{"id":10435,"date":"2018-07-01T21:38:38","date_gmt":"2018-07-02T00:38:38","guid":{"rendered":"http:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/?p=10435"},"modified":"2018-07-01T23:34:34","modified_gmt":"2018-07-02T02:34:34","slug":"raca-a-diferenca-que-faz-diferenca-um-olhar-a-partir-da-teoria-da-informacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/raca-a-diferenca-que-faz-diferenca-um-olhar-a-partir-da-teoria-da-informacao\/","title":{"rendered":"Pensando Ra\u00e7a a partir da Teoria da Informa\u00e7\u00e3o: a diferen\u00e7a que faz diferen\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>Praticamente qualquer aluno meu j\u00e1 me viu citar a frase &#8220;informa\u00e7\u00e3o \u00e9 a diferen\u00e7a que faz diferen\u00e7a&#8221;. Atribu\u00edda ao matem\u00e1tico Gregory Bateson, \u00e9 um \u00f3timo modo de debater a distin\u00e7\u00e3o entre dados e informa\u00e7\u00e3o antes de chegar aos conceitos da pir\u00e2mide DIKW (Data, Information, Knowledge e Wisdom). O que Bateson quis dizer \u00e9 que informa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma observa\u00e7\u00e3o que faz diferen\u00e7a para algum &#8220;objetivo&#8221; ou em termos de &#8220;efeitos&#8221; poss\u00edveis. Em sala de aula, uso o exemplo das cores das camisas e n\u00famero de notebooks. As cores das roupas dos alunos podem compor uma &#8220;diferen\u00e7a&#8221; observ\u00e1vel. Posso contar a distribui\u00e7\u00e3o das cores. O mesmo acontece com o n\u00famero de notebooks. Mas, enquanto professor, somente esta segunda diferen\u00e7a &#8220;faz diferen\u00e7a&#8221; para meus objetivos: a partir do n\u00famero de notebooks em sala posso planejar melhor as atividades pr\u00e1ticas. As cores das roupas n\u00e3o s\u00e3o informa\u00e7\u00e3o relevante pra mim. Por outro lado, podem se tornar informa\u00e7\u00e3o\u00a0em algum exemplo sobre an\u00e1lise cultural e moda\u00a0(ex: anti-esquerdismo diminuiu o uso de vermelho? cariocas usam mais cores que paulistas?).<\/p>\n<p>\u00c9 a partir desta famosa frase do Gregory\u00a0Bateson que o pesquisador <strong>Syed Mustafa Ali <\/strong>(Open University)<strong>\u00a0<\/strong>inicia o artigo\u00a0<a href=\"https:\/\/www.triple-c.at\/index.php\/tripleC\/article\/view\/324\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em><strong>Race: The Difference that Makes a Difference<\/strong><\/em><\/a> publicado na <a href=\"https:\/\/www.triple-c.at\/index.php\/tripleC\/article\/view\/324\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">tripleC<\/a>\u00a0em 2012. O autor busca entender as interse\u00e7\u00f5es das disciplinas da Teoria Racial Cr\u00edtica e da Teoria Cr\u00edtica da Informa\u00e7\u00e3o e como elas tem abordado a quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s m\u00faltiplas \u00e1reas da Teoria da Informa\u00e7\u00e3o, o autor resgata diferentes abordagens, sobretudo as colabora\u00e7\u00f5es do fil\u00f3sofo Luciano Floridi em torno da filosofia da informa\u00e7\u00e3o, que se debru\u00e7a sobre t\u00f3picos, m\u00e9todos e teorias do campo para estudar suas defini\u00e7\u00f5es e colabora\u00e7\u00f5es. Mais recentemente,\u00a0a perspectiva das ci\u00eancias sociais como o trabalho de Scott Lash e Christian Fuchs (autor tamb\u00e9m de Social Media: A Critical Introduction) trazem panoramas cr\u00edticos de classe, g\u00eanero e ra\u00e7a mas, segundo Ali, priorizando a primeira a partir de frameworks neo-Marxistas.<\/p>\n<p>A colabora\u00e7\u00e3o da Teoria Racial Cr\u00edtica, ent\u00e3o, \u00e9 essencial para a quest\u00e3o de pesquisa proposta. Depois de citar a crescente re-leitura informada por discurso cr\u00edtico sobre ra\u00e7a de fil\u00f3sofos p\u00f3s-Iluminismo a partir do trabalho de Emmanuel Chukwudi Eze nos \u00faltimos 20 anos, Ali chega \u00e0 conclus\u00e3o de que a perspectiva informacional n\u00e3o tem sido realizada. Quando \u00e9 realizada, tende a ser de um olhar mais sociol\u00f3gico do que filos\u00f3fico, em itens como: a) exclus\u00e3o digital; b) representa\u00e7\u00e3o e rela\u00e7\u00f5es de poder em ambientes online; c) o uso de tecnologias digitais para agendas de supremacistas brancos; e d) contribui\u00e7\u00f5es africanas e afro-americanas \u00e0 teoria dos sistemas e cibern\u00e9tica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>Mas qual a colabora\u00e7\u00e3o que Teoria dos Sistemas e Teoria da Informa\u00e7\u00e3o podem trazer ao entendimento sobre ra\u00e7a, racismo e processos de racializa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A proposta que se aproxima do que o Mustafa Ali procura seria, para o autor, a formula\u00e7\u00e3o de racismo oferecida por Fuller Jr.:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Um sistema de pensamento, discurso e a\u00e7\u00e3o operado por pessoas que se classificam como &#8220;brancas&#8221; e que usam engano, viol\u00eancia e\/ou amea\u00e7a de viol\u00eancia para subjugar, usar e\/ou abusar de pessoas classificadas como &#8220;n\u00e3o-brancas&#8221; sob condi\u00e7\u00f5es que promovam a falsidade, injusti\u00e7a e incorrigibilidade em uma ou mais \u00e1reas de atividade, para o fim \u00faltimo de manter, expandir e\/ou refinar a pr\u00e1tica da supremacia branca (racismo)&#8221; (1984, 301)<\/p><\/blockquote>\n<p>Na vis\u00e3o de Fuller Jr. racismo equivale a supremacia branca e \u00e9 um sistema global composto de 9 \u00e1reas principais de atividades ou sub-sistemas: economia, educa\u00e7\u00e3o, entretenimento, trabalho, lei, pol\u00edtica, religi\u00e3o, sexo e guerra. Para Ali, a colabora\u00e7\u00e3o de Fuller Jr. \u00e9 uma formula\u00e7\u00e3o que \u00e9 orientada para ra\u00e7a de forma radicalmente alternativa a outros pensadores cr\u00edticos como Giddens, Bourdieu e Habermas.<\/p>\n<p>Em seguida, as defini\u00e7\u00f5es de Teoria Racial Cr\u00edtica e Teoria Cr\u00edtica da Informa\u00e7\u00e3o s\u00e3o vinculadas para propor\u00a0uma abordagem hermen\u00eautica reflexiva sobre ra\u00e7a e informa\u00e7\u00e3o. Quanto ao termo informa\u00e7\u00e3o, poliss\u00eamico, Ali referencia von Bayer para explicar que informa\u00e7\u00e3o pode ser vista de forma dual tanto como <em>inform-a\u00e7\u00e3o<\/em> quanto <em>in-forma\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/em>No primeiro sentido, se refere \u00e0 transmiss\u00e3o de significados e no segundo se refere \u00e0 transmiss\u00e3o de forma, que pode ser configura\u00e7\u00e3o, ordem, organiza\u00e7\u00e3o, padr\u00e3o, estrutura ou relacionamento. Neste sentido, a circula\u00e7\u00e3o de alguns padr\u00f5es de pensamento no mundo pode ser vista como informa\u00e7\u00e3o, tal como a ideia de hierarquia racial, discrimina\u00e7\u00e3o\u00a0e domina\u00e7\u00e3o associadas \u00e0 diferen\u00e7a racial.<\/p>\n<p>Assim, \u00e9 poss\u00edvel ver ra\u00e7a como <strong>sistema<\/strong> e como <strong>processo<\/strong>. Como sistema, Ali cita Charles Mills para afirmar que\u00a0racismo pode e de fato existe em pot\u00eancia puramente estrutural, isto \u00e9, em termos de rela\u00e7\u00f5es de poder incorporadas diferencialmente que n\u00e3o s\u00e3o sempre explicitamente intenacionais ent\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o dependentes de consci\u00eancia para a continuidade de sua exist\u00eancia. Assim, a ideia de &#8220;contrato racial&#8221; proposta por Mills pode ser vista como:<\/p>\n<blockquote><p>that set of formal or in-formal agreements or meta-agreements (higher-level contracts about contracts, which set the limits of the contract\u2019s validity) between the members of one subset of humans, henceforth designated by (shifting) \u201cracial\u201d (phenotypical\/genealogical\/cultural) criteria C1, C2, C3&#8230; as \u201cwhite\u201d, and coexten-sive (making due allowance for gender differentiation) with the class of full persons, to categorise the remaining subset of humans as \u201cnonwhite\u201d and of a different and inferior moral status<\/p><\/blockquote>\n<p>Barnor Hesse \u00e9 a refer\u00eancia citada a seguir para falar de ra\u00e7a como processo. Para Ali,\u00a0 mais do que estar correlacionado com a presen\u00e7a (ou aus\u00eancia) de marcadores materiais no corpo,<\/p>\n<blockquote><p>\u201cracialization [is] embodied in a series of onto-colonial taxonomies of land, climate, history, bodies, customs, language, all of which became sedimented metonymically, metaphorically, and normatively, as the assembled attributions of race\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Deste modo, a perspectiva consegue dar conta dos processos pelos quais racializa\u00e7\u00e3o acontece nas interse\u00e7\u00f5es com contextos e projetos pol\u00edtico-econ\u00f4micos de poder em cada per\u00edodo, como o acirramento do \u00f3dio contra isl\u00e2micos nos EUA nos \u00faltimos 30 anos. Por fim, o artigo enfatiza a import\u00e2ncia dessa aproxima\u00e7\u00e3o entre as \u00e1reas da ci\u00eancia da informa\u00e7\u00e3o e da teoria racial cr\u00edtica para abordar os processos de resgate de argumentos e ideais biol\u00f3gicos do conceito de ra\u00e7a gra\u00e7as a biometria, barateamento de testes gen\u00e9ticos e afins.<\/p>\n<p>Para saber mais sobre o trabalho do Syed Musfata Ali, acompanhe suas p\u00e1ginas na <a href=\"http:\/\/www9.open.ac.uk\/mct\/people\/mustafa.ali\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Open University<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/profile\/Syed_Ali156\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ResearchGate <\/a>\u00a0ou confira a palestra abaixo:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/118Bvzh9jmM\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Praticamente qualquer aluno meu j\u00e1 me viu citar a frase &#8220;informa\u00e7\u00e3o \u00e9 a diferen\u00e7a que faz diferen\u00e7a&#8221;. 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