A pesquisa de campo experimental Perecquiana

Em Georges Perec’s experimental fieldwork; Perecquian fieldwork, publicado em dezembro de 2016 na revista Social & Cultural Geography, o pesquisador Richard Phillips da University of Sheffield aborda a pesquisa de campo experimental a partir das propostas do escritor Georges Perec. Para Phillips, “Perec antecipa e informa temas chave em pesquisa de campo contemporânea – uso do lúdico, atenção ao ordinário e escrita como prática de pesquisa – e a abordagem ensaística que apoia cada uma destas”.

O autor cita diversos modos experimentais de pesquisa nos quais se propõem aos leitores realizar trabalhos de campo, como How to be an Explorer of the world e The lonely planet guide to experimental travel; e trabalhos relacionados a geografia com proposições de observação urbana relacionados a modos de selecionar e agrupar atividades, objetos e lugares.

Propõe que as abordagens mais sistemáticas são fruto das perspectivas que se baseiam no Situacionismo e, portanto, vai comparar a perspectiva situacionista com a abordagem de Perec, defendendo que a aplicação mais estruturada de leituras do autor pode ser ainda mais útil. Phillips defende no artigo que o trabalho de Perec, apesar do próprio tratar de alguns de seus livros como “sociológicos” seria eminentemente geográficos. Na França dos anos 60 e 70, evidentemente, a sociologia estava mais em voga, daí a aproximação mais clara. Porém, tanto o Tentativa de Esgotamento de um Local Parisiense como o próprio Species of Spaces além de conceitualmente estar mais próximos da geografia, também trazem a questão do espaço no título.

Phillips sugere que Perec antecipou três tendências no trabalho de campo experimental: o lúdico; a exploração de locais ordinários; e a escrita como prática de campo.

Quanto ao trabalho de campo lúdico, em contraposição ao trabalho de campo ortodoxo e mecanicista, a aproximação ao lúdico e ao jogo trouxeram frescor à exploração urbana. Apesar das regras e restrições impostas pela literatura experimental de Perec, sobretudo relacionadas aos projetos como OuLiPo, eram regras e restrições fluídas. Estão presentes o uso criativo de listas, índices, referências acadêmicas fictícias e propostas implícitas de replicação de experimentos.

Sobre a exploração de locais ordinários, livros como o Tentativa se destacam do ponto de vista da observação e descrição de um cotidiano ordinário, mas o próprio livro Vida: Modo de Usar também aplica, para produzir ficção, recursos similares. Ao descrever cada ambiente de um prédio, assim como suas histórias, em um quebra-cabeça narrativo, Perec aproxima o projeto do narrador a ideia de levantamento ou censo, incluindo desta vez as relações entre as unidades habitacionais. Os exercícios de descrição do ordinário pro’curam gerar reencantamento do já conhecido, de modo similar à proposta de Merleau-Ponty citada pelo autor ‘the act of describing the world undoes its familiarity to produce wonderment”

E ver a escrita como prática de pesquisa de campo, para Perec, passa por pensar minuciosamente e criativamente como a própria documentação e escrita será realizada. As notas de pesquisa e descrições – sejam narrativas, ensaísticas ou ‘densas – podem ser pensadas como “flat” (em “writing flatly”), que seria descrever o observado sem adicionar julgamento, camadas simbólicas ou evocações sociais, teóricas ou históricas. Entretanto, esta tentativa é aprioristicamente fadada ao fracasso parcial, pois uma escrita totalmente “factual, simple, descritive, unvarnished, empirical” é impossível de ser alcançada. A tentativa, porém, é um exercício de exploração da pesquisa. O autor propõe que

writing is fundamental to another feldwork practice: the identifcation of individual observations with classes of things and actions through categories and classes, categorisation and classifcation. Perec used lists and inventories to explore the taxonomies that are commonly deployed in the experience and interpretation of the everyday

Na conclusão o autor revisita o impacto de Georges Perec em métodos etnográficos, observação de massa e técnicas de pesquisa de mercado. A tradição “perecquiana” de pesquisa, impulsionada pelo resgate e reapropriação de suas obras, poderá nos levar para prosseguirmos experimentalmente, tentativamente, ensaisticamente.

 

Referências

PHILLIPS, Richard. Georges Perec’s experimental fieldwork; Perecquian fieldwork. Social & Cultural Geography, p. 1-21, 2016.

PEREC, Georges. A vida modo de usar. Editora Companhia das Letras, 1989.

PEREC, Georges. Tentativa de Esgotamento de um Local Parisiense. São Paulo: Editorial Gustavo Gili, 2016.

SMITH, Keri. How to be an explorer of the world: portable life museum. Penguin, 2008.

Post, Mine, Repeat: livro de Helen Kennedy (@hmtk) estuda o uso cotidiano dos dados sociais digitais

post-mine-repeat-helen-kennedyAlgumas ferramentas de monitoramento de mídias sociais líderes mundialmente, como Sysomos e Brandwatch, nasceram em 2006, 2007. Ou seja, sem sequer contar práticas anteriores de estudo mercadológico das conversas nas mídias sociais, temos ao menos 10 anos deste mercado. Tornou-se cotidiano, ordinário. Mesmo grandes agências de publicidade, tipicamente retardatárias em inovação, criaram setores internos de monitoramento de mídias sociais, social listeningsocial business intelligencesocial big data ou qualquer reinvenção de anglicismo em moda.

Além de se estudar limites e possibilidades tecnológicas e metodológicas do campo, urge estudar como a prática de mineração e análise de dados sociais digitais se configurou como um mercado próprio que engendra atividades e gera impacto sobre as pessoas.  Helen Kennedy, professora da Universidade de Sheffield, publicou em 2016 o livro Post, Mine, Repeat: Social Media Data Mining Becomes Ordinary com este objetivo.

Os três primeiros capítulos da publicação buscam explicar como a mineração de dados em mídias sociais se tornou cotidiana, ordinária; a importância de estudar como estes dados são construídos e impactam a sociedade; e o que deve nos preocupar sobre a mineração de dados em mídias sociais.

A primeira preocupação é frequentemente mencionada no discurso popular: privacidade. É comum, em alguns meios, a crítica a usuários de plataformas de mídias sociais por não lerem os Termos de Uso ou ainda, ignorarem a possível coleta de dados. A partir de referências bibliográfica e entrevistas com usuários comuns de mídias sociais, Helen Kennedy explica no livro que há diferentes noções do que constitui privacidade:

there is a distinction between social privacy (controlling which people within their networks get access to their information) and institutional privacy (the mining of personal information by social media platforms and other commercial companies) and that social media users’ concerns about controlling their personal information relate to the former, not the latter (KENNEDY, 2016, p.17)

A segunda grande questão é o potencial de se criar mais e mais discriminação e controle social através dos dados nas mídias sociais. Como já escrevi ao falar do direito ao esquecimento e de escores como o Klout, as informações pervasivas sobre as pessoas são usadas por empresas e governos ao tomar decisões que podem impactar profundamente os indivíduos. De empregos a migração, até perfilização de consumo, a

Social media data mining raises serious questions in relation to rights, liberties and social justice, and the fact that the ‘data delirium’ (van Zoonen 2014) is driven by the agendas of big business and big government should trouble those of us who doubt whether these agendas serve the public interest. (KENNEDY, 2016, p.22)

Persiste em alguns meios a ideia de que dados são objetivos. No atual panorama internacional, no qual startups cospem novos produtos diariamente baseados em “inteligência” artificial com pouca ou nenhuma responsabilidade sobre seus impactos sociais, a ideia de “quantificação de tudo” se torna uma meta. Mas quantificação não é um processo de medir o mundo, mas sim de ordená-lo e gerenciá-lo:

Quantification is a process of managing the world, ordering it, not understanding it: what is lost when numbers dominate are the understandings that qualitative sensibilities help us to generate, (KENNEDY, 2016, p.136)

As preocupações metodológicas compõem a terceira preocupação central do livro e estão diretamente relacionadas à quarta, que trata das novas desigualdades de acesso a estes dados. Plataformas como Facebook reúnem trilhões de pontos de dados diários criados pelos usuários no seu uso cotidiano, mas que só a própria empresa tem acesso. Como alertam diversos pesquisadores nos últimos anos (SAVAGE & BURROWS, 2009; MARRES, 2012) testemunhamos uma redistribuição e realocação dos métodos: novos atores tem acesso exclusivo de uma quantidade nunca antes imaginada de dados – para fins também particulares.

Mas onde está a agência dos atores envolvidos? Quem toma as decisões que moldam as práticas? Kennedy vai observar sobretudo a ação dos trabalhadores deste mercado, dos usuários e o conceito de tecno-agência. A partir desta ideia, discorre sobre como as relações de poder se corporificam nas tecnologias que reproduzem e retroalimentam suas próprias razões de existirem.

Como pesquisa primária para o livro, Kennedy realizou entrevistas, acompanhamento, workshops e produção de relatórios junto a oganizações do setor público e do ramo comercial. O quarto e quinto capítulos, respectivamente, se dedicam a descrever as percepções dos profissionais envolvidos com o monitoramento de mídias sociais. Para estudar as organizações do setor público, Kennedy realizou pesquisa-ação durante 6 meses em duas câmaras municipais e um grupo de museus da Inglaterra. Junto a consultores, explorou junto às equipes destas instituições as possibilidades da mineração de dados em mídias sociais e descreveu as questões, problemas e potencialidades vistas pelas organizações.

No capítulo seguinte, focado no ramo comercial, entrevistou em profundidade 14 profissionais de agências e consultorias especializadas em monitoramento e pesquisa em mídias sociais. A pesquisadora explorou as percepções destes profissionais quanto a suas práticas, limites éticos, noções de privacidade e a dualidade entre benefícios/malefícios para as populações monitoradas. Além de diagnosticar as tentativas de justificação das práticas através de noções limitadas – e não baseadas em fatos – do que os usuários finais acham, percebeu também pouco conhecimento sobre o que efetivamente é feito com os dados, informações e insights depois que os entregam em relatórios.

Esta lacuna de informação fornece o gancho para o sexto capítulo, com o título literal What Happens to Mined Social Media Data? (O que acontece com os dados minerados de mídias sociais?). Também através de entrevistas, a pesquisadora falou com universidades, organizações de mídia, câmaras municipais, museus e ONGs. Entre os conceitos derivados das entrevistas, merece particular destaque a ideia de “Evangelismo de Dados” e o “Fetichismo dos Milhares“, através do qual Kennedy explica como parte dos profissionais entrevistados buscam determinados indicadores não para realizar ações concretas, mas para legitimar suas decisões – independente dos insights possivelmente (e frequentemente ausentes) gerados.

No capítulo seguinte, sobre preocupações dos usuários quanto a estas práticas, a autora oferece uma percepção que tenho observado nos últimos anos sobre o léxico envolvido na área. Segundo Kennedy:

By the time of writing this chapter in 2015, the term ‘social media monitoring’ is much less widely used, perhaps because of the surveillant connotations of the word ‘monitoring’. I use these and other terms (‘insights’, ‘intelligence’, ‘monitoring’, ‘analytics’, ‘data mining’) interchangeably here to reflect company language, conscious that new terms may come into usage in the time between writing and publishing the book. (KENNEDY, 2016, p. 160)

Essa mudança semântica tenta deixar de lado o aspecto vigilantista que está no cerne do mercado de monitoramento de mídias sociais. Kennedy faz uma revisão dos relativamente raros estudos sobre percepção dos usuários quanto a práticas de monitoramento de seus dados e descobre, a partir de grupos focais realizados por sua equipe, que usuários da Inglaterra, Espanha e Noruega possuem ideias bem diversas do que significa “ser monitorado”. De modo geral, a maior parte dos grupos estudados (com exceção dos profissionais de marketing): não sabem das possibilidades concretas de monitoramento de mídias sociais; não conhece os termos de uso das plataformas; e bom número tem uma visão dos limites do monitoramento baseado na ideia de “uso justo” (fairness) dos dados que pode variar muito e, definitivamente, não corresponde ao que plataformas ou analistas fazem.

Nessa relação entre usuários e profissionais, Kennedy fala de uma “flexibilidade interpretativa“:

We might characterise the ethics of commercial social media data mining as being in a state of interpretative flexibility, a term used within Science and Technology Studies (STS) to characterise socio-technical assemblages for which a range of meanings exist, whose definition and use are still under negotiation (KENNEDY, 2016, p. 192)

O oitavo capítulo busca revisar e entender potenciais de se “fazer o bem com os dados”. Inicia com uma excelente revisão do que está sendo feito mundialmente (no mundo anglófilo, na verdade) sobre uso de dados em mídias sociais para pesquisa científica. Em seguida, explora o ativismo de dados e seu estado da arte em projetos proativos e reativos.

Como conclusão, o nono capítulo revisa as novas “relações de dados” na contemporaneidade, onde o desejo pelos números e a dataficação são pervasivas. A quantificação do qualitativo traz em si o risco de transformar relações sociais e de poder em “caixas pretas”:

In datafied times, what was once qualitative is now measured quantitatively, so numbers are desired in relation to aspects of life previously the domain of the qualitative. This quantification of the qualitative should concern us because of what is lost when numbers are assigned such power, when numbers become cultural objects, and take on a new force.  (KENNEDY, 2016, p. 227)

Assim, é preciso seguir os métodos através dos meios na medida em que evoluem e se transformam, como a autora propõe a partir das reflexões do Richard Rogers:

Follow the methods of the medium as they evolve, learn from how the dominant devices treat natively digital objects, and think along with those object treatments and devices so as to recombine or build on top of them. (Rogers 2013, p. 5) (KENNEDY, 2016, p. 289)

Antes de procurar resultados e conclusões definitivas – que nunca as foram -, devemos usar o pensamento sobre métodos para entender a própria indeterminância das plataformas em seu âmago.

social researchers should embrace their under-determinacy.  (KENNEDY, 2016, p. 299)

Referências

KENNEDY, Helen. Post, Mine, Repeat. Ebook: Palgrave Macmillan, 2016.

MARRES, Noortje. The redistribution of methods: on intervention in digital social research, broadly conceived. In: Sociological Review, vol. 60, s. 1, 2012. pp. 139-165.

SAVAGE, Mike; BURROWS, Mike. Some Further Reflections on the Coming Crisis of Empirical Sociology. Sociology, vol. 43, n. 4, 2009. pp. 765–775

ROGERS, Richard. Digital Methods. Londres: The MIT Press, 2013.

Livro “Monitoramento e Pesquisa em Mídias Sociais” já está disponível!

livro-monitoramento-e-pesquisa-em-midias-sociaisÉ com muito prazer que anuncio a publicação do quinto livro co-organizado por mim! Eu e Max Stabile, meu sócio e idealizador do IBPAD, organizamos o livro Monitoramento e Pesquisa em Mídias Sociais: metodologias, aplicações e inovações e acabamos de disponibilizá-lo online.

O livro reúne colaborações de uma rede de profissionais e pesquisadores que atuam em universidades, empresas e agências.  Temas basilares, mas ainda controvertidos, como análise de sentimento, atendimento ao consumidor ou etnografia somam-se a aplicações e inovações que vão de reconhecimento de imagem a estudos sobre memes, compondo contribuição sólida ao campo.

Para todos aqueles que querem iniciar suas pesquisas utilizando dados de mídias sociais, este livro será um excelente guia no desenvolvimento de seus trabalhos. Para aqueles que já atuam ou querem atuar no mercado de mídias sociais, o livro traz referências a métodos e inovações que podem ser uma ampla fonte de novos produtos e pesquisas. 

Sumário:

  • Prefácio – Fábio Malini
  • Inteligência de Mídias Sociais no Brasil – Ana Claudia Zandavalle
  • Análise de Sentimento – Skrol Salustiano
  • Informação e Tagging – Ronaldo Araújo e Dora Steimer
  • Abordagens da coleta de dados nas mídias sociais – Marcelo Alves
  • SAC e Social CRM – Marcelo Salgado
  • Relacionamento – Clarissa Motta
  • Gestão de Crises – Mariana Oliveira
  • Brand Awareness –  Juliana Dias
  • Comunidades de Marca – Andrea Hiranaka
  • Etnografia para Mídias Sociais – Débora Zanini
  • Criação de Personas e Ilustrações – Tarcízio Silva e Yuri Amaral
  • Pesquisando Memes – Viktor Chagas e Janderson Pereira Toth
  • Análise de Redes – Max Stabile e Tarcízio Silva
  • Influenciadores – Gabriel Ishida
  • Jornalismo de Dados – Soraia Lima
  • Campanhas Eleitorais – Max Stabile e Jaqueline Buckstegge
  • Gestão do Conhecimento – Cinara Moura
  • Posfácio – Rodrigo Helcer e Milton Stiilpen

Faça o download do livro no site do IBPAD.

Tendências, coisas e descrição social em Erner, Perec, Becker e Manovich

sociologia-das-tendenciasO que compõe uma tendência? O livro “Sociologia das Tendências“, de Guillaume Erner busca responder a esta importante questão com rigor científico, baseado em referencial sociológico e sua experiência de dezenas de anos como pesquisador.

Apesar de seu foco estar na moda, assim como a editora Gustavo Gili, o livro deveria ser lido por qualquer comunicador interessado em entender como preferências por estilos, produtos e comportamentos flutuam ao longo do tempo.

O primeiro capítulo, então, busca definir tendências e seus vários níveis de tipologia, como não comerciais x comerciais; tendências confidenciais x massivas; funcionais e não-funcionais; ideológicas e não ideológicas. Quanto a esta última, traz um insight que explica parte da dificuldade de transformar o estudo de tendências em aspectos objetivamente mensuráveis ou pesquisáveis:

“as tendências ideológicas, a exemplo das tendências funcionais, obedecem a ‘boas razões’ que o sujeito pode evocar espontaneamente. Um indivíduo interessado pelo budismo é, em geral, capaz de expor o que o atrai nesse dogma; do mesmo modo, o fato de querer um carro econômico não decorre de uma lógica difícil de entender. Já o entusiasmo das massas pelo macaron tem origem num processo muito mais misterioso”

macarons

Macarons, um mistério disponível na boulangerie mais próxima de você (Foto: Julien Haler)

A história da “tendência” e sua transformação em motriz da sociedade é o tema do segundo capítulo, que revisita pontos chave do desenvolvimento do capitalismo como a revolução industrial, a cultura do automóvel e as primeiras revistas de moda na Europa. O novo ethos da modernidade foi essencial para a viabilização de uma cultura da moda:

Essa “neomania” tem uma história, afirma Colin Campbell; ela surgiu após os séculos conservadores que desprezavam o novo. Somente com o desaparecimento da sociedade tradicional, a paixão pela moda se difundiu pela sociedade: o indivíduo passou a ter a possibilidade de molar tanto a sociedade quanto sua pessoa segundo suas vontades.

O terceiro capítulo busca discutir o essencialismo das tendências e seus limites. A partir semiologia de Roland Barthes, insere as ideias pertinentes aos símbolos incorporados em objetos e comportamentos, que seriam representativos de coisas e valores terceiros. Assim, as tendências seriam sempre calcadas no tempo e espaço. Entender o espírito do tempo permite compreender as tendências – as fichas culinárias da revista Elle, por exemplo, incorporariam a ideologia pequeno-burguesa da época.

Antes de chegar ao quarto capítulo, o conceito de Robert K. Merton de “profecia autorrealizável” esclarece que “as definições coletivas de uma situação (profecia e previsões) fazem parte da situação e, assim, afetam seus desenvolvimentos futuros”. É a ponte para se entender como a distinção e difusão vertical dos gostos. estudada a partir de Bourdieu. Relações de poder entram no jogo, pois definições do que é valorizado, novo ou cool são disseminadas pela rede de influências, olhar e metáfora tão frequentes e persuasivas nas mídias digitais. Para Erner,

“Segundo a sociologia das redes, nossas influências não vêm de uma categoria de indivíduos, dotados de uma competência no assunto, mas da rede de sociabilidade à qual cada um pertence”

Para tanto, discorre um pouco sobre teoria de redes a partir de Stanley Milgram, Mark Granovetter e Erdos.

Por fim, o quinto capítulo chega a um momento no qual o estudo, análise e criação de tendências já se tornou um mercado em si mesmo. Cita empresas como a WSGN que se dedicam a analisar profissionalmente tendências, com o apoio de colaboradores observando inovações, materiais, coleções e tecnologias em todo o mundo.

as-coisas-georges-perecAo final do livro, Erner destaca que “para uma boa compreensão das tendências, é indispensável a leitrua de As Coisas, de Georges Perec, livro escrito por um sociólogo que se tornou romancista”. Boa surpresa para minhas últimas leituras deste ano, que percorreram a obra de Perec antes de chegar ao Erner. Em As Coisas, lançado em 1965, o autor apresenta um romance sutilmente sociológico sobre um casal, Jérôme e Sylvie, que larga a faculdade para trabalhar no que ele chama de “psicossociólogos”. Os protagonistas são pesquisadores de mercado para agências de publicidade, sobretudo de entrevistas em profundidade, um segmento que despontava na França da década de 1960. Ao longo do livro sem diálogos, Perec descreve a busca do casal por sentido, sobretudo no consumo e a tentativa de refinamento ou busca por tendências – seja numa mesinha de canto, na manifestação política ou na moradia em outro país.

A escolha da profissão de ambos não é detalhe na obra. Buscando sentido através das coisas, também fazem dinheiro tentando entender como as coisas são vistas e criadas. Em um trecho particularmente inspirado, Perec lista as questões de pesquisa que enfrentam:

E, durante quatro anos, talvez mais, exploraram, entrevistaram, analisaram. Por que os aspiradores tipo trenó se vendem tão mal? O que pensam, nos meios de extração mais modesta, da bebida preparada com chicória? Gosta do purê já preparado, e por quê?” Porque é leve? Porque é untuoso? Por que é fácil de fazer: um gesto e pronto? Acha que os carrinhos de bebê são realmente caros? Não está sempre disposto a fazer um sacrifício pelo conforto das crianças? Como votará a mulher francesa? Gosta de queijo em tubo? É a favor ou contra os transportes coletivos? Em que presta atenção primeiro quando come um iogurte: na cor? Na consistência? No gosto? No aroma natural? Lê muito, pouco, ou nada? Vai a restaurante? A senhora gostaria de alugar um quadro da sua casa a um negro? O que pensa a juventude? O que pensam os executivos? O que pensa a mulher de trinta anos? O que você pensa das férias? Onde passa suas férias? Gosta dos pratos congelados? Quanto imagina que custa um isqueiro como este? […]

E houve o sabão em pó, a roupa que seca, a roupa que é passada. O gás, a eletricidade, o telefone. As crianças. As roupas e as roupas de baixo. A mostarda. As sopas em pacote, as sopas em lata. Os cabelos: como lavá-los, como pintá-los, como mantê-los, como fazê-los brilhar. Os estudantes, as unhas, os xaropes para a tosse, as máquinas de escrever, os adubos, os tratores, as diversões, os presentes, a papelaria, a linha branca, a política, as autoestradas, as bebidas alcoólicas, as águas minerais, os queijos e as conservas, as lâmpadas e as cortinas, os seguros, a jardinagem.

Nada do que era humano lhe foi alheio” (PEREC ,2012, p.26-27).

Para os prováveis leitores deste blog – profissionais da “nova” área das mídias sociais, sobretudo das que envolvem monitoramento de mídias sociais -, as similaridades são gritantes. Além da profissão focada em suposta inovação e descoberta dos desejos dos consumidores, a relação com o mercado tradicional de agências publicitárias também está ali. Enquanto sentem-se livres e buscam a liberdade através de seu estilo de vida longe das “amarras” do emprego formal em um momento, noutro percebem que a transição generacional os levará a cargos burocráticos – ou a pobreza. Em um período no qual vemos os negócios que se vendiam como disruptivos sucumbirem a aquisições, fusões ou perda de mercado para players calcados em capital especulativo, difícil não traçar paralelos.

Howard Becker (autor do indispensável Outsiders) dedica um artigo aos experimentos de Perec em descrição social. Ao tratar de As Coisas, Becker interpreta “descrição da sociedade sendo dominada pelo consumo material, uma sociedade na qual, mais exatamente, coisas passaram a dar forma às vidas das pessoas de um modo e grau nunca visto antes” (2001, p.75).  É uma narrativa que, ao focar no cotidiano e no ordinário, transcende o material. Em outro trecho, deixa mais explícita a interpretação do livro como dispositivo etnográfico:

As Coisas faz uso de outro dispositivo literário/etnográfico: a lista detalhada de objetos e pessoas, especialmente objetos. Uma lista sem análise explícita ou formal de seus conteúdos é um potente recurso representacional, usado mais por artistas do que cientistas sociais”. (BECKER, 2001, p.66)

Em outro trabalho, “Tentativa de esgotamento de um local parisiense”, Perec anotou tudo o que viu durante três dias em uma praça parisiense chamada Saint-Sulpice. A vibração do fluxo de pessoas, carros, animais, objetos ou mesmo elementos atmosféricos é descrita ora de forma aparentemente desencontrada, ora de forma que dá luz a classes de coisas:

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Café de La Mairie – https://calledelorco.com/2012/02/26/enumeracion-por-georges-perec-iv/

“várias dezenas, várias centenas de ações simultâneas, de microacontecimentos, cada um dos quais implicando posturas, atos motores, dispêndio de energia específicos:

discussões de dois, discussões de tres, discussões de vários: o movimento dos lábios, os gestos as mímicas expressivas

modos de locomoção: caminhando, em veículos de duas rodas (sem motor, a motor), automóveis (carros particulares, carros empresariais, carros de aluguel, autoescolas), veículos utilitários, do serviço público, transporte comunitário, ônibus de turismo

maneiras de carregar (na mão, embaixo do braço, às costas)

modos de traço (carrinho de compras)

graus de determinação ou de motivação: esperar, passear, arrastas, errar, ir, correr para, precipitar-se (em direção a um táxi livre, por exemplo), procurar, zanzar, hesitar, caminhas com passo decidido

posições do corpo: sentado (nos ônibus, nos carros, nos cafés, nos bancos)

de pé (nas paradas de ônibus, diante de uma vitrina (Laffont, casa funerária), ao lado de um táxi (pagando)

A enumeração não é apenas de coisas, mas de concentração de tipos e classes de objetos e comportamentos. Os itens são agrupados em modos, maneiras e graus que dão visibilidade a um aspecto (motor, cinético ou ‘energético’) que não prestamos atenção no dia a dia.

Foto de Georges Perec. Por trás de um grande pensador há sempre um cabelo bacana e um gato.

Foto de Georges Perec. Por trás de um grande pensador há sempre um cabelo bacana e um gato.

A relevância desta postura analítica para os adeptos dos métodos digitais e monitoramento de mídias sociais já deve ter ficado clara neste ponto. A convergência entre a descrição exaustiva e minuciosa de ambientes, fenômenos e acontecimentos sociais – e sua aplicação na percepção de tendências – se aproxima das possibilidades engendradas pela abundância de dados sociais digitais. No projeto The Exceptional and the Everyday: 144 Hours in Kiev, Manovich, Alise Tifentale, Mehrdad Yazdani e Jay Chow. Entre 17 e 22 de fevereiro,  os autores coletaram 13.208 imagens geolocalizadas no Instagram em uma área central de Kiev, durante a Revolução Ucraniana. Como resultado, as diversas análises foram publicadas em website e paper, permitindo discutir aspectos como a possibilidade (e particularidades) do discurso político no Instagram, evocação de estilos imagéticos e performáticos de mobilização e sua iconografia.

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Os autores citam o trabalho de Georges Perec em Tentativa de esgotamento de um local parisiense ao comparar seu  ponto de vista ao do escrito. Se o olhar de Perec era delimitado pelo retângulo da janela do café onde ele sentou-se naqueles três dias, o dos autores, ampliado pelas metodologias das humanidades digitais, pode fazer diferente, indo além em muitos pontos.

“uma vez que substituímos um único ponto de vista humano pelo da mídia social, pudemos esticar nosso enquadramento, para capturar uma área muito maior. Isto nos permitiu observar tanto o infra-ordinário quanto o extraordinário, e reconstruir alguns modos pelos quais interagem” (MANOVICH et al, 2014, p.84)

O trabalho nos lembra novamente que o registro da história sendo feita pode ser realizado de diferentes formas e, sobretudo, descrito de modos inovadores. A conjunção de coleta e processamento de dados com a capacidade (e energia) descritiva são aliados da análise da realidade social. A percepção de tendências e comportamentos, que se modificam e remixam cada vez mais rapidamente, hoje passa por aquela combinação.

 

Referências Bibliográficas

BECKER, Howard. Georges Perec’s Experiments in Social Description. Ethnography, vol 2, n.1, 2001.  http://eth.sagepub.com/content/2/1/63.abstract

ERNER, Guillaume. Sociologia das Tendências. São Paulo: Editora Gustavo Gili, 2015.

MANOVICH, Lev; TIFENTALE, Alise; YAZDANI, Mehrdad; CHOW, Jay.“The Exceptional and the Everyday: 144 Hours in Kyiv” The 2nd Workshop on Big Humanities Data held in conjunction with IEEE Big Data 2014 Conference. (Paper in PDF format.)

PEREC, Georges. As Coisas. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

PEREC, Georges. Tentativa de esgotamento de um local parisiense. São Paulo: Editorial Gustavo Gili, 2016 [1975].