A História da Arte, de Ernst Hans Gombrich (parte 2)

historia da arte ernst hans gombrichContinuando a série de posts sobre A História da Arte, de Ernst Hans Gombrich, veremos os cinco primeiros capítulos do livro. Relembrando que estes posts são apenas um percurso de passagem e superficial sobre alguns pontos do livro, que merece ser lido com cuidado.

1. Estranhos Começos – Povos pré-históricos e primitivos; América Antiga

Neste primeiro capítulo, Gombrich escreve sobre a arte “primitiva”. Para tanto, lembra que arte no sentido da arte dos museus, criada apenas para fins de contemplação não era o que ocorria nos primórdios da arte. Os objetos artísticos criados pelos povos primitivos eram produzidos com objetivos específicos.

Na maioria dos casos tinham funções ritualísticas e religiosas. Para dissipar um possível preconceito do leitor, Gombrich usa um bom exemplo: “suponha que pegamos uma foto de nossos esportista no jornal – nós gostaríamos de pegar uma agulha e furar seus olhos? Seria a mesma coisa de furar qualquer outro lugar do papel?”. De fato, não. A representação das coisas ainda exerce um poder sobre qualquer pessoa.

oro

Oro, Deus da Guerra - Taití, século XVIII

Portanto, as figuras de animais sob machados e outros tipos de armas nas paredes de cavernas eram um tipo de  . Assim como usamos aspas no início do texto, Gombrich também achou necessário definir que não entende “primitivo” como algo anterior em uma escala evolutiva. Estes povos utilizaram as técnicas artísticas que acharam necessárias, simples ou não, como provam alguns dos trabalhos elaboradíssimos que usa como exemplo.

Entre as obras mais “simples”, eu destaco o Deus da Guerra Oro, do Taití, do século dezoito. Nas palavras do autor: “A wooden pole to which he has given a simple face looks to him totally transformed. He takes the impression it makes as a token of its magical power”. A aparente simplicidade desse objeto, na verdade, é resultante do poder expressivo através do qual formas simples representam expressões faciais.

No fim do capítulo, depois de mostrar exemplos de arte em totens dos índios americanos, esculturas maias e aztecas e máscaras do Alasca, Gombrich diz que podemos perceber que a produção de imagens nessas primeiras civilizações não era apenas conectada com magia e religião, mas também uma primeira forma de “escrita”. Uma “simples” escultura ou totem continha em si toda uma narrativa.

2. Arte para a Eternidade – Egito, Mespotâmia, Creta

A arte egípcia influenciou os gregos que influenciaram toda a a arte ocidental desde então. As pirâmides eram literais montanhas de pedras para guardar o corpo dos grandes reis do Egito Antigo. Esta arte tinha uma função definida e prática: preservar o corpo e imagem. Esse é um dos motivos para a regularidade da representação dos objetos e seres, que tinha de trazer a ocorrência mais reconhecível de cada elemento.

o jardim de nebamunO Jardim de Nebamin, por exemplo, traz árvores vistas de lado, peixes e patos de perfil sobre um lago “visto” de cima. A mesma mecânica era aplicada aos corpos humanos, numa representação que podemos perceber inocentemente como distorcida. Entretanto, “não se pode supor que os artistas egípcios achavam que os seres humanos eram daquele jeito. Eles simplesmente seguiram regas que permitiram-nos incluir tudo que consideravam importante na forma humana”.

Estas regras e o senso de ordem da arte egípcia fizeram com que permanecesse relativamente imutável por séculos, com a exceção de alguns períodos nos quais outras instâncias da cultura também eram repudiadas. Gombrich dá o exemplo do império de Amenophis IV, que acreditava em um único deus, Aten. Para incutir a crença na divindade, o estilo também foi modificado, trazendo novos ícones e modos de representação mais condizentes com os valores de Amenophis IV.

Este capítulo ainda traz arte cretense e mesopotâmica. As narrativas representadas nas paredes dos monumentos eram relatos de campanhas de guerra, no que Gombrich chamou de “propaganda”: os combatentes em posição de derrota e dor são apenas os das tribos rivais.

3. O Grande Despertar – Grécia, VII a V século a.c.

Para a arte grega desse período, o capítulo se inicia com uma análise da arquitetura, de formas mais modestas e orgânicas, “criadas por homens para homens”, ao contrário das tumbas e templos egípcios, criados sob ordens de “deuses” para “deuses”. A escultura grega tomou os primeiros cânones dos egípcios e assírios, mas começou a experimentar, buscando uma representação mais reslista da forma humana.

A pintura grega foi quase que totalmente perdida, a não ser a pintura de alguns vasos, que Gombrich explica terem formado um mercado de arte no qual novas técnicas eram utilizadas e experimentadas, como o escorço. Um tipo de disposição que era totalmente proibido na arte egípcia, passou a ser desenvolvido na arte grega: a maior descoberta desse período, segundo o autor.

charioteer_delphiAs esculturas gregas possuem toda uma aura reconhecível atualmente, mas Gombrich alerta para o fato de que a quase totalidade das que chegaram até nós são apenas cópias dos originais. Podem ajudar a imaginar a arte grega, mas possuem diferenças enormes. Assim como o material, a cor das estátuas também foi prejudicada. A maioria da arte grega era replata de cor, mesmo ao ponto de contrastes fortes de azul e vermelho. Estátuas como a Athena Parthenos foram originalmente produzidas em madeiras e pedras preciosas, mas o que chegou a nós foram cópias romanas em mármore.

Gombrich dá uma atenção especial ao Charioteer, atualmente no Museu Arqueológico de Delphi. Encontrato em escavações, a estátua de bronze foi uma das únicas que restaram. Durante a escassez de metal na Idade Média, as estátuas gregas foram fundidas e se perderam. Os olhos das estátuas são de cor definida, como eram a maioria das estátuas da época. As formas do rostoimitam uma face real. Os artistas gregos já possuíam no século V a.c. um conhecimento avançado da fisionomia e anotomia humanas.

Em resumo, a contribuição da arte grega desse período foi a introdução da representação em escorço e de ações mais realistas, como um vaso representando a lenda de Ulysses, para o qual Gombrich dedica algumas linhas a relação entre a posição e olhar dos personagens.

4. O Reino da Beleza – Grécia e mundo grego, IV a V século antes de cristo

Neste período, a arte grega já estava em um ponto de desenvolvimento no sentido mercadológico no qual as “pessoas comparavam os méritos das várias ‘escolas’ de arte, isto é, dos vários métodos, estilos e tradições que distinguiam os mestres das diferentes cidades”. O artista responsável pela Deusa da Vitória, por exemplo, poderia estar consciente e orgulhoso de seu poder, segundo Gombrich. “Ele não estava mais lutando contra nenhuma dificulade na representação do movimento ou escorço”.

laocoon and his sonsO maior artista do século IV segundo o autor era Praxiteles. A liberdade na representação alcançada por ele, deixando todos os traços de rigidez da arte anterior é característica desse período. Existe apenas um fraco eco do antigo esquema de representar cada parte do corpo em seu ângulo mais característico.

Sobre a escultura Laocoon e seus filhos de Hagesandros, Athenodoros e Polydoros, Gombrich se pergunta o que estava em jogo principalmente: o impacto do horror dessa cena em qual um inocente sofre por falar a verdade ou o poder de representá-la cruamente? Contextualizando-a, Gombrich também suspeita que foi uma obra que poderia te rapelo a um público costumaz de arenas de gladiadores, por exemplo.

5. Conquistadores do Mundo – Romanos, Budistas, Judeus e Cristão, I a IV século d.c.

No final do capítulo anterior, alguns exemplos de pinturas de Pompéia, preservadas em paredes das casas da pequena cidade foram alguns poucos exemplos dessa modalidade de arte do império romano que foram preservados.

Entre as criações da arquitetura, as obras do império Romano que produziram uma impressão mais duradoura segundo Gombrich foram os vários arcos que espalharam pela Irália, França, norte da África e Ásia. O elemento mais importantes na arquitetura Romana foi justamente o uso de arcos, que também caracteriza o Coliseu. Entre os marcos que este império deixou em seu território, a Coluna de Trajano traz exemplos de relevos narrativos sobre as vitórias na Dácia e são comentados por Gombrich.

A arte budista neste capítulo se resume basicamente à descrição da escultura Gautama deixando sua casa, que preservou um episódio da história de Buda. No caso da arte judaica, Gombrich dá uma atenção maior ao quadro Moisés retirando água da rocha. Aparentemente, o painel não é muito bem elaborado. No entanto, o autor acredita que se deve em parte ao fato de que alcançava seu objetivo de contar a história, ao mesmo tempo em que não avançava demais contra o mandamento sobre a produção e louvor de imagens.

+ Leia a primeira parte da resenha de A História da Arte
+ Leia a terceira parte da resenha de A História da Arte
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6 comentários sobre “A História da Arte, de Ernst Hans Gombrich (parte 2)

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  3. Seu texto está sendo de muito valia para mim. Terminei o mestrado (tardio) em educação no ensino de arte, e agora preciso retomar estudos na psicologia. Gostaria de sugestões na questão da psicologia da percepção para a semiótica, pois ela é um objeto de desejo, abraços, Jaci

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