{"id":11650,"date":"2020-03-25T16:39:37","date_gmt":"2020-03-25T19:39:37","guid":{"rendered":"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/?p=11650"},"modified":"2020-03-25T17:51:50","modified_gmt":"2020-03-25T20:51:50","slug":"o-que-e-blackfishing-transracialismo-parasita-por-dinheiro-nas-midias-sociais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/o-que-e-blackfishing-transracialismo-parasita-por-dinheiro-nas-midias-sociais\/","title":{"rendered":"O que \u00e9 blackfishing? Transracialismo parasita por dinheiro nas m\u00eddias sociais"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Blackfishing<\/em> \u00e9 uma pr\u00e1tica quando algu\u00e9m finge ser negro, geralmente realizada por algu\u00e9m branco, para buscar algum benef\u00edcio financeiro, afetivo, social ou pol\u00edtico. Os pesquisadores Ronaldo Ferreira de Ara\u00fajo e Jobson da Silva J\u00fanior descreveram como:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p> Na pr\u00e1tica do <em>blackfishing<\/em> vemos pessoas n\u00e3o-negras que se pintam de preto, n\u00e3o como forma de resist\u00eancia ou prote\u00e7\u00e3o contra as formas mais brutais de viol\u00eancia, mas em benef\u00edcio pr\u00f3prio pela apropria\u00e7\u00e3o de elementos puramente est\u00e9ticos que desrespeitam toda a cultura negra assim como toda a luta da popula\u00e7\u00e3o negra, uma evidente aproxima\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas de racismo recreativo, agora monetizado.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um exemplo que ganhou popularidade mundial foi a da &#8220;ativista&#8221; Rachel Dolezal, que simulou afilia\u00e7\u00e3o \u00e9tnico-racial e cultural \u00e0 negritude nos Estados Unidos para galar um posto em importante organiza\u00e7\u00e3o, a NAACP:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"877\" src=\"https:\/\/i1.wp.com\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/rachel-dolezal.jpg?fit=580%2C497&amp;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-11651\" srcset=\"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/rachel-dolezal.jpg 1024w, https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/rachel-dolezal-300x257.jpg 300w, https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/rachel-dolezal-580x497.jpg 580w, https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/rachel-dolezal-150x128.jpg 150w, https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/rachel-dolezal-768x658.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas m\u00eddias sociais, o fen\u00f4meno se intensificou. Com as conquistas econ\u00f4micas das popula\u00e7\u00f5es afrodiasp\u00f3ricas no Brasil e nos EUA e a ocupa\u00e7\u00e3o de cargos em organiza\u00e7\u00f5es da ind\u00fastria cultural <em>mainstream<\/em>, o espa\u00e7o para artistas e influenciadores negros aumentou. Com isto, tamb\u00e9m houve aumento da apropria\u00e7\u00e3o cultural e quase epid\u00e9rmica.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-media-text alignwide\" style=\"grid-template-columns:39% auto\"><figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"392\" height=\"580\" src=\"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/Capa-comunidades-algoritmos-ativismos-olhares-afrodiasporicos-392x580.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-11618\" srcset=\"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/Capa-comunidades-algoritmos-ativismos-olhares-afrodiasporicos-392x580.jpg 392w, https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/Capa-comunidades-algoritmos-ativismos-olhares-afrodiasporicos-203x300.jpg 203w, https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/Capa-comunidades-algoritmos-ativismos-olhares-afrodiasporicos-101x150.jpg 101w, https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/Capa-comunidades-algoritmos-ativismos-olhares-afrodiasporicos.jpg 572w\" sizes=\"auto, (max-width: 392px) 100vw, 392px\" \/><\/figure><div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O texto &#8220;<strong><em><a href=\"http:\/\/www.literarua.com.br\/livro\/olhares-afrodiasporicos\">Blackfishing e a transforma\u00e7\u00e3o transracial monetizada<\/a><\/em><\/strong>&#8221; \u00e9 um cap\u00edtulo escrito por Ronaldo Ara\u00fajo e Jobson da Silva J\u00fanior que explora este fen\u00f4meno a partir dos estudos de informa\u00e7\u00e3o, em perspectiva cr\u00edtica e emp\u00edrica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"> Eles apontam, a partir de Melissa Villa-Nicholas e Latesha Velez, que &#8220;<em>centralizar os estudos de Ci\u00eancia da Informa\u00e7\u00e3o (CI) contextualizando-os em uma an\u00e1lise de como a ra\u00e7a e o racismo afetam nosso campo muda o que achamos que sabemos e nosso entendimento sobre os estudos de informa\u00e7\u00e3o<\/em>&#8220;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na introdu\u00e7\u00e3o do cap\u00edtulo, os autores refletem sobre a relativa aus\u00eancia do debate racial nos campos da BCI (Biblioteconomia e Ci\u00eancia da Informa\u00e7\u00e3o), apresentam autoras e autores que tem buscado preencher esta lacuna. O uso da hashtag <em>#blackfishing<\/em> tem crescido nos \u00faltimos anos, o que veem como &#8220;<em>den\u00fancia do fen\u00f4meno e trazendo uma s\u00e9rie de novos elementos para a discuss\u00e3o  do processo de (re)constru\u00e7\u00e3o da identidade negra em meio a pr\u00e1tica do racismo e suas reinven\u00e7\u00f5es como estrat\u00e9gia de manuten\u00e7\u00e3o do <\/em>status quo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na se\u00e7\u00e3o a seguir, os autores discutem identidade racial e as reinven\u00e7\u00f5es dos racismos nas m\u00eddias sociais. O hist\u00f3rico da explora\u00e7\u00e3o do racismo anti-negro como pr\u00e1tica recreativa em dom\u00ednios intelectuais e sexuais \u00e9 apresentado a partir de autores como Frantz Fanon e Stuart Hall. \u00c9 especialmente importante a apresenta\u00e7\u00e3o deste hist\u00f3rico e reflex\u00e3o para lembrar que a maior parte dos fen\u00f4menos digitais, inclusive pr\u00e1ticas racistas, n\u00e3o nascem de um v\u00e1cuo, mas s\u00e3o desdobramentos e reinven\u00e7\u00f5es de opress\u00f5es e resist\u00eancias j\u00e1 inscritas nas culturas em quest\u00e3o. No caso das narrativas das mulheres negras, autoras como Helenise da Cruz Concei\u00e7\u00e3o, Antonio Carlos da Concei\u00e7\u00e3o e Dayana Souza s\u00e3o interligadas na reflex\u00e3o sobre identidades e blackfishing, praticado com frequ\u00eancia por mulheres brancas, que costumam ser as protagonistas dos conte\u00fados publicit\u00e1rios no mercado de beleza e decorrentes influenciadoras na \u00e1rea:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>ainda que as m\u00eddias sociais possam proporcionar maior visibilidade e empoderamento  da mulher negra, tendo inclusive \u201ca quest\u00e3o da est\u00e9tica negra como  agenciadora de constru\u00e7\u00e3o de identidade\u201d (Souza, 2018, p.109), com o blackfishing  n\u00e3o s\u00f3 as narrativas digitais, mas o pr\u00f3prio lugar da mulher negra \u00e9 negado e seus  tra\u00e7os identit\u00e1rios usurpados.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"725\" height=\"722\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ariana-grande-blackfishing.jpg?fit=580%2C578&amp;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-11661\" srcset=\"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ariana-grande-blackfishing.jpg 725w, https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ariana-grande-blackfishing-300x300.jpg 300w, https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ariana-grande-blackfishing-580x578.jpg 580w, https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ariana-grande-blackfishing-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 725px) 100vw, 725px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto m\u00e9todo principal, os autores realizam uma abordagem de an\u00e1lise de redes de conversa\u00e7\u00f5es e sentidos com o mapeamento de 1.403 micronarrativas sobre o blackfishing no Twitter, que totalizam 18.170 termos e express\u00f5es. As disputas de narrativas s\u00e3o descritas em casos p\u00fablicos que geraram n\u00e3o s\u00f3 revolta de pessoas negras contra o racismo e apropria\u00e7\u00e3o cultural, quanto tr\u00e9plicas de racistas que tentam deslegitimar o discurso antiracista.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Observamos que a discuss\u00e3o sobre  o racismo nas redes sociais como um todo, e especificamente no Twitter, tem  como tend\u00eancia a nega\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno a partir de uma perspectiva hist\u00f3rica.  No campo dos estudos \u00e9tnicorraciais \u00e9 evidente que a problem\u00e1tica tem ra\u00edzes hist\u00f3ricas, no Brasil podemos citar al\u00e9m da escraviza\u00e7\u00e3o, a falta de interesse do Estado, manifestada na aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas para a popula\u00e7\u00e3o<br> negra no tocante aos seus direitos fundamentais.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A an\u00e1lise levantou termos por frequ\u00eancia e discorre sobre como s\u00e3o usados para defender pontos de vista antag\u00f4nicos a depender dos emissores. As den\u00fancias contra o blackfishing recebem numerosas respostas em discord\u00e2ncia, mostrando esfor\u00e7os e motiva\u00e7\u00f5es coletivas para deslegitimar a cr\u00edtica negra e refor\u00e7ar o lugar racista da apropria\u00e7\u00e3o cultural branca, o que levam os autores a concluir que &#8220;<em>aduz uma resist\u00eancia assustadora a esses avan\u00e7os, na contemporaneidade, ao que parece, qualquer passo dado em dire\u00e7\u00e3o a uma sociedade mais igualit\u00e1ria \u00e9 visto como amea\u00e7a e reprimido violentamente<\/em>&#8220;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acima temos apenas um pequenino resumo de alguns pontos e colabora\u00e7\u00f5es do cap\u00edtulo dos autores, que merece ser lido em toda sua densidade e complexidade. Baixe a vers\u00e3o digital e\/ou compre a vers\u00e3o impressa do livro em  <a href=\"http:\/\/www.literarua.com.br\/livro\/olhares-afrodiasporicos\">http:\/\/www.literarua.com.br\/livro\/olhares-afrodiasporicos<\/a> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Blackfishing \u00e9 uma pr\u00e1tica quando algu\u00e9m finge ser negro, geralmente realizada por algu\u00e9m branco, para buscar algum benef\u00edcio financeiro, afetivo, social ou pol\u00edtico. 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