{"id":10160,"date":"2017-02-09T12:51:35","date_gmt":"2017-02-09T14:51:35","guid":{"rendered":"http:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/?p=10160"},"modified":"2020-10-13T23:26:38","modified_gmt":"2020-10-14T02:26:38","slug":"o-potencial-contra-hegemonico-da-internet-esta-ameacado-em-tempos-de-concentracao-midiatica-no-facebook","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/o-potencial-contra-hegemonico-da-internet-esta-ameacado-em-tempos-de-concentracao-midiatica-no-facebook\/","title":{"rendered":"O potencial contra-hegem\u00f4nico da internet sob amea\u00e7a em tempos de concentra\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica no Facebook"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o s\u00e3o poucos os exemplos dos poss\u00edveis malef\u00edcios que a coleta de dados pervasiva pode trazer a indiv\u00edduos atomizados em posi\u00e7\u00f5es baixas nas hierarquias financeiras e tecnol\u00f3gicas da contemporaneidade. Em um dos casos mais famosos (descrito em MAYER-SCHONBERGER, 2009), uma professora americana, Stacy Snyder, publicou uma foto pessoal em seu perfil MySpace, na qual segurava um copo em uma festa. A legenda, <a href=\"http:\/\/www.mtv.com\/news\/1558467\/woman-denied-degree-over-drunken-pirate-myspace-photo-sues-school\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u201cdrunken pirate\u201d, dava a entender que Stacy estava consumindo bebidas alco\u00f3licas<\/a>. Os oficiais respons\u00e1veis em sua escola fizeram uma busca na internet, encontraram a foto e julgaram que Snyder n\u00e3o poderia receber o certificado para ensinar, devido a seu suposto comportamento inadequado de auto-exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Este \u00e9 um dos diversos casos lim\u00edtrofes que Mayer-Schonberger cita em seu livro para compartilhar com o leitor os problemas que diversos desenvolvimentos t\u00e9cnicos e novas pr\u00e1ticas sociais online trouxeram.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-10162\" src=\"http:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/so-youve-been-publicly-shamed-196x300.jpg\" alt=\"\" width=\"196\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/so-youve-been-publicly-shamed-196x300.jpg 196w, https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/so-youve-been-publicly-shamed-98x150.jpg 98w, https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/so-youve-been-publicly-shamed-768x1176.jpg 768w, https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/so-youve-been-publicly-shamed-379x580.jpg 379w, https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/so-youve-been-publicly-shamed.jpg 1672w\" sizes=\"auto, (max-width: 196px) 100vw, 196px\" \/>Com mais de uma d\u00e9cada de casos em plataformas como Facebook e Twitter, j\u00e1 h\u00e1 livros dedicados a colecionar exemplos de eventos de impactos em trajet\u00f3rias individuais como o livro de\u00a0 Jon Ronson <em>So You\u2019ve Been Publicly Shamed<\/em> (2016). Para al\u00e9m do impacto devastador que a exposi\u00e7\u00e3o de alguma informa\u00e7\u00e3o sens\u00edvel possa ter para um indiv\u00edduo espec\u00edfico, os dados tamb\u00e9m tem sido explorados por academia e imprensa quanto a seu potencial de vigil\u00e2ncia de institui\u00e7\u00f5es policiais como Estado. Preocupa\u00e7\u00f5es quanto ao uso feito pela pol\u00edcia propriamente dita, \u00f3rg\u00e3os de intelig\u00eancia como NSA (RISEN &amp; POITRAS, 2013) e por grandes empresas de <em>profiling<\/em> s\u00e3o relevantes para entender os perigos da auto-exposi\u00e7\u00e3o online (BRUNO, 2012).<\/p>\n<p>Mas outro ponto essencial \u00e9 compreender como as grandes empresas de \u201cm\u00eddia social\u201d exploram o discurso da abertura dos dados enquanto, a rigor, desenvolvem sistemas algor\u00edtmicos de controle de express\u00e3o e visibilidade de conte\u00fados. Em 2014 foi a p\u00fablico um dos estudos desenvolvidos pelo Facebook, documentado em artigo chamado <em>Experimental evidence of massive-scale emotional contagion through social networks<\/em> (KRAMER, GUILORY &amp; HANCOCK, 2014). De modo simplificado, descreve como pequenas mudan\u00e7as no algoritmo de exibi\u00e7\u00e3o de conte\u00fado no Facebook impactaram emocionalmente 700 mil pessoas na plataforma. A divulga\u00e7\u00e3o do estudo gerou amplo debate em imprensa e academia, com duras reprimendas feitas tanto por especialistas em \u00e9tica e privacidade quanto especialistas em m\u00e9todos digitais de pesquisa, como Dhiraj Murthy que argumentou que &#8220;<em>any potential scientific value of these findings (despite how valuable they may be) is outweighted by gross ethical negligence<\/em>&#8221; (MURTHY, 2015, pos.1010).<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.pnas.org\/content\/111\/24\/8788.full\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-10164 aligncenter\" src=\"http:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Experimental-evidence-of-massive-scale-emotional-contagion-through-social-networks.gif\" alt=\"\" width=\"440\" height=\"421\" \/><\/a><\/p>\n<p>O potencial assustador de impacto da plataforma no cotidiano das pessoas alcan\u00e7ou n\u00edveis definitivamente preocupantes com este estudo, levando a indaga\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m sobre os tipos poss\u00edveis de interfer\u00eancias que n\u00e3o chegam a virar documentos e artigos cient\u00edficos.<\/p>\n<p>Apesar de promover como suposta miss\u00e3o \u201c<em>to give people the power to share and make the world more open and connected<\/em>\u201d, o Facebook \u00e9 uma caixa-preta para praticamente qualquer pessoa que n\u00e3o fa\u00e7a parte da restrita lista de decisores, cientistas e engenheiros de seus quadros.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/facebook-mission.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-10168\" src=\"http:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/facebook-mission-580x387.png\" alt=\"\" width=\"580\" height=\"387\" srcset=\"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/facebook-mission-580x387.png 580w, https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/facebook-mission-150x100.png 150w, https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/facebook-mission-300x200.png 300w, https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/facebook-mission-768x512.png 768w, https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/facebook-mission.png 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px\" \/><\/a><\/p>\n<p>E, para al\u00e9m destes pontos levantados, h\u00e1 ainda uma essencial preocupa\u00e7\u00e3o sobre o impacto que o uso relativamente excessivo do Facebook frente a outras modalidades de comunica\u00e7\u00e3o online pode gerar. Al\u00e9m do debate frequente sobre os filtros-bolha e seu poss\u00edvel impacto no recrudescimento de posi\u00e7\u00f5es morais progressistas, temos tamb\u00e9m a limita\u00e7\u00e3o de potenciais generativos da internet. Plataformas sem possibilidades de edi\u00e7\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o de c\u00f3digos e funcionalidades devido a seu controle centralizado, patentes, copyright e restri\u00e7\u00f5es de acesso aos dados amea\u00e7am as atividades de <em>digital craftsmanship<\/em> (LOSEY &amp; MEINRATH, 2016).<\/p>\n<p>A metrifica\u00e7\u00e3o do cotidiano e o aparente retorno mais r\u00e1pido (ao menos o metrificado) de audi\u00eancia no Facebook faz com que pessoas comuns, empreendedores e produtores culturais deixem de explorar recursos <em>open source<\/em> para constru\u00e7\u00e3o de presen\u00e7a na internet (como <em>WordPress<\/em>, por exemplo).<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a rigor, o n\u00edvel de impacto direto que plataformas centralizadoras como o Facebook possuem no proposto pelo Artigo 19\u00ba da Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos pode ser questionado: \u201cTodo o indiv\u00edduo tem direito \u00e0 liberdade de opini\u00e3o e de express\u00e3o, o que implica o direito de n\u00e3o ser inquietado pelas suas opini\u00f5es e o de procurar, receber e difundir, sem considera\u00e7\u00e3o de fronteiras, informa\u00e7\u00f5es e ideias por qualquer meio de express\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>At\u00e9 que ponto, ent\u00e3o, as m\u00eddias sociais n\u00e3o est\u00e3o se tornando um local de restri\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es, ideias e do potencial empoderador da internet? O <em>ethos<\/em> publicit\u00e1rio que envolve as atividades criativas na internet convergem na metrifica\u00e7\u00e3o de tudo no Facebook, deixando os potenciais humanistas da web 2.0 (ROMANI &amp; KUKLINSKI, 2007).<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio questionar a efic\u00e1cia dos fins do Facebook em contraponto a objetivos de transforma\u00e7\u00e3o social, ecoando a distin\u00e7\u00e3o entre t\u00e9cnica e \u00e9tica proposta por Comparato: \u201cA t\u00e9cnica guia-se, pois, exclusivamente, pelo valor da utilidade ou efici\u00eancia dos meios da produ\u00e7\u00e3o de um resultado\u201d, enquanto trazer a \u00e9tica para o centro dos objetivos significa acentuar \u201co fim \u00faltimo visado pelo agente e o seu valor, relativamente a outras pessoas que com ele tratam, ou em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 coletividade\u201d (COMPARATO, 2006, p.504)<\/p>\n<p>Para alcan\u00e7ar estes objetivos, torna-se essencial um esfor\u00e7o coletivo cr\u00edtico para superar os enquadramentos apenas ut\u00f3picos sobre o potencial das m\u00eddias sociais. Enquanto suas rotinas produtivas n\u00e3o estiverem disseminadas entre sociedade civil, pesquisadores acad\u00eamicos e imprensa, o discurso de suposta disrup\u00e7\u00e3o quanto a anteriores hierarquias comunicacionais pode gerar mais dano do que benef\u00edcios.<\/p>\n<p>O argumento de que \u201cos meios tradicionais de comunica\u00e7\u00e3o passaram a perder espa\u00e7o para essa nova modalidade intercomunicativa, operacionalizada n\u00e3o mais por propriet\u00e1rios de ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o, mas por cidad\u00e3os comuns\u201d (MAZZUOLI, p.229), comum em discursos acad\u00eamicos, imprensa e senso comum fortalece a invisibilidade das novas pr\u00e1ticas do capitalismo cognitivo. H\u00e1 uma ag\u00eancia expandida, de fato, das pessoas atrav\u00e9s do uso da internet para se conectar, gerar conte\u00fado e realizar a\u00e7\u00f5es em prol de suas comunidades, mas parece haver pouca distin\u00e7\u00e3o sobre as origens e modelos de neg\u00f3cio das tecnologias empregadas.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel concluir que n\u00e3o existe uma equival\u00eancia entre conex\u00e3o e conectividade (tradu\u00e7\u00e3o dif\u00edcil dos conceitos de Jose van Dijck (2013): <em>connectedness<\/em> e <em>connectivity<\/em>). Por um lado a cultura participativa \u00e9 promovida pelas pessoas e seus interesses de sociabilidade e compartilhamento, reapropriando sim as m\u00eddias sociais para fins construtivos tanto do ponto de vista pessoal quanto societ\u00e1rio. Mas, ao mesmo tempo, est\u00e1 presente tamb\u00e9m a transforma\u00e7\u00e3o dos pontos de dados relacionais e de atributos sobre os indiv\u00edduos e seus comportamentos, empreendida pelo Facebook para fortalecer seus modelos de neg\u00f3cio e centralizar a internet.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>BRUNO, Fernanda.\u00a0<strong>Rastros Digitais: o que eles se tornam quando vistos sob a perspectiva da teoria ator-rede?\u00a0<\/strong>Comp\u00f3s, 2012.<\/p>\n<p>COMPARATO, F\u00e1bio Konder.\u00a0<strong>\u00c9tica: direito, moral e religi\u00e3o no mundo moderno<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2006.<\/p>\n<p>VAN DIJCK, Jos\u00e9.\u00a0<strong>The culture of connectivity: A critical history of social media<\/strong>. Oxford University Press, 2013.<\/p>\n<p>KRAMER, Adam DI; GUILLORY, Jamie E.; HANCOCK, Jeffrey T. Experimental evidence of massive-scale emotional contagion through social networks. <strong>Proceedings of the National Academy of Sciences<\/strong>, v. 111, n. 24, p. 8788-8790, 2014.<\/p>\n<p>LOSEY, James; MEINRATH, Sascha D. In Defense of the Digital Craftsperson. <strong>Journal of Peer Production<\/strong>, n.9, 2016.<\/p>\n<p>MAYER-SCHONBERGER, Viktor. <strong>Delete<\/strong>: the virtue of forgetting in the digital age. Princeton, Princeton University Press: 2009.<\/p>\n<p>MAZZUOLI, Valerio de Oliveira. Direitos comunicativos como direitos humanos: abrang\u00eancia, limites, acesso \u00e0 Internet e direito ao esquecimento. <strong>Revista do Direito de L\u00edngua Portuguesa<\/strong>, n\u00ba 6, (Julho\/Dezembro de 2015), p. 219-240.<\/p>\n<p>MURTHY, Dhiraj. Dislike This: Facebook\u2019s Experimental Ethics. In: WOODFIELD, Kandy (org.). <strong>Social Media in Social Research<\/strong>: Blogs on Blurring the Boundaries. Online: NatCen Social Research, 2014.<\/p>\n<p>RISEN, James; POITRAS. N.S.A. Gathers Data on Social Connections of U.S. Citizens. <strong>NY Times<\/strong>. 28\/09\/2013. Dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/www.nytimes.com\/2013\/09\/29\/us\/nsa-examines-social-networks-of-us-citizens.html\">http:\/\/www.nytimes.com\/2013\/09\/29\/us\/nsa-examines-social-networks-of-us-citizens.html<\/a><\/p>\n<p>ROMAN\u00cd, Crist\u00f3bal C.; KUKLINSKI, Hugo P. <strong>Planeta Web 2.0<\/strong>: Inteligencia colectiva o medios fast food. M\u00e9xico: 2007. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.planetaWeb2.net\/&gt;.<\/p>\n<p>RONSON, Jon.\u00a0<strong>So you&#8217;ve been publicly shamed<\/strong>. New York: Riverhead Books, 2016.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o s\u00e3o poucos os exemplos dos poss\u00edveis malef\u00edcios que a coleta de dados pervasiva pode trazer a indiv\u00edduos atomizados em posi\u00e7\u00f5es baixas nas hierarquias financeiras e tecnol\u00f3gicas da contemporaneidade. 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