O potencial contra-hegemônico da internet sob ameaça em tempos de concentração midiática no Facebook

Não são poucos os exemplos dos possíveis malefícios que a coleta de dados pervasiva pode trazer a indivíduos atomizados em posições baixas nas hierarquias financeiras e tecnológicas da contemporaneidade. Em um dos casos mais famosos (descrito em MAYER-SCHONBERGER, 2009), uma professora americana, Stacy Snyder, publicou uma foto pessoal em seu perfil MySpace, na qual segurava um copo em uma festa. A legenda, “drunken pirate”, dava a entender que Stacy estava consumindo bebidas alcoólicas. Os oficiais responsáveis em sua escola fizeram uma busca na internet, encontraram a foto e julgaram que Snyder não poderia receber o certificado para ensinar, devido a seu suposto comportamento inadequado de auto-exposição pública. Este é um dos diversos casos limítrofes que Mayer-Schonberger cita em seu livro para compartilhar com o leitor os problemas que diversos desenvolvimentos técnicos e novas práticas sociais online trouxeram.

Com mais de uma década de casos em plataformas como Facebook e Twitter, já há livros dedicados a colecionar exemplos de eventos de impactos em trajetórias individuais como o livro de  Jon Ronson So You’ve Been Publicly Shamed (2016). Para além do impacto devastador que a exposição de alguma informação sensível possa ter para um indivíduo específico, os dados também tem sido explorados por academia e imprensa quanto a seu potencial de vigilância de instituições policiais como Estado. Preocupações quanto ao uso feito pela polícia propriamente dita, órgãos de inteligência como NSA (RISEN & POITRAS, 2013) e por grandes empresas de profiling são relevantes para entender os perigos da auto-exposição online (BRUNO, 2012).

Mas outro ponto essencial é compreender como as grandes empresas de “mídia social” exploram o discurso da abertura dos dados enquanto, a rigor, desenvolvem sistemas algorítmicos de controle de expressão e visibilidade de conteúdos. Em 2014 foi a público um dos estudos desenvolvidos pelo Facebook, documentado em artigo chamado Experimental evidence of massive-scale emotional contagion through social networks (KRAMER, GUILORY & HANCOCK, 2014). De modo simplificado, descreve como pequenas mudanças no algoritmo de exibição de conteúdo no Facebook impactaram emocionalmente 700 mil pessoas na plataforma. A divulgação do estudo gerou amplo debate em imprensa e academia, com duras reprimendas feitas tanto por especialistas em ética e privacidade quanto especialistas em métodos digitais de pesquisa, como Dhiraj Murthy que argumentou que “any potential scientific value of these findings (despite how valuable they may be) is outweighted by gross ethical negligence” (MURTHY, 2015, pos.1010).

O potencial assustador de impacto da plataforma no cotidiano das pessoas alcançou níveis definitivamente preocupantes com este estudo, levando a indagações também sobre os tipos possíveis de interferências que não chegam a virar documentos e artigos científicos.

Apesar de promover como suposta missão “to give people the power to share and make the world more open and connected”, o Facebook é uma caixa-preta para praticamente qualquer pessoa que não faça parte da restrita lista de decisores, cientistas e engenheiros de seus quadros.

E, para além destes pontos levantados, há ainda uma essencial preocupação sobre o impacto que o uso relativamente excessivo do Facebook frente a outras modalidades de comunicação online pode gerar. Além do debate frequente sobre os filtros-bolha e seu possível impacto no recrudescimento de posições morais progressistas, temos também a limitação de potenciais generativos da internet. Plataformas sem possibilidades de edição, exploração de códigos e funcionalidades devido a seu controle centralizado, patentes, copyright e restrições de acesso aos dados ameaçam as atividades de digital craftsmanship (LOSEY & MEINRATH, 2016).

A metrificação do cotidiano e o aparente retorno mais rápido (ao menos o metrificado) de audiência no Facebook faz com que pessoas comuns, empreendedores e produtores culturais deixem de explorar recursos open source para construção de presença na internet (como WordPress, por exemplo).

Então, a rigor, o nível de impacto direto que plataformas centralizadoras como o Facebook possuem no proposto pelo Artigo 19º da Declaração Universal dos Direitos Humanos pode ser questionado: “Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão”.

Até que ponto, então, as mídias sociais não estão se tornando um local de restrição de informações, ideias e do potencial empoderador da internet? O ethos publicitário que envolve as atividades criativas na internet convergem na metrificação de tudo no Facebook, deixando os potenciais humanistas da web 2.0 (ROMANI & KUKLINSKI, 2007).

É necessário questionar a eficácia dos fins do Facebook em contraponto a objetivos de transformação social, ecoando a distinção entre técnica e ética proposta por Comparato: “A técnica guia-se, pois, exclusivamente, pelo valor da utilidade ou eficiência dos meios da produção de um resultado”, enquanto trazer a ética para o centro dos objetivos significa acentuar “o fim último visado pelo agente e o seu valor, relativamente a outras pessoas que com ele tratam, ou em relação à coletividade” (COMPARATO, 2006, p.504)

Para alcançar estes objetivos, torna-se essencial um esforço coletivo crítico para superar os enquadramentos apenas utópicos sobre o potencial das mídias sociais. Enquanto suas rotinas produtivas não estiverem disseminadas entre sociedade civil, pesquisadores acadêmicos e imprensa, o discurso de suposta disrupção quanto a anteriores hierarquias comunicacionais pode gerar mais dano do que benefícios.

O argumento de que “os meios tradicionais de comunicação passaram a perder espaço para essa nova modalidade intercomunicativa, operacionalizada não mais por proprietários de veículos de comunicação, mas por cidadãos comuns” (MAZZUOLI, p.229), comum em discursos acadêmicos, imprensa e senso comum fortalece a invisibilidade das novas práticas do capitalismo cognitivo. Há uma agência expandida, de fato, das pessoas através do uso da internet para se conectar, gerar conteúdo e realizar ações em prol de suas comunidades, mas parece haver pouca distinção sobre as origens e modelos de negócio das tecnologias empregadas.

É possível concluir que não existe uma equivalência entre conexão e conectividade (tradução difícil dos conceitos de Jose van Dijck (2013): connectedness e connectivity). Por um lado a cultura participativa é promovida pelas pessoas e seus interesses de sociabilidade e compartilhamento, reapropriando sim as mídias sociais para fins construtivos tanto do ponto de vista pessoal quanto societário. Mas, ao mesmo tempo, está presente também a transformação dos pontos de dados relacionais e de atributos sobre os indivíduos e seus comportamentos, empreendida pelo Facebook para fortalecer seus modelos de negócio e centralizar a internet.

 

* Texto originalmente redigido como position paper para a disciplina Direitos à Comunicação na Sociedade da Informação, no doutorado da UMESP, com o prof. Fábio Josgrilberg

 

Referências

BRUNO, Fernanda. Rastros Digitais: o que eles se tornam quando vistos sob a perspectiva da teoria ator-rede? Compós, 2012.

COMPARATO, Fábio Konder. Ética: direito, moral e religião no mundo moderno. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

VAN DIJCK, José. The culture of connectivity: A critical history of social media. Oxford University Press, 2013.

KRAMER, Adam DI; GUILLORY, Jamie E.; HANCOCK, Jeffrey T. Experimental evidence of massive-scale emotional contagion through social networks. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 111, n. 24, p. 8788-8790, 2014.

LOSEY, James; MEINRATH, Sascha D. In Defense of the Digital Craftsperson. Journal of Peer Production, n.9, 2016.

MAYER-SCHONBERGER, Viktor. Delete: the virtue of forgetting in the digital age. Princeton, Princeton University Press: 2009.

MAZZUOLI, Valerio de Oliveira. Direitos comunicativos como direitos humanos: abrangência, limites, acesso à Internet e direito ao esquecimento. Revista do Direito de Língua Portuguesa, nº 6, (Julho/Dezembro de 2015), p. 219-240.

MURTHY, Dhiraj. Dislike This: Facebook’s Experimental Ethics. In: WOODFIELD, Kandy (org.). Social Media in Social Research: Blogs on Blurring the Boundaries. Online: NatCen Social Research, 2014.

RISEN, James; POITRAS. N.S.A. Gathers Data on Social Connections of U.S. Citizens. NY Times. 28/09/2013. Disponível em http://www.nytimes.com/2013/09/29/us/nsa-examines-social-networks-of-us-citizens.html

ROMANÍ, Cristóbal C.; KUKLINSKI, Hugo P. Planeta Web 2.0: Inteligencia colectiva o medios fast food. México: 2007. Disponível em: <http://www.planetaWeb2.net/>.

RONSON, Jon. So you’ve been publicly shamed. New York: Riverhead Books, 2016.

Quem é o Profissional de inteligência de mídias sociais no mercado brasileiro?

Acabei de perceber que não publiquei aqui o excelente trabalho da Ana Claudia Zandavalle com a pesquisa sobre o profissional de inteligência de mídias sociais no mercado brasileiro em 2016. Confira:

Relatório de Monitoramento – repercussão do documentário Axé

Lara Telles, Roberta Cardoso e Pedro Meirelles publicaram interessante relatório de repercussão nas mídias sociais do documentário Axé, que está sendo exibido nos cinemas. Confira: