Como estudar audiências televisivas com as mídias sociais?

Em outubro aconteceu na Universidade Federal Fluminense o I Congresso TeleVisões, que reuniu centenas de pesquisadores que estudam narrativas seriadas como novelas e séries, representações e identidade nos produtos, novas mídias, convergência, mercado televisivo, mídias sociais, fãs, cultura sonora e outras temáticas relevantes.

Eu e Eloy Vieira, pesquisador doutorando na Unisinos, submetemos ao evento artigo que apresenta metodologia para o estudo de fãs no Twitter, com aplicações possíveis a diversos tipos de públicos e audiências. Depois da contextualização dos estudos sobre fãs nas mídias sociais, propomos 4 etapas (entrada, planejamento, análise e apresentação) que vão da imersão no tema e escolha inteligente de keywords e modos de observação até a construção de personas e visualização de resultados.

O artigo chama-se “Fãs, Consumo Cultural e Segunda Tela: proposições metodológicas acerca das audiências no Twitter

Resumo: O presente artigo organiza procedimentos metodológicos para o estudo de hábitos e características comportamentais de fãs imersos no fenômeno da segunda tela. Para isso, partimos do conceito de cultura da convergência, que engendrou estudos de comunidades de fãs (JENKINS, 2009) e então apresentamos uma proposta que visa compreender as imbricações entre fãs e segunda tela no Twitter a fim de atender demandas acadêmicas e mercadológicas acerca deste assunto. A proposta é construída a partir da coleta de dados baseadas em um arranjo quali-quantitativo de Análise de Redes Sociais e prevê quatro fases: Planejamento, Entrada, Análise e Apresentação.
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A pesquisa de campo experimental Perecquiana

Em Georges Perec’s experimental fieldwork; Perecquian fieldwork, publicado em dezembro de 2016 na revista Social & Cultural Geography, o pesquisador Richard Phillips da University of Sheffield aborda a pesquisa de campo experimental a partir das propostas do escritor Georges Perec. Para Phillips, “Perec antecipa e informa temas chave em pesquisa de campo contemporânea – uso do lúdico, atenção ao ordinário e escrita como prática de pesquisa – e a abordagem ensaística que apoia cada uma destas”.

O autor cita diversos modos experimentais de pesquisa nos quais se propõem aos leitores realizar trabalhos de campo, como How to be an Explorer of the world e The lonely planet guide to experimental travel; e trabalhos relacionados a geografia com proposições de observação urbana relacionados a modos de selecionar e agrupar atividades, objetos e lugares.

Propõe que as abordagens mais sistemáticas são fruto das perspectivas que se baseiam no Situacionismo e, portanto, vai comparar a perspectiva situacionista com a abordagem de Perec, defendendo que a aplicação mais estruturada de leituras do autor pode ser ainda mais útil. Phillips defende no artigo que o trabalho de Perec, apesar do próprio tratar de alguns de seus livros como “sociológicos” seria eminentemente geográficos. Na França dos anos 60 e 70, evidentemente, a sociologia estava mais em voga, daí a aproximação mais clara. Porém, tanto o Tentativa de Esgotamento de um Local Parisiense como o próprio Species of Spaces além de conceitualmente estar mais próximos da geografia, também trazem a questão do espaço no título.

Phillips sugere que Perec antecipou três tendências no trabalho de campo experimental: o lúdico; a exploração de locais ordinários; e a escrita como prática de campo.

Quanto ao trabalho de campo lúdico, em contraposição ao trabalho de campo ortodoxo e mecanicista, a aproximação ao lúdico e ao jogo trouxeram frescor à exploração urbana. Apesar das regras e restrições impostas pela literatura experimental de Perec, sobretudo relacionadas aos projetos como OuLiPo, eram regras e restrições fluídas. Estão presentes o uso criativo de listas, índices, referências acadêmicas fictícias e propostas implícitas de replicação de experimentos.

Sobre a exploração de locais ordinários, livros como o Tentativa se destacam do ponto de vista da observação e descrição de um cotidiano ordinário, mas o próprio livro Vida: Modo de Usar também aplica, para produzir ficção, recursos similares. Ao descrever cada ambiente de um prédio, assim como suas histórias, em um quebra-cabeça narrativo, Perec aproxima o projeto do narrador a ideia de levantamento ou censo, incluindo desta vez as relações entre as unidades habitacionais. Os exercícios de descrição do ordinário pro’curam gerar reencantamento do já conhecido, de modo similar à proposta de Merleau-Ponty citada pelo autor ‘the act of describing the world undoes its familiarity to produce wonderment”

E ver a escrita como prática de pesquisa de campo, para Perec, passa por pensar minuciosamente e criativamente como a própria documentação e escrita será realizada. As notas de pesquisa e descrições – sejam narrativas, ensaísticas ou ‘densas – podem ser pensadas como “flat” (em “writing flatly”), que seria descrever o observado sem adicionar julgamento, camadas simbólicas ou evocações sociais, teóricas ou históricas. Entretanto, esta tentativa é aprioristicamente fadada ao fracasso parcial, pois uma escrita totalmente “factual, simple, descritive, unvarnished, empirical” é impossível de ser alcançada. A tentativa, porém, é um exercício de exploração da pesquisa. O autor propõe que

writing is fundamental to another feldwork practice: the identifcation of individual observations with classes of things and actions through categories and classes, categorisation and classifcation. Perec used lists and inventories to explore the taxonomies that are commonly deployed in the experience and interpretation of the everyday

Na conclusão o autor revisita o impacto de Georges Perec em métodos etnográficos, observação de massa e técnicas de pesquisa de mercado. A tradição “perecquiana” de pesquisa, impulsionada pelo resgate e reapropriação de suas obras, poderá nos levar para prosseguirmos experimentalmente, tentativamente, ensaisticamente.

 

Referências

PHILLIPS, Richard. Georges Perec’s experimental fieldwork; Perecquian fieldwork. Social & Cultural Geography, p. 1-21, 2016.

PEREC, Georges. A vida modo de usar. Editora Companhia das Letras, 1989.

PEREC, Georges. Tentativa de Esgotamento de um Local Parisiense. São Paulo: Editorial Gustavo Gili, 2016.

SMITH, Keri. How to be an explorer of the world: portable life museum. Penguin, 2008.

Pesquisa acadêmica: o caminho para a evolução da análise de dados no mercado

A fatia da população brasileira com ensino superior ainda é absurdamente pequena. O gráfico abaixo compara dados de 2014 da OECD, mostrando a fatia da população entre 25-64 anos com ensino superior. Apesar da relativa evolução na última decada, o Brasil conseguiu formar apenas 14%, nesta lista à frente apenas de Indonésia e China (que, devido a sua população gigantesca, acaba por ter várias vezes o número de formados que o Brasil). Japão, Rússia, Canadá e EUA superam 50%.

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Apesar desta triste realidade, são comuns os discursos que menosprezam o papel das universidades e da formação e pesquisa acadêmicas no país, sobretudo entre parte do mercado ligado à publicidade. Lembro como, no ano passado, uma matéria sobre o papel da graduação na formação de bilionarios viralizou no meio. Seu título era “Você vai se surpreender quando descobrir qual graduação mais forma bilionários” e supostamente surpreendia o leitor ao mostrar que, na verdade, na frente de cursos de Business e Engenharia, estava simplesmente a opção “Nenhuma”. O estudo mostrou que 32% dos bilionários americanos levantados não se formaram, contra 68% que se formaram em alguma graduação. Este dado foi visto como indicador, no discurso neoliberal, de que graduação não é sinônimo de “sucesso”.

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Uma das versões da reportagem.

A ironia é que cruzar dados é justamente algo que pode ser aprendido em graduações. Os dados da OECD também mostram que 45% da população americana, onde está a maioria dos bilionários, se formou. Ou seja, 55% não se formaram contra 32% dos bilionários. Bastaria ter um pouco de repertório crítico-analítico para ver que os dados da matéria mostram que os ricaços são mais educados formalmente que a média da população. E isto sem falar de todas as variáveis sistêmicas que explicam sua riqueza.

Em novembro foi publicada a pesquisa Perfil dos Profissional de Inteligência em Mídias Sociais, desenvolvida por Ana Claudia Zandavalle.  Como comentei nos resultados do ano passado, a pesquisa mostra importante fatia de pós-graduandos neste mercado, com salário muito maior que a média.

Também curioso é que grande parte destes profissionais estão alocados em agências de publicidade, que em peso “ignoram” a formação acadêmica. Mas, nas áreas de monitoramento, business intelligence e métricas, profissionais com formação acadêmica densa se destacam. Estes profissionais se destacam nas agências por capacidades adquiridas na universidade ou através de procedimentos de investigação aprendidos em grupos de pesquisa – mas as agências subestimam a formação. Ou, pior: as desmotivam publicamente.

Já no recorte do “mercado de mídias sociais”, que cerca de 8 anos atrás ainda era uma grande novidade, um fenômeno curioso aconteceu. De um lado, predominava o discurso de que as mídias sociais eram algo “novo” e por isto as formações existentes não dariam conta de suas especificidades. Balela, claro, pois decisiva mesmo é a formação em comunicação, psicologia social, linguística e disciplinas ligadas a interação humana, e não aprender a apertar botão ou onde ficam as funcionalidades na interface do Facebook. E ao mesmo tempo, por ser um mercado percebido como novo e que não requer inicialmente muito mais que um computador, as barreiras de entrada eram mínimas. Então centenas de agências surgiram neste período, diversas delas criadas por graduandos.

Foi o meu caso. Criei com amigos uma agência em 2008, quando ainda estava acabando a graduação. O ambiente propício foi a excelência acadêmica da UFBA em um laboratório com apoio externo, do mercado. Desde então, além desta agência, ao menos quatro agências/institutos nasceram das mãos daqueles ex-bolsistas. E a maior parte continua desenvolvendo, também, pesquisa acadêmica.

Entretanto, estas parceiras público-privadas em pesquisa & desenvolvimento são raras em comunicação no Brasil. Sobretudo devido ao desinteresse das empresas em retornar o que recebem direta e indiretamente das universidades e do Estado. A desvalorização da formação acadêmica em alguns meios da comunicação se intensificou ainda mais com as narrativas em torno de figuras como Steve Jobs e Mark Zuckerberg.

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Porém, a maior parte deste discurso deixa de lado a relevância do papel das universidades no início da criação de empresas como Microsoft, Apple e Facebook; deixam de lado o quanto estas empresas contratam cientistas; e como elas próprias desenvolvem estruturas que copiam as universidades. Este discurso comumente vem casado com a velha demonização do papel do estado. Mas como mostra a consultora italiana Mariana Mazzucato no excelente livro O Estado Empreendedor, mesmo a Apple deve seu sucesso ao investimento em pesquisa de base que o liberal Estados Unidos faz:

Em suma, “descobrir o que você gosta” enquanto continua sendo “louco” é muito mais fácil em um país em que o Estado desempenha um papel fundamental, assumindo o desenvolvimento das tecnologias de alto risco, fazendo os investimentos iniciais, maiores, mais arriscados e depois sustentando-os até que os atores do setor privado, em um estágio muito mais adiantado, apareçam “para brincar e se divertir”. Assim, enquanto os especialistas do “livre mercado” continuam a alertar para o perigo de o governo “escolher vencedores”, pode-se dizer que várias políticas governamentais americanas lançaram as bases que deram à Apple os instrumentos para se tornar um dos principais integrantes de uma das indústrias mais dinâmicas do século XXI.

Mas, para além desta discussão, chegamos a um momento crucial na relação da comunicação com práticas científicas. A “era do big data” e a metrificação de (quase) tudo requerem mais ciência, mais análise, mais dados, mais rigor, mais ferramentas, mais P&D. Tanto o desenvolvimento do mercado como um todo quanto dos indivíduos interessados em atuar nesta área passa por mais especialização e ciência, não menos. É hora do mercado se atualizar e ver que os cientistas acadêmicos pesquisam e aplicam há décadas inovações que a maioria das empresas nem sonham.

Promover e defender a ciência brasileira é muito importante, sobretudo no atual momento. Se você que lê este texto atua e/ou possui algum tipo de impacto no mercado da comunicação, espero que este texto possa te tocar para fazer parte desta compreensão. Não consigo entender como um brasileiro não se choque com aquele gráfico lá no topo do post. Precisamos atuar para expandir o acesso a universidades no país e sua efetiva democratização. Do ponto de vista do “mercado”, mesmo sem pensar em motivos mais nobres, este perde em muito em não consumir e disseminar a pesquisa acadêmica.

Se você é estudante e está lendo o blog para aprender algo novo, saiba que o caminho pode passar pela junção rigorosa dos diversos mundos de conhecimentos e práticas. Leia, procure, atue, pesquise, se aproprie, transforme, ensine e leve suas experiências para a universidade e para outras pessoas.

Mas por mais válida que seja esta minha crítica em si, podemos ir além e tentar afetar o mercado de forma positiva. Recentemente lançamos mais um livro gratuito (é meu quinto) e hoje trago outra novidade relacionada ao tema que discuto aqui. Fizemos a curadoria de uma lista de 100 pessoas do Brasil e do mundo que publicam conhecimento sobre Pesquisa e Monitoramento de Mídias Sociais. Isto resultou em mais de 1 mil links de artigos, vídeos, entrevistas, ferramentas e tutoriais:

100-fontes-de-monitoramento

Com uma listagem destas, é impossível dizer que há pouco conhecimento acadêmico sobre o assunto ou alegar que não o encontra.

Vamos estudar e aplicar juntos?

Pesquisa baseada em Dados Sociais Digitais: mapeamento de ferramentas e táticas de coleta de dados no Intercom

Acaba de ser publicado meu artigo “Pesquisa baseada em Dados Sociais Digitais: mapeamento de ferramentas e táticas de coleta de dados no Intercom“, na revista digital iberoamericana Razón y Palabra. O objetivo do trabalho foi mapear padrões entre os artigos publicados no evento que realizaram coleta de dados interacionais, conversacionais e opinativos em sites de redes sociais. Variáveis relacionadas a quantidade de dados, ferramentas de coleta, plataformas analisadas e apresentação dos resultados foram rastreadas à luz de questões referentes aos desafios e potencialidades destas modalidades de pesquisa.

Total de Artigos x Artigos baseados em Coleta de Dados Sociais

O congresso da Intercom, Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, é o maior congresso de ciências da comunicação no Brasil. Além de conferências, traz grupos de trabalho, atividades de exposição competitiva de produtos laboratoriais, lançamento de livros e outros espaços de sociabilidade e colaboração entre pesquisadores do Brasil e outros países. A produção publicada neste evento serviu de indicador para refletir sobre as oportunidades, desafios e tendências que a oferta de dados nos sites de redes sociais trazem para os pesquisadores acadêmicos.

principais fontes de dados sociais digitais

Os GTs diretamente relacionados à mídias sociais neste congresso foram mapeados: Núcleo de Pesquisa em Tecnologias da Informação e da Comunicação [até 2008) e os grupos Cibercultura e Conteúdos Digitais e Convergências Tecnológicas a partir de 2009. A partir da filtragem de 704 artigos, cheguei a 72 que trabalharam diretamente dados interacionais, conversacionais e opinativos. As questões de pesquisa abaixo são respondidas e cruzadas com questionamentos sobre a redistribuição de métodos e especificidades da pesquisa digital.

a) Quantos trabalhos publicados no evento utilizaram coleta de dados sociais digitais?
b) Quais sites de redes sociais são abordados nos trabalhos do evento?
c) Quais as ferramentas utilizadas para coleta e processamento dos dados?
d) Quais os tipos de conteúdo e volume analisados nos artigos?
e) Como os pesquisadores abordam a relação entre conteúdo e indivíduos publicadores?
f) O conteúdo é apresentado de forma direta ou através de visualizações?
g) Os indivíduos observados, direta ou indiretamente, nos dados empíricos, são anonimizados?

De modo geral, os resultados parecem apontar para a necessidade de maior domínio e clareza de procedimentos metodológicos, exploração do potencial de tratamento do volume de dados e detalhamento de processos de codificação e análise que potencializem o aproveitamento das particularidades dos sites de redes sociais.

Leia o artigo em: Pesquisa baseada em Dados Sociais Digitais: mapeamento de ferramentas e táticas de coleta de dados no Intercom.