e7\u00e3o do impacto negativo daquele conte\u00fado racista e depreciativo na vida da pessoa que foi objeto do ataque (mesmo que ele tenha sido proferido na forma de piada).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>TS: Considerando que a interface entre racismo\/antirracismo, internet e tecnologias \u00e9 um universo de pesquisa ainda &#8211; relativamente &#8211;  pouco explorado pela perspectiva negra, quais boas quest\u00f5es voc\u00ea recomendaria para os pesquisadores em forma\u00e7\u00e3o que acompanham o blog?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LVPT: Bem, as redes sociais ainda constituem uma tecnologia digital relativamente nova com menos de duas d\u00e9cadas de exist\u00eancia (ex.: o Facebook foi fundado em 2004 e o Twitter em 2006). Sendo assim, o campo de possibilidades de estudos \u00e9 ainda bastante vasto e repleto de possibilidades. Em termos metodol\u00f3gicos, por exemplo, considero importante o desenvolvimento de mais estudos qualitativos que nos ajudem a compreender por que os fen\u00f4menos ocorrem de determinada forma. O que est\u00e1 embutido neles. Quais as motiva\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas por tr\u00e1s deles. N\u00e3o quero com isso descartar ou minimizar a import\u00e2ncia e validade de estudos de cunho quantitativo, mas sim sugerir uma abordagem que nem sempre tem sido suficientemente explorada. Recentemente tive conhecimento tamb\u00e9m de um novo campo de estudo chamado \u2018black Twitter\u2019 que me pareceu muito interessante e promissor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por fim, sugiro tamb\u00e9m que procurem explorar o fen\u00f4meno dos chamados bots nas redes sociais e seu impacto em regimes democr\u00e1ticos. Este tema veio \u00e0 tona com muita for\u00e7a nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais no Brasil em 2018 e tamb\u00e9m nos EUA. J\u00e1 foram publicados estudos muito interessantes a este respeito, mas, at\u00e9 onde sei, a maioria em ingl\u00eas. Portanto, ainda h\u00e1 bastante espe\u00e7o para publica\u00e7\u00f5es e estudos em portugu\u00eas explorando o fen\u00f4meno sob o contexto\/realidade brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acompanhem o trabalho do prof. Luiz Val\u00e9rio P. Trindade no <a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Academia.edu (opens in a new tab)\" href=\"https:\/\/soton.academia.edu\/LuizValerioTrindade\" target=\"_blank\">Academia.edu<\/a>, <a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"YouTube (opens in a new tab)\" href=\"https:\/\/www.youtube.com\/channel\/UCifanwfEqo6HCxS2ExouQfA\" target=\"_blank\">YouTube<\/a> e <a href=\"https:\/\/scholar.google.com\/citations?user=AmryToMAAAAJ&amp;hl=pt-BR&amp;oi=sra\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Scholar (opens in a new tab)\">Scholar<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O livro No Laughing Matter: Race Joking and Resistance in Brazilian Social Media foi recentemente lan\u00e7ado por Luiz Val\u00e9rio P. Trindade, doutor pela Univ. de Southampton, pela editora Vernon Press. 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