{"id":10540,"date":"2018-08-24T23:06:23","date_gmt":"2018-08-25T02:06:23","guid":{"rendered":"http:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/?p=10540"},"modified":"2018-09-01T13:54:18","modified_gmt":"2018-09-01T16:54:18","slug":"o-politicamente-correto-e-a-avaliacao-critica-de-leitores-nas-midias-sociais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/o-politicamente-correto-e-a-avaliacao-critica-de-leitores-nas-midias-sociais\/","title":{"rendered":"O &#8220;politicamente correto&#8221; e a avalia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica de leitores nas m\u00eddias sociais"},"content":{"rendered":"<p>A ideia e o termo &#8220;politicamente correto&#8221; passou e passa por batalhas discursivas nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Autores da linha da Teoria Racial Cr\u00edtica, por exemplo, explicam como a Primeira Emenda na constitui\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos (que trata\u00a0de liberdade de express\u00e3o) tem sido usada por alguns grupos para defender discurso violento, racista, mis\u00f3gino e afins. A interpreta\u00e7\u00e3o insubordinada de leis que defendem discursos que servem apenas \u00e0 \u00f3dio \u00e9 vista como essencial, uma vez que &#8220;o objetivo de maximizar o debate p\u00fablico n\u00e3o \u00e9 alcan\u00e7ado em um mercado de ideias distorcido por coer\u00e7\u00e3o e privil\u00e9gio&#8221; (LAWRENCE &amp; MATSUDA, 1993)<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos termos como &#8220;politicamente correto&#8221; passaram a ser usados sobretudo por indiv\u00edduos contra qualquer tipo de sensibilidade e respeito \u00e0 minorias pol\u00edticas. O professor Ricardo Alexino Ferreira utiliza o termo &#8220;socioac\u00eantricos&#8221; para dar conta de grupos com baixa representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, social e econ\u00f4mica, que lutaram e lutam por ocupar espa\u00e7os de poder, inclusive na comunica\u00e7\u00e3o, com objetivo de enfrentar &#8211; ou ao menos suavizar &#8211; as desvantagens e opress\u00f5es sist\u00eamicas que sofrem.<\/p>\n<p>No artigo &#8220;<a href=\"https:\/\/www.revistas.usp.br\/extraprensa\/article\/view\/77245\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Etnomidialogia e a interface com o politicamente correto<\/a>&#8220;, o professor Alexino (2012) apresenta um hist\u00f3rico do termo, suas aplica\u00e7\u00f5es\u00a0e controv\u00e9rsias indo do impacto do trabalho de\u00a0Michel Foucault (rela\u00e7\u00e3o entre poder\/conhecimento), Barthes (c\u00f3digos e conven\u00e7\u00f5es &#8220;invis\u00edveis&#8221; de experi\u00eancia nas linguagens) e Derrida sobre a n\u00e3o-neutralidade da l\u00edngua.<\/p>\n<p>Enfatizando o papel do jornalismo, o professor faz uma liga\u00e7\u00e3o das &#8220;cartilhas&#8221; do politicamente correto e manuais de reda\u00e7\u00e3o. A rigor, estes \u00faltimos instrumentos desde a d\u00e9cada de 1950 institucionalizam as melhores pr\u00e1ticas discursivas para o fazer jornal\u00edstico. Desde a d\u00e9cada de 1990, sobretudo, no tratamento de grupos socioac\u00eantricos tamb\u00e9m seria percebida<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;\u00e9 poss\u00edvel observar que os princ\u00edpios do politicamente correto ou um esmerado cuidado ao abordar grupos s\u00f3cio-ac\u00eantricos tem se constitu\u00eddo em preocupa\u00e7\u00e3o dos ve\u00edculos. No entanto, nem sempre essas orienta\u00e7\u00f5es s\u00e3o seguidas. S\u00e3o muitos casos flagrantes de exposi\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos pertencentes a esses grupos. Por\u00e9m, \u00e9 poss\u00edvel perceber que nesta \u00faltima d\u00e9cada tem diminu\u00eddo substancialmente estes tipos de ocorr\u00eancias, enquanto forma. Por\u00e9m, enquanto conte\u00fado, ainda s\u00e3o frequentes.&#8221; (FERREIRA, 2012, p.15)<\/p><\/blockquote>\n<p>Quanto ao ponto de cr\u00edtica dos leitores, \u00e9 excelente observar alguns ambientes de conflitos nas audi\u00eancias em plataformas digitais de publica\u00e7\u00e3o ou divulga\u00e7\u00e3o de reportagens, sobretudo as m\u00eddias sociais. Os ambientes digitais tornaram-se uma fonte que pode ser muito rica (e por vezes insalubre) para compreens\u00e3o dos n\u00edveis de engajamento dos leitores na an\u00e1lise dos enquadramentos e decis\u00f5es editoriais. Um termo muito caro \u00e0 mim \u00e9 o de &#8220;sociologia vernacular&#8221;, bastante explorado pelo pesquisador David Beer para tratar da an\u00e1lise &#8220;sociol\u00f3gica&#8221; que os indiv\u00edduos de todos os tipos de forma\u00e7\u00f5es fazem em algum sentido. De forma similar, poder\u00edamos falar de uma &#8220;an\u00e1lise vernacular do texto jornal\u00edstico&#8221; que muito se apresenta nos ambientes online. Os leitores percebem e discutem como padr\u00f5es de escrita associam termos e enquadramentos de forma diferente a depender da vulnerabilidade dos personagens de mat\u00e9rias:<\/p>\n<blockquote class=\"twitter-tweet\" data-lang=\"pt\">\n<p dir=\"ltr\" lang=\"pt\">a m\u00eddia internacional decidindo se chama um indiv\u00edduo de terrorista ou n\u00e3o<a href=\"https:\/\/t.co\/DraGN16Qta\">pic.twitter.com\/DraGN16Qta<\/a><\/p>\n<p>\u2014 Thiago Mota (@tlmota) <a href=\"https:\/\/twitter.com\/tlmota\/status\/897214440323637257?ref_src=twsrc%5Etfw\">14 de agosto de 2017<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><script async src=\"https:\/\/platform.twitter.com\/widgets.js\" charset=\"utf-8\"><\/script><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote class=\"twitter-tweet\" data-lang=\"pt\">\n<p dir=\"ltr\" lang=\"pt\">Jovem ou traficante, qual \u00e9 a cor da sua pele? <a href=\"https:\/\/t.co\/loWNawqssv\">pic.twitter.com\/loWNawqssv<\/a><\/p>\n<p>\u2014 Mussum Alive (@MussumAlive) <a href=\"https:\/\/twitter.com\/MussumAlive\/status\/998727699467206658?ref_src=twsrc%5Etfw\">22 de maio de 2018<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><script async src=\"https:\/\/platform.twitter.com\/widgets.js\" charset=\"utf-8\"><\/script><\/p>\n<p>Por\u00e9m basta clicar nos tweets acima e ler dezenas de usu\u00e1rios subestimando &#8211; de forma violenta, com frequ\u00eancia &#8211; a cr\u00edtica \u00e0s diferentes abordagens jornal\u00edsticas acima. Entre otimismos e pessimismos, a figura do &#8220;politicamente escroto&#8221; continuar\u00e1 firme, como aponta o professor Wilson Gomes:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Pois bem, os conservadores e preconceituosos encontraram uma express\u00e3o para desqualificar todo o esfor\u00e7o de \u201cdescondicionamento\u201d verbal voltado \u00e0 toler\u00e2ncia e ao respeito \u2013 \u201csomos perseguidos e oprimidos pela pol\u00edcia da corre\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d dizem por meio desta frase, do mesmo jeito que Feliciano grita que \u00e9 v\u00edtima (n\u00e3o algoz) de \u201cpersegui\u00e7\u00e3o religiosa\u201d e \u201ccristofobia\u201d. Sim, senhores, \u00e9 para politicamente canalhas que respeito e considera\u00e7\u00e3o \u00e9 uma deplor\u00e1vel \u201ccorre\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d. Curiosamente, no Brasil, virou chique dar-se um toque de rebeldia e irrever\u00eancia e come\u00e7ar ou terminar frases com \u201cacho um saco o politicamente correto\u201d. Sei. J\u00e1 eu acho chato pra caramba ser politicamente escroto.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>FERREIRA, Ricardo Alexino. Etnomidialogia e a interface com o politicamente correto. Revista Extraprensa, v. 5, n. 2, p. 1-18, 2012.<\/p>\n<p>GOMES, Wilson. Em Defesa da Vida e da Fam\u00edlia e contra o politicamente correto&#8230;Here we go. Online, 2013. Dispon\u00edvel em http:\/\/www.aldeianago.com.br\/outros-baianos\/7665-em-defesa-da-vida-e-da-familia-e-contra-o-politicamente-corretohere-we-go-por-wilson-gomes<\/p>\n<p>LAWRENCE, Charles R.; MATSUDA, Mari J. Epilogue: Burning Crosses and the RAV Case. In: Words That Wound. Routledge, 1993. p. 133-136.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ideia e o termo &#8220;politicamente correto&#8221; passou e passa por batalhas discursivas nas \u00faltimas d\u00e9cadas. 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